(em elaboração, se precisar avisa)
deus eterno,
amado terno,
por divindades e mortais méros:
só Eros,
além das separações, do adeuses
o mais velho dos deuses.
Não nascido nem de mãe, nem de pai,.. Eros, o mais antigo, deus dos deuses,
desejos, berceuses,
dos mais gostosos bens,
que recebemos no gens.
Ah! não sei de maior bem,
que proporcionar a um jovem
o bem de nosso amor,
nem para um amante
do que amar um mortal, desejante.
Quem deseja viver vida de artista,
não está buscando uma vida capitalista,
nem linhagem, muito menos celebridade,
honrarías, riqueza, dignidade.
Não, nada disso: só busca, a ethernidade,
no amor mortal,
fudendo com o imortal.
É, eu quero phalar, spermear,
deixar passar…
Ações mesquinhas: do amor estão desligadas.
Sem o amor, Estado, Cidadão,
Corporação, Associação,
impossibilitados estão,
de ser, sendo, serestando,
no gozozo estar,
além do bem do mal. Ouso afirmar:
se um humano que ama, praticar
uma ação feia com quem amar,
ou sofrer uma injúria, sem revidar,
sofre muito mais,
com a reprovação d’aquele que ama demais,
do que com a dos Pais,
parentes, amigos,
ou inimigos. O mesmo, com o que é amado.
Nunca fica tão perturbado,
quando, por uma falta sua, cai no drama,
e é surpreendido pela pessoa que ama. Ah! É possível ver aqui formado,
Exército, Estado,
exclusivamente de amados amantes
agora, neste instante.
Conquistaremos o fim da Guerra, inicio da Paz
a Crise, vai explodír num Zas Traz...
Uma constituição política, fervendo, insuperável,
ninguém fazendo o que for desagradável,
e todos, dançando versos, não prosas,
estimulando cenas, nas práticas mais gostosas.
Um exército, mesmo enxuto, na luta,
vence o inimigo, em qualquer disputa.
Um soldado não vai se importar,
se seus companheiros vierem espiar,
seu largar armas e desertar.
Mas nunca vai permitir
a seu amado, uma fuga sua assistir,
se não for desejo do amado, também partir.
O suicídio, a morte, então vai assumir.
Pelo medo covarde, nunca será dominado.
Nos perigos, o amigo amado,
nunca abandonar,
nem deixar matar.
Antes, aceitar ver-se sacrificado,
pela vida do adorado. Eros, inspira coragem constante,
a seus amantes,
e os torna gêmeos, não admitindo escravos.
Pelo amor, os torna livres. Bravos Aos heróis, o deus insufla coragem
é o que faz Eros, com os que por amor agem,
morrer um pelo outro, só fazem
os que verdadeiramente se amam
e não só homens, também mulheres, clamam
a morte por Paixão, como fizeste
diva Alceste... De todos os deuses, o amor,
é o mais antigo, com mais cor,
mais augusto, mais capaz .
E lhe apraz,
ao mortal virtuoso no amar,
felicidade, fazer chegar,
pela a vida a fora,
até a hora,
da morte,
eterna ethernidade, esporte. PAUSÂNIAS
Fédro, persona amada,
nós combinamos como Entrada,
no Menu deste Banquete,
nos servir d’um Sorvete,
com calda de uma Cantada
por cada um de nós, entoada,
á Éros, mais nada. Se só um Éros nos fosse dado,
estaríamos saciados.
Mas Éros existem, multiplicados
e não apenas um
e, havendo mais de um,
é bom saber a que Éros
em oração masturbamos, nossos qu’Éros. Afro-dita e Eros,
vivem, um ao outro, grudados.
Se tivesse uma só Afro-dita,
um só amor, nos sería dado.
Mas há duas Afro-ditas;
medita:
-há dois Éros então? PAUSÂNIAS
(encarando descaradamente, paquera Agatão)
vem, amor cheio de léros
vem, pros q gostam como eu, desse Éros.
Prefiro como esses, o sexo masculino
e nele amo: o divino.
A alma, virada corpo elétrico
do olho do cú, desta ótica
chamo alma, d’alma erótica.
Amo, não crianças inocentes,
mas adolescentes ,
onde barba e inteligência, começam despontar
desejos tenho de eternamente,
meus amados amar
meus garotos seduzidos, conquistados
nunca são por mim enganados
ou abandonandos,
nunca zombo, menosprézo
(ajoelha-se diante de Agatão)
ao garoto, endéuzo!
Sei que ainda há muita gente
que covardemente ,
hoje e muito antes
acham feio troca-troca de amores entre amantes
gente, que acha esse amor indecente
mas esse tesão divino em febre, quente,
quando real,
nunca pode ser chamado de mal,
muito menos repreendido,
traz vida a todos, quando vivido. CORO CANTA
Cá, onde o povo esta a fim de phalar,
feios, bonitos, vamos todos, dytirambar
belos, horrendos
aos amantes,
amores tremendos,
mortal, velho, moço,
não larga esse osso,
não é crime, sujeira,
gozar do esfíncter à moleira
Ah!!!!! PAUSÂNIAS
Mas aqui, no condomínio moralista,
o amor pelos moços, está sempre na lista,
de coisa vergonhosa.
Os moralistas temem quem goza,
tremem em suas torres, neuróticos
o fim de seus poderes despóticos. (contracena com a phala de Agatão música do Éros de Chet, João Gilberto, Billie, pode ser um sopro, de sax, baixo acustico, vassourinha, pianíssimo) Quem é esse ainda não cantado autor,
dos enredos do nosso amor?
Quero masturbar primeiro Éros,
antes dos tons,
dos dons,
que doa a nossos qÉros. Dos deuses todos, sem dúvida vem alegria,
não é sacrilégio, mas justiça, clamar hoje em dia:
Éros é o mais belo, o Riso da Orgya.
