A seguir uma edição do texto de Tomás de Aquino Silveira a Historia do Calendário, quem quiser ler o original clique no link.
PUC-Minas
Departamento de Física e Química
homenagem e agradecimentos ao Professor Roberto Boczko, do IAG-USP (Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo)
Antes de começar as observações é preciso determinar o meridiano local, ou seja, a linha norte - sul. Para este fim, traçam-se algumas circunferências com centro no pé do gnômon. Ao longo de um dia veremos que, pela manhã, a sombra do pilar irá diminuindo e sua ponta irá passando pelas circunferências, da mais externa à mais interna (pontos A, Be C ); pela tarde, a sombra irá aumentar e sua ponta passará pelas mesmas circunferências em ordem inversa (pontos C’, B’, e A’).
A seguir, escolhe-se um par de pontos que ficou marcado com precisão (por exemplo, A e A’) e determina-se seu ponto médio (M), conforme se vê na Figura. A reta obtida ligando M ao pé do gnômon é o meridiano local, sendo os Pontos Cardeais Norte e Sul definidos em função do lado onde o Sol nasce. Os pontos Cardeais Leste e Oeste ficam determinados pela perpendicular ao meridiano. A figura 2 esclarece estas posições.
Quando a sombra do gnômon passar pelo ponto M, ela terá o menor comprimento para aquele dia, e esse instante é o meio-dia verdadeiro. A cada dia o tamanho dessa sombra mínima varia em dependência da estação em que se encontre.
No caso de se estar no Hemisfério Sul, em latitudes maiores que as do Trópico de Capricórnio, as observações feitas ao longo de muitos dias mostram que a sombra, ao meio-dia verdadeiro, tem o maior comprimento na época de frio e o menor na época de calor. (veja a Fig. 3) . Nessa figura, se estivermos ao norte do Trópico de Câncer, o norte estaria à esquerda de R. Ela serviria também para um ponto situado ao sul do Trópico de Câncer; neste caso, à esquerda de R estaria o sul.
Começando, portanto, com a sombra mínima em P, teríamos uma época de temperaturas mais altas; a sombra iria aumentando até chegar a R, quando chegaria as menores temperaturas, e depois voltaria a diminuir na direção do ponto P. Observando este movimento pode se observar que o processo todo tem a duração de aproximadamente 365 dias. Aproximadamente porque a sombra, no 365.º dia, não passa exatamente por P, mas por um ponto muito próximo. O valor que hoje temos é 365,242199 dias.
O ponto Q é obtido de modo que VQ seja a bissetriz do ângulo PVR. Observando se comprova que o Ponto P corresponde ao início do Verão (solstício), Q, ao inicio do outono (equinócio) e R ao inicio do Inverno (solstício). Depois no retorno, Q coincidirá com a primavera (equinócio) e ao chegar em P (solstício) iniace, novamente o verão.
Mas Júlio césar foi além. Conhecendo a proposta feita por Ptolomeu Euergetes para o calendário egípcio, adotou-a também: a cada quatro anos haveria um de 366 dias. Esse dia seria intervalado entre os dias 23 e 24 do mês de Februarius. Cada dia do mês para os romanos tinha um nome específico, e o dia 23 de Februarius era dies sextus ante calendas martias, ou seja, o sexto dia antes das calendas (o primeiro dia) do mês de Martius. Então o dia adicional foi chamado de “bis sextus ante calendas martias”; era como se o mesmo dia fosse contado duas vezes. E o ano que continha esse dia passou ser chamado Ano Bissexto.
Apesar da simplicidade da regra de intercalação, os romanos aplicaram-na erradamente no primeiro ano, fazendo-o, ao que tudo indica, de três em três anos. Em 8 a.C. César Augusto suspendeu as intercalações, que só foram retomadas em 8 d.C. A partir dessa data aplicou-se corretamente a regra até a reforma gregoriana em 1582. Nesse período foi bissexto todo ano divisível por quatro. Ressalte-se, portanto, que a duração média do ano pelo calendário juliano é de 365,25 dias, ligeiramente mais longo que o ano solar de um valor de 0,007801 dia.
Vejamos a origem das denominações de alguns meses do calendário juliano. As de Martius a December foram atribuidas a Rômulo, lendário fundador de Roma.
O primeiro teria sido consagrado a seu pai divino, Marte, deus da vegetação e mais tarde da guerra. Aprilis, Maius e Junius têm etimologia incerta. Os outros obedeciam simplesmente à ordem de sucessão no calendário primitivo: mês cinco, mês seis, etc. Januarius deve-se ao nome de Janus,o deus de duas faces, uma das mais antigas divindades romanas. Februarius foi consagrado às festas de purificação dos mortos, as februa.
O mês Quintilis foi rebatizado de Julius, em homenagem a Júlio César, durante o consulado de Marco Antônio. Em 24 a.C. o Senado romano trocou o nome do mês Sextilis por Augustus, em honra do imperador Augusto. Mas este mês tinha 30 dias, sendo menor, portanto, que Julius, o mês dedicado a Júlio César. Para corrigir esse desequilíbrio, adicionou-se um dia a Augustus, subtraindo-o ao mês de Februarius, que passou a ter 28 dias nos anos comuns e 29 nos anos bissextos. Fez-se isto por se considerar esse período como agourento: quanto menor, melhor! Os meses de September e November passaram a ter 30 dias, para evitar três meses seguidos de 31 dias, enquanto October e December aumentaram para 31 dias. As durações dos meses passaram assim aos valores que temos hoje, sem obedecer a qualquer regra lógica, mas a caprichos políticos e superstições.
O dia M corresponde ao dia acrescentado no fim do mês de dezembro e, no caso de ano bissexto, também no fim do mês de junho. A Páscoa seria sempre em 8 de abril.
Sem dúvida esse calendário oferece uma ordenação mais racional do tempo, e sua uniformidade simplificaria os problemas de planejamento a longo prazo. Mas há dificuldades para sua açeitação, principalmente por parte dos judeus, no que se refere à fixação da data da Páscoa. Toda mudança de caráter mundial depende de muitos acordos, diplomacia, etc. Provavelmente, conviveremos muito tempo ainda com a atual forma de calendário gregoriano.
HISTÓRIA DO CALENDÁRIO
Tomás de Aquino SilveiraPUC-Minas
Departamento de Física e Química
homenagem e agradecimentos ao Professor Roberto Boczko, do IAG-USP (Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo)
Resumo
A história do calendário é apresentada com preocupação didática. São expostas as noções astronômicas que levaram os povos antigos aos meios de produzir um calendário. São revistos os calendários egípcio, babilônico, romano, juliano e gregoriano, e discutem-se propostas de reforma do calendário em uso atualmente.[1]PERÍODOS DE CONTAGEM DE TEMPO
É fácil perceber a alternância de períodos claros, associados à presença do Sol, com períodos escuros, associados à sua ausência e à presença de estrelas. Este o primeiro período natural de contagem de tempo: o dia, integrado por uma parte clara que chamamos dia claro e por uma parte escura, a noite. É fácil também perceber e acompanhar as fases da Lua. A duração de um ciclo completo das fases da Lua está entre 29 e 30 dias. O ciclo completo recebe o nome de lunação, e hoje, com relógios precisos e observações cuidadosas, sabemos que esse período compreende 29,530589 dias. É o Mês Sinódico, que se define como o intervalo de tempo médio decorrido entre duas fases iguais consecutivas da Lua. Devido a facilidade de acompanhar as fases da lua o Mês Sinódico passou a ser utilizado para agrupar os dias. Era fácil de calcular, porque as observações são simples e o período é formado por um número de dias não muito grande. Além disso, tinha uma duração aproximada à do ciclo menstrual feminino, o que certamente representava grande força mágica e ritual para agrupamentos humanos que valorizavam os cultos da fertilidade. Por isso, os primeiros calendários tiveram como base esse período, revelando-se como meras coleções de meses de 29 ou 30 dias. Com o advento da agricultura, ficou claro para os homens que o clima variava em um ciclo definido: período de frio extremo, seguido de clima ameno, seguido de calor, seguido de clima ameno e por último o retorno do frio e assim por sempre. A alguns desses períodos associavam-se fenômenos como enchentes ou secas. Observou-se também que Estrelas e constelações que podiam ser vistas no Leste ou no zenite na época mais quente não eram visíveis no período de frio. E mais: a sombra de um poste ao meio-dia mostrava-se mais curta na época de calor que no resto do tempo. Assim surgiram duas noções:- Estação, um período de tempo com certas condições meteorológicas mais ou menos uniformes, associadas a fenômenos que lhe são peculiares, como os descritos acima, e a cujo inicio era anunciado pelas estrelas e constelações que aparecessem no Oriente ou no Meio do Céu.