Por ser deus criança, criador, em sua criancice,
vive escapando da captura da velhice,
que vem rápida, mais depressa que devia,
descriando o corpo criador da fantasia.
Éros, não suporta velhice em sua vizinhança,
nem mesmo à distância,
adolescente eterno, criança mal criada,
cria, mantém comunicação,
com os jovens potentes em criação,
o gêmeo, sempre busca o semelhante,
o mais brilhante.
Fedro, Éros não é entidade tão anciã,
tipo Cronos ou qualquer Titã.
Éros entre as divindades,
é o que nunca deixa morrer a jovialidade,
vive na eterna mocidade.
A Éros historiadores, maus contadores,
atribuem do mundo, as dores.
Mas Ananke, deusa da necessidade,
não por maldade,
inaugurou a origem dos tempos, na violência.
Amizade e Paz, se Éros já tivesse existência,
abririam a cena de nossa primeira ascendência.
Éros é mais jovem; e além disso, delicado.
só você Homero, com os versos teus,
saberia descrever, as delicadezas deste deus. HOMERO (cantor ator, delicado, o som quase Debussy “Prélude à l'après-midi d'un Faune”- bossa nova)
Seus pés são delicados,
não se apóia ao solo dos amados,
deixa o amor voar nos suspiros,
dos mortais nos seus ethernos giros. Dança suave no que fica duro,
adora o buraco mole maduro,
pousa, repousa,
em tênue eletricidade,
mora vibrátil em corações da humanidade,
pílha as almas em alta voltagem,
de deuses, mortais, em choque de aragens.
Se encontra almas endurecidas, mal ligadas,
retira-se, e amplia ondas apaixonadas.
É o mais ágil. Se fosse rígido,
não plugava num pulso, um coração partido,
insinua-se elétrico, entra, sai,
só, sutilmente, sendo percebido, vai …
Cheio de graça, magnetismo,
brinca com o feio, de antagonismo,
faz dele flor que não repele,
é rosa a coloração de sua pele,
não se demora no que não vive a alma da flor,
ou em almas murchas, onde falta o ardor.
Produz o perfume do corpo amado,
fica um tempão lá sossegado.
No amor não suporta rotulação,
nem dos deuses, nem do rebanho da multidão.
Nem deuses, nem mortais,
são por Éros ofendidos jamais.
Sofre ou faz sofrer,
quando estuprado em seu querer .
A violência e o amor, não tem nada a ver.
É voluntário no amor, submeter-se a seu rei.
O acordo dos que querem, é justo, é lei.
Ama os prazeres da temperança.
Com Ansiedade, Carência, não dança.
O amor, dos prazeres é o maior,
não escuta Éros, a phala taboada, décor.
O speak low, a fala que sussura,
é a forma da sua bravura.
Até a Ares, deus da guerra, transfigura.
O amante, o tomado,
é mais forte que o que toma: o amado.
Éros nessa bossa, é o mais valente e corajoso,
encarando nessa sabedoria o perigoso.
É deus poeta, tão bacana,
que faz poeta, aquele que mais ama.
O mortal mais prosaico e babaca,
pode até se tornar poeta, se Éros ataca.
Éros, eterna criança, é deus criador ,
sutíl no trabalho da musa, com seu amor,
desperta na seca, a inspiração de ator,
tudo que é vivo, se forma, se reproduz,
na vida ,nas artes, Éros conduz.
Artistas são ,
os que se dão
a esse deus,
seus eus.
Ficam na obscuridade,
os sem coragem da dourada amizade. Apolo, cria a arte de jogar luz no inferno,
de dar forma e fazer o teatro etherno
por desejo e amor a Dionísíos.
Éros, de música faz seus fios,
tece matérias, dos mais secretos desejos
É ferreiro na bigorna, moldando com beijos,
com sua forja, seu fole, seu malho, as anatomias,
de corpos de atores motores de companias.
O próprio Zeus,
com Eros aprendeu,
a arte de governar deuses e mortais,
por amor mortal, amar demais.
Entre os deuses, quando Éros apareceu
briga nunca mais aconteceu.
Amor erótico à beleza,
fundadora do amor, aprendido na natureza. Muso Fedro, Éros é o mais bonito,
é quem traz o infinito no finito,
aos mortais paz,
a calma ao mar,
o silêncio aos ventos,
o leito e o sono para os tormentos.
Arranca ao isolamento, aproxima mortais.
É o iniciador, cria os liames sociais.
É quem nos guia em ofícios,
festas, danças, sacrifícios.
Faz desabrochar a doçura,
e desaparecer a linha dura.
Onde ele está, desaparece a rudeza.
Pródigo de bondade, avaro de malvadeza.
Objeto do desejo dos que não o possuem,
tesouro precioso dos que dele usufruem.
Pai das riquezas, das delícias, das paixões,
dos doces encantos, das ternas emoções.
Anjo da guarda dos amantes e amados,
esquece os pelo ódio agrupados,
adora esse nosso trabalho,
espiritual do caralho,
nossos tremores vaginais,
nossas tristezas animais,
nosso conselheiro mais gracioso,
melhor guia no gostoso do perigoso,
todo o mortal recebe dele, a imortalidade.
por esse deus entoei esse canto,
por esse deus
vamos nos cantar
no seu encanto.
Os deuses primordiais *"Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também "Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, "e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, "e Eros: o mais belo entre deuses imortais "solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos "ele doma no peito o espírito e a prudente vontade".* Como assinala Paula Philippson2, há na Teogonia três eficientes recursos com que se determinam a natureza e sentido de cada Deus.
Terra Terra, além da clareza do nome, tem um epíteto que lhe define o ser: "de todos sede irresvalável sempre". É a segurança e firmeza inabaláveis, o fundamento inconcusso de tudo (pánton hédos, v. 117), nela e por ela têm a sua sede os Deuses Olímpios (pánton hédos... athanáton, vv. 117-8). Esta referência aos Imortais que tem o Olimpo exprime integramente o que há de sagrada proximidade nesta mais remota origem: o Olimpo representa para Hesíodo a mais atual e a mais forte experiência numinosa (nele Zeus tem sua sede). É esta atualidade numinosa (expressa nos Deuses Olímpios) que Hesíodo lembra ao nomear Terra como Potestade original, porque a aparição e presença da Terra como sagrada origem de tudo implica já uma experiência atual que é a destes habitantes do Olimpo, os seus mais perfeitos e belos descendentes — estes "Deuses doadores de bens", como também os designa Hesíodo (v. 111). Tártaro O Tártaro é nevoento (invisível) e fica no fundo da Terra de largos caminhos. O verso 720 o situa "tão longe sob a Terra quanto é da Terra o Céu". A simetria estabelecida por este verso é altamente significativa. Já que Céu é uma espécie de duplo da Terra (cf. vv. 116-7), o Tártaro "no fundo da Terra" é uma espécie de duplo especular e negativo da Terra e do Céu (que são ambos "sede irresvalável para sempre"). Os vv. 740-5 o descrevem como um "vasto abismo" (khásma méga) onde se anula todo sentido de direção e onde a única possibilidade que se dá é a queda cega, sem fim e sem rumo. O Tártaro, "temível até para os Deuses imortais", é o lugar onde "se estabelece a casa temível da Noite trevosa, aí oculta por escuras nuvens" (vv. 744-5). O Tártaro, portanto, é o duplo especular e negativo (conforme a imetria descrita no verso 720 e vigorosamente enfatizada nos subseqüentes vv. 721-5) da Terra e do Céu—tanto quanto é o Céu um duplo perfeito e positivo da Terra que o "pariu igual a si mesma" (v. 126) "para cercá-la toda ao redor e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre" (vv. 127-8). A localização do Tártaro ("no fundo da Terra") e sua natureza simétrica e negativa quanto à da Terra (lugar da queda sem fim nem rumo e do império da Noite) ao mesmo tempo que o ligam íntima e essencialmente à Terra (de que ele é o contra ponto) aproximam-no e aparentam-no a Kháos, em cuja descendência se incluem Érebos (região infernal) e Noite. Eros A Eros sob a forma de uma pedra-ídolo era dirigido em Téspias pela época de Hesíodo um culto agrícola da fecundidade. Eros é a Potestade que preside à união amorosa, o seu domínio estende-se irresistível sobre Deuses e sobre homens ("de todos os Deuses e de todos os homens doma no peito o espírito e a prudente vontade"). Ele é um desejo de acasalamento que avassala todos os seres, sem que se possa opor-lhe resistência: ele é solta- membros (lysimelés). O melhor comentário que conheço (escreve Jaa Torrano) a este epíteto de Eros é uma ode de Safo em que ela descreve seu estado de paixão amorosa que, num crescente, beira a lassidão, abandono e palidez da morte, enquanto sua bem-amada entretém-se com um homem³ . E o melhor comentário que conheço a Eros como força cósmica de fecundação é este fragmento de As Danaides de Ésquilo: 3) Cf. Page. Lyrica Graeca Selecta. Oxford, Oxford University Press, 1968, frag. 199, p. 104. Essa ode, eu a traduzi assim: Parece-me par dos Deuses
ser o homem que ante a ti
senta-se e de perto te ouve
a doce voz
e o riso desejoso. Sim isso
me atordoa o coração no peito:
tão logo te olho, nenhuma voz
me vem
mas calada a língua se quebra,
leve sob a pele um fogo me corre,
com os olhos nada vejo, sobrezum-
bem os ouvidos,
frio suor me envolve, tremo
toda tremor, mais verde que relva
estou, pouco me parece faltar-me
para a morte.
Mas tudo é ousável e sofrível...
"O Amor (Éros) de acasalar-se domina a Terra.
"Ama (erâi) o sagrado Céu penetrar a Terra.
"A chuva ao cair de seu leito celeste
"Fecunda a Terra, e esta para os mortais gera
"As pastagens dos rebanhos e os víveres de Deméter".