- Ano, intervalo de tempo necessário para as estações completarem um ciclo.
Nomes dos dias da semana provenientes do saxônico
Os povos anglo-saxônicos, ao adotarem a semana, atribuíram-lhe nomes dos seus deuses que mais se assemelhavam aos deuses gregos. Isso pode ser bem visto no idioma inglês. No caso do Sol, da Lua e de Saturno, a derivação é clara. Mas e quanto aos outros astros? No caso deles, a associação foi feita com os antigos deuses nórdicos. A Marte vinculou-se Tyr, um deus nórdico que regia a guerra e a liderança; daí seu dia ser Tiwes daeg, o que em inglês se escreveria Tiw's day, donde o termo atual Tuesday. Tyr é uma personificação arcaica do céu, e há indícios de que ele estaria mais aparentado com Zeus. Na era da dominação romana, alguns de seus atributos tinham sido transferidos para Odin, o líder dos deus nórdicos. Entre os anglo-saxões Odin era conhecido como Woden. Apesar de Woden personificar a soberania divina, o que o tornaria semelhante a Júpiter (ou Zeus, entre os gregos). Tal atributo, juntamente com sua capacidade de inspirar êxtases espirituais e sua amizade com os mortos fizeram com que ele fosse aproximado a Mercúrio. Então, o dia dedicado a Mercúrio tornou-se o Wodnes daeg, produzindo em inglês o moderno Wednesday. Por outro lado, como Thor era o deus nórdico das tempestades, raios e trovões, foi natural sua semelhança com Júpiter, donde o dia a ele dedicado tornou-se Thunres daeg, que originou o atual Thursday. Finalmente, vem a esposa de Odin, Frig, deusa nórdica da fertilidade e do amor, atributos que a associaram a Vênus romana. O dies Veneris foi chamado então de Frig daeg, hoje Friday. No caso do alemão a derivação é semelhante. Veja-se, entretanto, a forma alemã atual Mittwoch (meio da semana), que substituiu a antiga Gunsdag,que se referia a Wodan. Em relação a sequencia escolhida de sucessão dos planetas (dias), E. C. Krupp (2001) faz uma interessante observação, ele chama a atenção para o fato de que os dias estão, em parte, ordenados pela velocidade do movimento dos seus respectivos planetas através das estrelas. Se tomarmos o intervalo de tempo dispendido para um planeta percorrer as constelações do zodíaco, veremos que o mais vagaroso seria Saturno, seguido por Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e a Lua, nesta ordem. Se isso valesse inteiramente, os dias da semana se disporiam na estranha seqüência de dies Saturni, dies Jovis, dies Martis, dies Solis, dies Veneris, dies Mercurii e dies Lunae. Krupp conta também que, na astrologia helenística, cada hora do dia era regida por um dos sete planetas. O ciclo começava com Saturno, que se tornaria o regente da primeira hora do dia, e do primeiro dia da semana, que no sistema astrológico da época seria o sábado. As horas seguintes do primeiro dia da semana seriam regidas cada uma por um planeta, na ordem de velocidade crescente exposta no parágrafo anterior. No início da oitava hora o ciclo recomeçava, com a regência de Saturno. Ordem decrescente dos períodos dos ciclos planetarios: Saturno > Júpiter > Marte > Sol > Vênus > Mercúrio > Lua Ordem das horas a partir da primeira hora do Sábado: Saturno > Sol> Lua> > Marte > Mercúrio> Júpiter Em um dia (24 horas) tem-se três ciclos completos, e mais três horas. Então, a primeira hora do segundo dia seria governada pelo quarto planeta da lista, o Sol, fazendo com que tal dia fosse a ele dedicado, donde teríamos o domingo após o sábado. Continuando a seqüência de regência das horas pelo planeta, é fácil ver que o terceiro dia começaria com a regência do quarto planeta, contando-se o Sol como primeiro, na nossa lista de planetas de velocidades crescentes, sendo então tal dia dedicado à Lua. Prosseguindo-se o raciocínio, a lista estaria formada na ordem que nos é familiar: Saturno, Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus. De forma aparentemente independente, os judeus celebravam o Shabbath a cada sete dias.DURAÇÃO DO ANO