Eros, enquanto um dos quatro elementos que são a Origem, ao ser nomeado e ao presentificar-se o seu domínio, envolve já a referência a todos os homens e todos os Deuses, que surgirão depois dele. Tal como a Terra, ao ser nomeada como Origem, traz com sua nomeação a presença dos imortais que têm o Olimpo nevado. — E como potência cosmogônica, como força de fecundação da Terra pelo Céu através da chuva-sêmen, como força de acasalamento e da multiplicação da vida, Eros está tanto mais perto e aparentado ao Céu e à Terra (estas sedes sempre seguras dos Deuses e âmbitos da luz e da vida) quanto o Tártaro, por sua natureza hipoctônica, noturna e letal, está mais perto e aparentado ao Kháos com sua descendência tenebrosa e mortífera. Kháos O nome Kháos está para o verbo khaíno ou sua variante khásko (= "abrir- se, entreabrir-se" e ainda: "abrir a boca, as fauces ou o bico") assim como o nome Éros está para o verbo eráo ou sua variante éramai (= "amar, desejar apaixonadamente"). Tal como Éros é a força que preside a união amorosa, Kháos é a força que preside à separação, ao fender-se dividindo-se em dois. A imagem evocada pelo nome Éros é a da união do par de elementos masculino e feminino e a resultante procriação da descendência deste par. A imagem evocada pelo nome Kháos é a de um bico (de ave) que se abre, fendendo-se em dois o que era um só. *Éros é a potência que preside à procriação por união amorosa, Kháos é a potência que preside à procriação por cissiparidade.* Se a palavra Amor é uma boa tradução possível para o nome Éros, para o nome Kháos uma boa tradução possível é a palavra Cissura — ou (e seria o mais adequado, se não fosse pedante): Cissor. ("Sim bem primeiro surgiu Cissor, depois também 'Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, "e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, "e Amor que é o mais belo dos deuses imortais"...) Há na Teogonia duas formas de procriação: por união amorosa e por cissiparidade. Os primeiros seres nascem todos por cissiparidade: uma Divindade originária biparte-se, permanecendo ela própria ao mesmo tempo que dela surge por esquizogênese uma outra Divindade. Assim Érebos e Noite nasceram do Kháos (v. 123). Assim Terra primeiro pariu igual a si mesma o Céu constelado, pariu as altas Montanhas e depois o Mar infértil (vv. 126-32). Toda a descendência de Kháos nasce por cissiparidade, exceto Éter e Dia, que constituem exceção também por serem dentro desta linhagem os únicos positivos e luminosos. Tudo o que provém de Kháos pertence à esfera do não-ser; todos os seus filhos, netos e bisnetos (exceto Éter e Dia) são potências tenebrosas, são forças de negação da vida e da ordem. Seus filhos são Érebos e Noite. Érebos é uma espécie de antecâmara do Tártaro e do reino do que é morto. Noite, após parir Éter e Dia unida a Érebos em amor, procria por cissiparidade as forças da debilitação, da penúria, da dor, do esquecimento, do enfraquecimento, da aniquilação, da desordem, do tormento, do engano, da desaparição e da morte — em suma, tudo o que tem a marca do Não-Ser. Estas potências negativas, toda a linhagem de Kháos, são geradas por cissiparidade; Éter e Dia, potências positivas, são exceções desta linhagem e geradas por união amorosa. Neste caso, há uma simetria especular entre os genitores e os gerados: Érebos é a região subterrânea, tétrica e noturna ligada ao reino dos mortos; Éter (Aithér vem de aítho = "queimar, abrasar") é a região superior e de esplêndida luminosidade do céu diurno. Nem Noite nem Dia são aqui períodos cronométricos, não têm vínculos com o Sol e os astros (estes nascem de uma outra linhagem, independente e sem conexão com a de Kháos); Dia e Noite aqui são princípios ontológicos, a exprimirem imageticamente a esfera do Ser e a do Não-Ser. Esta oposição especular (Érebos: Éter: Noite: Dia) é subsumida no jogo enantiológico que é a mundivisão exposta na Teogonia. Dia e Noite, Ser e Não-Ser, guardam em si uma relação íntima e profunda entre si: o Ser vige e configura-se segundo uma estrutura configurada pelo Não-Ser, de tal forma que o pensamento que pensa o que é o Ser não pode não pensar o Não-Ser. Érebos, as trevas infernais, tem só que invertidas a mesma posição e natureza que Éter, a luminosidade celeste,—e mais: o masculino Éter e seu par o Dia (que é feminino em grego: Hemére) nascem do par acasalado Érebos e Noite. Do mesmo modo, "no fundo do chão" (i.e., da Terra) está o Tártaro. Vimos já a mesma simetria especular entre Tártaro e Terra-Céu; e agora fica mais claro para nós o que significa, enquanto situação do Tártaro, esta expressão "no fundo do chão" (mykhôi khthonós, v. 119). Terra, como assento inabalável e inconcusso de todas as coisas (Ser), tem "no fundo do chão" este seu duplo invertido, o Tártaro, que é pura Queda cega sem direção e sem fim, a total ausência e negação do Fundamento, uma imaginosa expressão do Não-Ser. "No fundo do chão" significa "no âmago da Terra", mas um âmago onde a Terra não é mais Terra e sim seu contrário: no âmago do Ser encontramos sua gemelaridade com o Não-Ser. Tendo em vista a afinidade e confinidade de Tártaro com Érebos e, portanto, com Kháos (de cuja natureza Érebos como descendente é uma explicitação), prossigamos o exame do sentido e função desta Potestade que, do Quaternário Original, Hesíodo nomeia primeiro. Tártaro, Kháos e seus filhos Érebos e Noite são expressões diversas de diversas situações e modalidades em que manifesta a violência da Negação (do Não-Ser). Tártaro e Érebos, que nos ínferos se confinam, exprimem o Não-Ser topograficamente como o ínfimo além da extrema circunscrição aonde se estendem a luz do Céu e a firmeza da Terra. Noite e seus filhos (vv. 211-32) exprimem-no metafisicamente como o princípio de destruição e de perda que sob várias formas atua dramaticamente na vida humana. Kháos, como outra expressão metafísica do Não-Ser, é um princípio cosmogônico e — para dizê-lo com exatidão e integralmente — também ontogenético. Como princípio cosmogônico, Kháos é a potência que instaura a procriação por cissiparidade, é um princípio de cissura e de separação, e como tal opõe-se a Éros, que, como princípio cosmogônico, instaura a procriação por união de dois elementos diversos e separados, masculino e feminino. Ambos, Kháos e Éros, estão lado a lado de Terra de amplo seio, de todos sede inabalável sempre. A rigor, Kháos e Éros, enquanto potências cosmogônicas, são paredros de Terra, que, sim, é o assento sempre firme, — o Fundamento Originário. Kháos e Éros, portanto, ladeiam a Terra - Ser como puros princípios ativos e energéticos, de naturezas opostas e contrapostas, como paredros (par-édroí) deste Assento Primordial (pánton hédos). Éros, princípio da união, é estéril, dele mesmo não surge nenhum rebento, ele de si mesmo nada produz. Kháos, princípio de divisão e separação, é prolífico e tem através de sua filha Noite numerosos descendentes :— todos eles, incorpóreos como ele, são como ele puros princípios ativos e energéticos, sem substância física. Que o princípio da união seja estéril e o da divisão e separação prolífico — eis algo muito congruente com a sensibilidade e visão gregas. No Banquete de Platão, Eros é filho da Indigência (Penía) e do Expediente (Poros) herdando da mãe a incurável penúria e do pai a inesgotável habilidade. Na sabedoria de Heráclito, Pólemos (a Guerra) é o pai de todas as coisas e o rei de todas as coisas (cf. frag. 53 D.K.); a Guerra (que, nomeada no verso 228 da Teogonia como Hysmínas te Mákhas te, é descendente e portanto uma das expressões explicitadoras da natureza de Kháos) é um princípio cosmogônico fecundo e construtivo. Kháos e Éros, nesta leitura que estou propondo, prefiguram na Teogonia hesiódica as duas forças motrizes que em Empédocles encadeiam e desencadeiam o ciclo do processo cósmico: Neikos e Aphrodíte, Ódio e Amor.