Método para medir as etapas do ano usando um gnômom Fincar vara vertical na parte horizontal de um terreno. Pode-se aproveitar algum objeto com estas características, como um poste. Só não deve ser muito fino, pois sua sombra, elemento a ser observado, poderia ficar indefinida. É recomendável ainda que o objeto tenha uma altura de pelo menos dois metros para evitar sombras muito curtas durante boa parte do ano.ORIGEM DO CALENDÁRIO
Todo calendário é um conjunto de tabelas associado a certas regras que dizem como agrupar os dias de diferentes maneiras para facilitar a sua contagem, seja a dos dias passados, seja dos vindouros. O desafio na construção de um calendário que acompanhe o ciclo solar de 365,242199 dias é o que fazer com os o,242199 de dia que sobra.Calendário egípcio
Como uma das primeiras civilizações, a egípcia cedo precisou de uma forma de regular e planejar suas atividades, principalmente as agrícolas. Estas se orientavam pelas inundações periódicas do rio Nilo, que fertilizavam as terras baixas e marcavam o começo de um novo ano agrícola. Isso fez com que os egípcios dividissem o ano não em quatro, mas em três estações, a saber: a das Inundações, a da Semeadura e a da Colheita, com início respectivamente em julho, novembro e março, de acordo com o nosso calendário. Conhecendo a duração aproximada do ano, estabeleceram que seu calendário teria três estações de quatro meses cada uma, cada mês com trinta dias, e no final haveria cinco dias adicionais (os epagômenos, o que quer dizer intercalados) perfazendo 365 dias. Ora, como o ano trópico ou solar tem a duração de 365 dias e quase* ¼ de dia*, à medida que os anos passavam o calendário egípcio se adiantava em relação aos fenômenos sazonais. De fato, um calendário com o ano fixo de 365 dias já indica o ano seguinte sem que o Sol tenha retornado a posição que ocupava no início do ano anterior, e irá acumulando uma defasagem de quase seis horas a cada ano. Esse calendário tipicamente solar, devido a sua duração fixa de 365 dias, não servia, portanto, para estabelecer as datas dos inícios das estações. Sua utilidade deve ter sido meramente religiosa. Para se fazer o controle das estações, os egípcios recorreram a um fenômeno ligada à estrela Sirius, a mais brilhante dos céus. À medida que a terra faz seu movimento em torno do Sol, este será visto contra um “fundo” de estrelas diferentes. Isto pode ser melhor percebido um pouco antes do nascer do Sol, quando é possível ver as estrelas que estão próximas do ponto onde o Sol vai nascer, e pouco depois o próprio Sol. O que se percebe é que as estrelas surgem no horizonte leste cada dia mais cedo em relação do Sol. A impressão que se tem é que elas realizam de um dia para o outro um movimento de leste para o oeste em relação ao Sol. Uma estrela pode, assim, em um dia nascer (surgir no horizonte leste) um pouco depois do Sol, no dia seguinte estar em conjunção com ele e no terceiro dia nascer um pouquinho antes do Sol, pela primeira vez. Este último fenômeno é chamado nascer helíaco dessa estrela, e pode ser observado para Sirius com relativa facilidade em virtude de seu grande brilho. E os egípcios perceberam uma notável coincidência: a data do nascimento helíaco de Sirius era muito próxima do início das cheias do Nilo. A partir desse fato estava feito o controle das estações. Além disso, esse processo permitia outro meio de medir a duração do ano. Era só contar quantos dias decorreram entre um e outro nascer helíaco de Sirius. Na realidade, o ano definido dessa forma não coincide exatamente com o ano solar; ele é denominado ano sideral, e sua duração é cerca de 20 minutos maior que a do solar, devendo-se essa diferença ao movimento de precessão do eixo de rotação da Terra. Com o passar dos séculos, os egípcios descobriram ainda que, se o início do ano egípcio coincidisse em alguma ocasião com o nascimento helíaco de Sirius, essa coincidência só voltaria a ocorrer após 1460 anos. Esse seria o tempo necessário para o início do ano egípcio percorrer todas as estações. (Ver fig. 5) Esse ciclo ficou conhecido como período Sótico, porque o nome Sirius para os egípcios era Sothis. Se eram necessários 1460 anos do calendário egípcio para ele se adiantar 365 dias, seriam necessários 1460/365 anos, ou seja, 4 anos, para que ele se adiantasse um dia. Vendo isso, em 238 a C. Ptolomeu Euergetes decretou uma reforma do calendário que consistia em adicionar um dia a cada quatro anos, corrigindo a defasagem antes que ela se acumulasse. Mas a reforma não foi implementada por oposição dos setores religiosos. Esse procedimento só foi adotado entre 26 e 23 a C., passando o calendário a ter o nome de Alexandrino. Ele sobrevive hoje no calendário Etíope e no da Igreja Copta.Calendário babilônico