"Quando nasceu Afrodite, os deuses banquetearam, e entre eles estava Poros (o Rico), filho de Métis. Depois de terem comido, chegou Pínia (a Pobreza) para mendigar, porque tinha sido um grande banquete, e ela estava perto da porta. Aconteceu que Poros, embriagado de néctar, dado que ainda não havia vinho, entrou nos jardins de Zeus e, pesado como estava, adormeceu. Pínia, então, pela carência em que se encontrava de tudo o que tem Poros, e cogitando ter um filho de Poros, dormiu com ele e concebeu Eros. Por isso, Eros tornou-se seguidor e ministro de Afrodite, porque foi gerado durante as suas festas natalícias; e também era por natureza amante da beleza, porque Afrodite também era bela. Pois que Eros é filho de Pínia e Poros, eis qual é a sua condição. É sempre despojado, anda sem carregar nada, descansa dormindo ao ar livre sob as estrelas, nos caminhos e junto às portas. Enfim, mostra claramente a natureza da sua mãe, andando sempre acompanhado da nada. Ao invés, da parte do pai, Eros está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma, com sagazes ardis. É corajoso, audaz e constante. Eros é um caçador temível, astucioso, sempre conectando, ligando os humanos. Gosta de invenções e é cheio de ardis para consegui-las. É filósofo o tempo todo, encantador poderoso, fazedor de filtros, sofista. Sua natureza não é nem mortal nem imortal; no mesmo dia, em um momento, quando tudo lhe sucede bem, floresce bem vivo e, no momento seguinte, morre; mas depois retorna à vida, graças à natureza imortal paterna.
O Banquete, de Platão
Artigo publicado na revista Estudos de Psicanálise n° 26
E-Mail: cbprj@cbp-rj.org.br "O Banquete (em grego Symposium), diálogo da maturidade filosófica e literária de Platão, pode ser dividido em cinco partes: 1ª - a introdução; 2ª - o torneio de discursos sobre Eros (com os cinco discursos de: Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes e Agaton); 3ª - o discurso de Sócrates, através das palavras de Diotima; 4ª - a entrada, o discurso de Alcebíades e a réplica de Sócrates; e 5ª - uma breve conclusão. A INTRODUÇÃO DO BANQUETE: SOBRIEDADE E DIGNIDADE Apolodoro, discípulo de Sócrates citado no Fédon, é questionado sobre um famoso Symposium que teria ocorrido há alguns anos. Responde ao interlocutor que este se enganou, não esteve presente, que o fato ocorreu há muito mais tempo, quando ainda era criança. Apolodoro diz que tudo que sabe sobre tal Symposium chegou-lhe por meio de alguém que esteve presente, um tal Aristodemo, que contou a quem lhe contou. Platão utiliza-se deste preâmbulo como artifício literário; instaura-se o tempo mítico do era uma vez... Onde termina a verdade histórica, onde começa o mito, o que poderia ter sido realmente dito, o que é da invenção de Platão? Impossível saber. Todos os personagens historicamente existiram. Agathon, nome que em grego designa a Idéia do Bem, ápice da teoria do conhecimento do platonismo clássico, também designa o poeta trágico em cuja casa se passa o Banquete, comemoração por sua vitória na competição teatral das Lênaias, em 416 a.C. O Symposium refere-se ao segundo dia das comemorações. Estando todos ainda na ressaca da véspera, concordam em beber pouco, em despachar a flautista que acabara de entrar e, por sugestão de Fedro, escolhem Eros como tema para o torneio de discursos. Os palestrantes concordaram em seguir a ordem ao redor da mesa, a partir direita, reclinados que estavam sobre uma espécie de leito, sobre o qual se recostavam três comensais. Este tipo de móvel, que da antiguidade greco-romana herdaram o uso os antigos persas e outros povos orientais, retornou para a civilização européia, sob uma forma um pouco menor, com o nome de cama turca, do qual um exemplar, no final do século XIX, foi utilizado por certo médico vienense em seu vitoriano consultório. Fedro Os discursos sobre o amor iniciam com Fedro: "iniciou o seu discurso Fedro] declarando que Eros era uma divindade poderosa e admirável, tanto entre os homens como entre os deuses, por várias razões, mas, antes de tudo, pelo nascimento." Fedro é o primeiro, e por isso pai do discurso, a falar sobre o deus Eros: ele condena o ofício dos poetas que têm por missão cantar hinos aos deuses mas se esquecem de Eros. Fedro, no seu discurso, faz a justificação moral de Eros, mas não investiga a fundo sua essência e suas formas. De qualquer forma, é devido à fala desse discípulo de Sócrates que toda a discussão se inicia. Com o intuito de elevar Eros, Fedro encerra seu discurso dizendo que esse é o deus mais antigo, mais respeitável e o mais "autorizado" (cf. 180b) a levar o homem à posse das virtudes e da felicidade, nesta vida e depois da morte! FEDRO: DO REAL AO SIMBÓLICO, A CONSTRUÇÃO DA METÁFORA DO AMOR Discípulo um tanto acrítico de Sócrates, como fica claro em outro diálogo que possui seu nome – Fedro – começa o torneio de modo absolutamente grandiloqüente: primeiro foi o Caos, depois a Terra (...), e depois Eros. Fedro cita tanto a Teogonia de Hesíodo, quanto o Poema de Parmênides, ao justificar Eros como um dos deuses mais antigos, senão o deus primordial: fonte da união de tudo que há e que só pode existir a partir da diferenciação e da reunião, formando todos os seres. O discurso de Fedro inicia-se como discurso teológico. Talvez, por