Agora veremos um calendário que na sua fase inicial é lunar. O ano era definido como um período de doze meses lunares. O início de cada mês será determinado pelo aparecimento da Fase Crescente da Lua pela primeira vez no céu noturno. Como uma lunação corresponde a 29,530589 dias (valor atual), ora teríamos meses de 29 dias, ora de 30 dias. Então, o ano babilônico teria uma duração aproximada de * 354 dias* (resultado de 6 x 30 + 6 x 29), terminando onze dias “antes da hora”. Por isso acrescentava-se um 13° mês “quando necessário”, para ajustar o calendário às estações do ano. Mas aí surge um problema: quando inserir esse mês adicional? Se o fizermos uma vez a cada três anos, acrescentaremos 30 ou 29 dias, mas em três anos solares a deficiência é de 33 dias (3 x 11). O problema foi resolvido mediante uma grande descoberta da astronomia babilônica. Para entendê-la, voltemos ao nosso gnômon e suponhamos, para fixar as idéias, que exatamente na data do Solstício do Verão, determinada pela passagem da sombra mínima por P, a lua esteja entrando na Fase Crescente. São dois fenômenos desvinculados um do outro, mas esta coincidência pode ocorrer. Registrem-se a seguir, pacientemente, a seqüência das fases da Lua e os pontos por onde a sombra for passando. No ano seguinte, quando for novamente Solstício do Verão, notaremos que a Lua não está entrando na Fase Crescente. Mas continue-se registrando diariamente. O que se descobre é que o referido Solstício voltará a coincidir com aquele inicío de fase particular da Lua após 19 anos solares. Em outras palavras, a cada 19 anos solares as fases lunares voltam a ocorrer nas mesmas datas referidas do ano solar. Notemos que essa descoberta leva a uma boa determinação do período de tempo representado por uma lunação. Em 19 anos solares devem contar-se 19 x 365,242199 dias (6940 dias). O registro das fases lunares durante as observações referidas acima mostrava que nos 19 anos solares cabiam exatamente 235 lunações. Logo, 1 lunação = (6940/235) = 29,532 dias, valor bem próximo do atualmente conhecido (29,530589 dias). Como essa descoberta foi usada para orientar o calendário babilônico? Ora, em 19 anos babilônicos de doze meses lunares havia 19 x 12 lunações (ou seja, 228 lunações). Como deveria haver 235, era, portanto, necessário adicionar 7 meses lunares a cada 19 anos de seu calendário. Isto marcou a evolução do calendário babilônico de lunar para lunisolar, e representa o primeiro sistema racional de correção do calendário no mundo antigo, sem considerarmos o calendário chinês, que não influenciou nossa cultura. Esse ciclo foi descoberto pelos babilônios já em 747 a.C., mas foi usado correntemente a partir de 367 a.C. Em torno de 432 a.C. ele foi redescoberto (ou aprendido dos babilônios, não se sabe ao certo) pelo astrônomo ateniense Méton; por isso, passou a ser conhecido como ciclo metônico. O calendário babilônico teve seus princípios adotados no calendário judaico. Em sua forma atual , o ano comum consiste em doze meses de 29 e 30 dias, alternadamente. Em cada período de 19 anos, sete têm um mês adicional, mais especificamente os anos de números 3, 6, 8, 11, 14, 17, 19. São os anos embolísmicos, com duração média de 384 dias. Mas como 354 ou 384 dias também não formam um número exato de lunações, faz-se necessário, ocasionalmente, adicionar ou subtrair um dia desses anos para que eles coincidam com o ciclo das lunações. Portanto, o calendário judaico possui anos comuns de 353, 354 ou 355 dias, e anos embolísmicos de 383, 384 ou 385 dias. Os anos se contam na chamada Era da Criação, que tem início, no nosso calendário, em 7 de outubro de 3761 a.C. Devemos acrescentar uma informação. Não se sabe muito sobre os calendários usados pelos chineses, mas há indícios de que por volta de 2200 a.C. eles já empregavam um calendário semelhante ao babilônico, e com um sistema de correção baseado no ciclo de 19 anos. Estavam, portanto, nesse aspecto, mais de mil anos à frente dos povos da Mesopotâmia!CALENDÁRIO JULIANO