que uma melhor compreensão de Eros só possa fazer-se através do simbólico, tenha sido este o motivo pelo qual Fedro deslocou seu discurso do teológico para uma narrativa de várias estórias. Afirma que, sendo Eros o mais antigo dos deuses, aqueles que lhe são possuídos, tornam-se reverenciados por todos os demais deuses. Para ilustrar Fedro conta três mitos. Primeiro o mito de Alceste, cujo marido – Admeto - estava condenado à morte, exceto se alguém aceitasse tomar seu lugar, o que nem os próprios pais de Admeto aceitam. Mas Alceste aceita e, por isto, os deuses, comovidos, permitem que ela retorne do Hades e viva ao lado de Admeto. O segundo mito, o de Orfeu, que perde sua Eurídice e vai até o outro mundo buscá-la. Por seu despreendimento e pela magia de sua lira, também comove os deuses, que aceitam que Erídice retorne à luz, mas colocando uma condição, de que Orfeu, levando-a pela mão, não olhe para trás até a saída do Hades. Já na saída do Hades, Orfeu duvida, dos deuses e de Eurídice – poderia estar segurando um monstro – e, no último instante, olha para trás e perde sua amada para sempre. O terceiro mito, o de Pátroclo e Aquiles. Na guerra de Tróia, Pátroclo, erastes (o mais velho, o amante) de Aquiles é morto. Aquiles, o erômenos (o mais jovem, o amado) decide vingar Pátroclo, mesmo sabendo que lhe custaria a vida, enquanto que fora profetizado que se não o fizesse teria vida longa e próspera. Morrendo por Pátroclo, Aquiles torna-se mais venerado pelos deuses até mesmo que Alceste. Após a morte, Aquiles e Pátroclo são recompensados com uma vida eterna na Ilha dos Bem Aventurados. Lacan comenta, sobre Alceste e Aquiles – e que Orfeu teve coragem de menos ou dúvida de mais -, do amor como metáfora, que nestes mitos foi realizada no sentido literal: seguir, substituir, colocar-se no lugar do outro a partir de sua falta. A metáfora do amor possuí vários sentidos, todos significando uma forma de metamorfose: transformar-se de passivo em ativo, de amado (erômenos) em amante (erastes), de desjado em desejante, do ter ao ser, do objeto à identificação. A metáfora ocorreu de modo ainda mais radical no caso de Aquiles. Ao contrário de Alceste, cuja morte implicava que ao menos seu marido vivesse. A vingança de Aquiles não podia restituir Pátroclo à vida. Lacan também comenta que Alceste é quem possui um papel ativo – de erastes, de desejante - desde o início do mito, ao contrário de Aquiles que, pela iniciativa de sua ação, passa de amado à amante.. Esta transformação, de desejado em desejante, dá ao mito de Aquiles e Pátroclo uma dimensão maior que a das duas histórias anteriores, pois é a que mais completamente ilustra a metáfora do amor. Pausânias PAUSÂNIAS: OS BONS INVESTIMENTOS DO AMOR DE ACORDO COM O IMAGINÁRIO Pausânias, amante de Agaton, o anfitrião do Banquete, e sem outras qualidades conhecidas além desta, toma o discurso. Segundo Pausânias, tudo que foi dito por Fedro estaria muito bom se Eros fosse apenas um, mas em verdade são dois e, como na versão mais usual da mitologia Eros é filho de Afrodite, são dois por que há duas Afrodites. A primeira Afrodite, Celeste ou Urânia, não possui mãe, sendo filha do Céu – Urano – que, castrado por seu filho o Tempo – Cronos -, teve os testículos jogados no mar. Dos testículos e do sêmen de Urano, simbolizados pela espuma do mar, nasceu a deusa da beleza, dentro de sua boticcellineana concha (adiante veremos Lacan comentar o quanto a beleza é um disfarce para encobrir a castração e a morte). A segunda Afrodite, Popular ou Paudemiana, inferior tanto cronologicamente quanto em divinidade, nasceu de uma mãe, a mortal Dione, e de Zeus. Assim como há duas Afrodites, também há um Eros Celeste e um Eros Vulgar. O fato de que a Afrodite Urânia originou-se só do pai e a Paudemiana de um casal, significa para Pausânias que o amor homossexual é superior ao heterossexual. Cada Afrodite e cada Eros simbolizam um dos mundos da teoria do conhecimento de Platão. Estamos bem dentro do domínio do platonismo e de todas suas influências posteriores, desde as várias escolas filosóficas até o cristianismo, as dicotomias: mundo inteligível/mundo sensível, espiritual/carnal, amor/sexo. Um cosmos de continuidade, mera variação quantitativa, parte-se em dois mundos, ambos em oposição e conflito; a variação torna-se qualitativa: o bem versus o mal. Mas para Platão e Pausânias o conflito ainda não se esboçara com tanta crueza, do mundo sensível, por meio da pedagogia do belo, pode-se atingir o mundo inteligível. Amar a beleza de um corpo é o caminho para se amar a beleza da alma nele contida, para dirigir-se à idéia de beleza contida em todos corpos e de virtude em todas as almas, para amar desde as idéias que modelam os seres físicos até as idéias abstratas e morais em si mesmas, até se atingir a mais alta de todas as idéias: a idéia do Bem Supremo, que unifica o mundo inteligível e reúne as idéias da Beleza, Verdade, e Justiça. O discurso de Pausânias constitui a apologia o Eros Celeste como pedagogia filosófica, fundamentada na tradição aristocrática grega da pederastia. Sucede Fedro no discurso em defesa de Eros outro discípulo, agora Pausânias: censura a falta de precisão do discurso anterior e tenta uma definição concreta. Para ele, existem dois