Origens do calendário Juliano
. O primitivo calendário romano, de origem etrusca, consistia em 304 dias, distribuídos em dez meses de 30 e 31 dias de maneira irregular. Daí vêm os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro, que significa mês sete, mês oito, mês nove, mês dez, apesar de que atualmente sejam, respectivamente, os meses nove, dez, onze e doze. O que ocorreu é que os meses de janeiro e fevereiro foram colocados posteriormente no princípio do ano, ao invés de no final. Após algumas evoluções, chegou-se a um calendário lunisolar com anos comuns de doze meses e anos especiais de treze meses. A colocação de um mês adicional (Mercedonius) era decidida pelos sacerdotes oficiais. Mas houve muito descuido desse ofício, resultando numa deficiência de cerca de 80 dias em relação às estações no tempo em que Júlio César estava no poder. É como se o calendário estivesse indicando junho, mês de frio para nós e estivéssemos ainda no verão! César decidiu resolver o problema. Com a “supervisão técnica” do astrônomo alexandrino Sosígenes, ele determinou que o ano de* 46 a.C*. (708 da fundação de Roma) tivesse 445 dias: este foi o “ano da confusão”. Adotou-se o ano solar comum de 365 dias, o mesmo do calendário egípcio, dividido em doze meses com diferentes números de dias:
Mas Júlio césar foi além. Conhecendo a proposta feita por Ptolomeu Euergetes para o calendário egípcio, adotou-a também: a cada quatro anos haveria um de 366 dias. Esse dia seria intervalado entre os dias 23 e 24 do mês de Februarius. Cada dia do mês para os romanos tinha um nome específico, e o dia 23 de Februarius era dies sextus ante calendas martias, ou seja, o sexto dia antes das calendas (o primeiro dia) do mês de Martius. Então o dia adicional foi chamado de “bis sextus ante calendas martias”; era como se o mesmo dia fosse contado duas vezes. E o ano que continha esse dia passou ser chamado Ano Bissexto.
Apesar da simplicidade da regra de intercalação, os romanos aplicaram-na erradamente no primeiro ano, fazendo-o, ao que tudo indica, de três em três anos. Em 8 a.C. César Augusto suspendeu as intercalações, que só foram retomadas em 8 d.C. A partir dessa data aplicou-se corretamente a regra até a reforma gregoriana em 1582. Nesse período foi bissexto todo ano divisível por quatro. Ressalte-se, portanto, que a duração média do ano pelo calendário juliano é de 365,25 dias, ligeiramente mais longo que o ano solar de um valor de 0,007801 dia.
Vejamos a origem das denominações de alguns meses do calendário juliano. As de Martius a December foram atribuidas a Rômulo, lendário fundador de Roma.
O primeiro teria sido consagrado a seu pai divino, Marte, deus da vegetação e mais tarde da guerra. Aprilis, Maius e Junius têm etimologia incerta. Os outros obedeciam simplesmente à ordem de sucessão no calendário primitivo: mês cinco, mês seis, etc. Januarius deve-se ao nome de Janus,o deus de duas faces, uma das mais antigas divindades romanas. Februarius foi consagrado às festas de purificação dos mortos, as februa.
O mês Quintilis foi rebatizado de Julius, em homenagem a Júlio César, durante o consulado de Marco Antônio. Em 24 a.C. o Senado romano trocou o nome do mês Sextilis por Augustus, em honra do imperador Augusto. Mas este mês tinha 30 dias, sendo menor, portanto, que Julius, o mês dedicado a Júlio César. Para corrigir esse desequilíbrio, adicionou-se um dia a Augustus, subtraindo-o ao mês de Februarius, que passou a ter 28 dias nos anos comuns e 29 nos anos bissextos. Fez-se isto por se considerar esse período como agourento: quanto menor, melhor! Os meses de September e November passaram a ter 30 dias, para evitar três meses seguidos de 31 dias, enquanto October e December aumentaram para 31 dias. As durações dos meses passaram assim aos valores que temos hoje, sem obedecer a qualquer regra lógica, mas a caprichos políticos e superstições.