tipos de Eros para os homens, um vulgar e repudiável, outro sendo uma força educadora. O Eros usual e corrente, o instinto e irrefletido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e o impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado. Este segundo Eros pretende ser uma força educadora, não só no sentido negativo de desviar os amantes das ações vis, o que o discurso de Fedro realça, mas também em toda a sua essência, como força que serve ao amigo e o ajuda a expandir a sua personalidade. (JAEGER, 2001, p. 727) O amor para Pausânias é sinônimo de liberdade para o homem. O amante faz coisas para o amado que escravo algum aceitaria fazer, tal como se jogar no chão ou se deitar na porta da moradia do amado. O amor é louvável, que denota a liberdade do indivíduo em fazer ou não determinadas coisas e, segundo Pausânias, é ratificado pelas leis, como ele mesmo nos diz: O amante faz tudo isso [serviços para o amado] com certa graça, o que lhe é permitido pela liberdade de nossos costumes, sem incidir na menor censura de ninguém, como se se tratasse de um ato louvabilíssimo. E o mais de admirar é que, no dizer do povo, somente o amante obtém perdão dos deuses, em caso de perjuro. Não há juras de amor, dizem. Desse modo, tanto os deuses como os homens concedem plena liberdade a quem ama, o que nossas leis confirmam. As atitudes de quem ama não o faz parecer ridículo e, se em agressão aos deuses, é logo perdoado pela sua condição de amante. O amor aproxima o sujeito das virtudes. Assim finda Pausânias e, de acordo com a disposição dos homens no banquete e da forma organizada que ia seguindo a discussão, seria a vez de Aristófanes. Mas esse se encontrava em soluços e passou a palavra para o próximo, Erixímaco. Em seguida, a vez de discursar voltaria para Aristófanes. Erixímaco ERIXÍMACO: A AMBIVALÊNCIA, O DESEJO E O REAL De acordo com a ordem estabelecida, o próximo discurso deveria ser o de Aristófanes, o autor de comédias e que, junto aos quatro trágicos – Ésquilo, Sófocles e Eurípedes – constitui um dos quatro monumentos do teatro grego clássico. Mas o monumento foi acometido de uma crise de soluços. Ocorrem os soluços quando se ri ou quando se chora demais? Assim sendo, Aristófanes cede a vez a Erixímaco, o médico, filho de Acúmeno, médico ainda mais famoso. Erixímaco continua a idéia dos dois Eros, mas sutilmente a distorce. Há um Eros Bom, que não é exatamente o Eros Celeste de Pausânias, e que traz a harmonia, a concórdia e o equilíbrio; há outro, o Eros Mau, que é não necessariamente o Eros Vulgar, mas que em tudo se opõe ao Eros Bom. O primeiro Eros é o responsável pela saúde e pela música: a conciliação entre os diferentes humores do corpo e entre os diferentes sons. O segundo Eros é o do excesso e do desequilíbrio, o responsável pela doença e pela cacofonia. Estamos diante do princípio tão caro aos gregos, o de que a virtude está sempre na justa medida e de que, quanto ao excesso – a tão temida hybris – ,seria melhor apagar a desmedida que um incêndio (Heráclito, fragmento 43 ). Conhecedor dos dois Eros e seus efeitos, a tarefa do médico, aliando-se ao Eros Bom, é re-estabelecer a harmonia. Como escreveu o poeta romântico Novalis: toda doença é um problema musical, e toda cura uma solução musical. Erixímaco define que a medicina é a ciência das eróticas do corpo, ao que comenta Lacan, parece-me que não se pode dar melhor definição da Psicanálise. O discurso de Erixímaco possui grande afinidade com o do pré-socrático Empédocles, que divide a arché (princípio, origem) do Cosmos em duas: Amor e Ódio. Este dualismo foi diretamente retomado por Freud, que veementemente se referiu a Empédocles como seu predecessor . Amor e Ódio, Eros Bom e Eros Mau, Eros e Tânatos: para muitos, apenas a ilustre linhagem de uma romântica especulação metafísica. Lacan chama a atenção para algo que até o Banquete - e para muitos muito após o Banquete também – foi algo inovador ao discurso filosófico e até hoje um tanto subversivo para vários discursos psicológicos e religiosos: a ambivalência estrutural do ser humano. Alem disto, o discurso socrático-platônico, o discurso aristotélico, o do platonismo para as massas, isto é, do cristianismo, todos enfatizam a quimera da busca por um Bem Supremo. Ora o discurso de Erixímaco ultrapassa a busca do Bem Supremo, trata-se da emergência da realidade do desejo como tal Em sua ambivalência o desejo passa a englobar ambos Eros, o Bom e o Mau. À ruptura provocada pelo além do princípio do prazer também pertence ao desejo, com ela nos deparamos com a brutalidade da parede opaca do real. O médico Erixímaco propõe ao amigo em soluço três "remédios" para o problema: 1. Que prenda a respiração por um momento; 2. Se não resolver, que gargareje um pouco de água; 3. Se mesmo assim não resolver, que cheire algo que irrite o nariz e provoque espirros. Assim, repetindo essa etapa por duas vezes, Erixímaco garante que o soluço, por mais forte que seja, passará. É interessante observar a aplicação da medicina na época de Sócrates e de se perceber o interesse de um médico pela filosofia e pelas idéias de Sócrates. Obedecida à risca a receita, e com sucesso, Aristófanes comenta: admira-me que a harmonia do corpo exija para seu re-estabelcimento cócegas e estrondos, como são os espirros. O discurso de Erixímaco é aquele que transpassa o homem e atinge a natureza. Com a visão de um médico, visão naturalista, Eros aparece aqui como um deus poderoso, princípio e devir de todo o físico, "como potência criadora daquele amor primogênito que tudo anima e penetra, com o seu ritmo periódico de pleno e de vazio." (JAEGER, 2001, p. 730) Erixímaco vê a existência de um Eros bom e um ruim. É o Eros bom que promove o bem-estar e a harmonia, estando em todas as esferas do cosmo e das artes humanas. Ele compara a medicina e a música: a primeira deve fazer existir a harmonia entre as forças físicas antagônicas e segunda deve combinar tons altos e baixos para formar uma sinfonia. A idéia de harmonia, tão presente em "A República", aparece aqui novamente, até mesmo quando o médico grego diz que o homem deve sim consentir o prazer, mas não deve se deixar corromper por esse. Findada a fala do médico Erixímaco, Aristófanes já tem por cessado o seu soluço e começa a expor o que tem a falar sobre o amor. Aristófanes O discurso do poeta Aristófanes é menos extenso que o do Erixímaco, mas maior que o de Fedro. Percebe-se que a discussão vai avançando e se aproximando de definições mais claras para o que seria o amor, ou a amizade, ou Eros. Para Aristófanes, Eros é um anseio, uma busca metafísica do homem por uma totalidade do Ser, inacessível sempre à natureza do indivíduo. Uma das coisas que revela isso é a saudade dos amantes que desejam não se separar em tempo algum: não se trata somente de algo corporal, mas de algo que une as suas almas ou, dizendo de outra forma, complemento que uma alma busca na outra. Diz-nos Aristófanes: "Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. [...] E a razão disso é que primitivamente era homogêneo. A saudade desse todo e o empenho de restabelecê-lo é o que denominamos amor." Não se deve esquecer que Aristófanes é poeta e apresenta uma visão mais romantizada da definição de Eros, de amor e amizade. Ele quer deixar evidente que não se trata de apenas uma conexão corporal, muito mais de essência e de complementaridade. Não é, evidentemente, a união física que faz com que um sinta um prazer tão grande com a presença do outro e a ela aspire com tanta força, mas é indubitavelmente uma coisa diferente o que a alma de ambos quer, uma coisa que ela não pode exprimir e que só palpita nela como obscura intuição do que é a solução do enigma da sua vida. Aristófanes termina seu discurso sobre o amor de forma belíssima, profetizando que o homem só terá uma vida feliz se tomado por Eros: "Falo em tese, tanto do homem como da mulher, para afirmar que nossa espécie só poderá ser feliz quando realizarmos plenamente a finalidade do amor e cada um de nós encontrar o seu verdadeiro amado, retornando, assim, à sua primeira natureza." Terminado Aristófanes, o leitor tem pela frente dois discursos: o de Agatão e Sócrates. Esses dois começam a discutir para saber quem vai falar primeiro. Sócrates não perde a oportunidade para lançar sua ironia: diz ter uma posição temerosa, falar sobre o amor depois do belo discurso que provavelmente Agatão proferirá. Fedro reorganiza o banquete (a ordem dos discursos) e coloca Agatão para discursar. ARISTÓFANES: OU COMO MORRER DE RIR DA CASTRAÇÃO O discurso de Aristófanes é considerado como o mais importante e original dos discursos antes do de Sócrates. Comentadores discutem por que Platão inseriu este personagem, cuja ferina comédia As Nuvens teria sido uma das causas da condenação do mestre da maiêutica. Muitos concordam ter sido esta justamente a razão pela qual Platão incluiu Aristófanes, a de inocentá-lo de qualquer culpa direta da morte de Sócrates. As Nuvens teria sido uma simples gozação, não um ataque pessoal, e que o comediante não teria previsto as trágicas conseqüências em que sua peça seria utilizada. O que era para ser apenas comédia teria acabado em tragédia. Aristófanes relata um novo mito, criação original de Platão, que adorava criar mitos, o mito da criação dos seres humanos como hoje são. Originalmente a humanidade compunha-se de seres esféricos, dotados de: quatro braços, quatro pernas, um rosto de cada lado da cabeça e um genital de cada lado do corpo. Eram filhos: do sol, da terra e da lua, o que explicava sua forma esférica. Os filhos do sol possuíam dois genitais masculinos. Os filhos da lua dois genitais femininos. Os filhos da terra, que possui a luz de um astro e a sombra de outro, um genital de cada sexo. A estas últimas, um tipo de terceiro sexo, era dado o nome de andrógino. Tais criaturas não andavam de pé mas rolando, moviam-se como os saltimbancos, girando sobre seus muitos membros. Eram tão completas em sua redondice que resolveram escalar até o céu e desafiar os deuses. O que deixou Zeus furioso. Mas eliminá-las deixaria os deuses sem adoradores. Admirando-se pela praticidade de sua solução, que dobraria o número de seus adoradores, Zeus, como punição, parte ao meio todos seres esféricos. Depois de cortá-los, como se faz com frutas ou ovos - reduzindo-os a: dois braços, duas pernas, um rosto e um genital – Zeus ainda os adverte de que se o continuarem desafiando cortará de novo, nem que todos tenham de ficar pulando em um pé só. Após o corte Zeus envia Apolo, para que curasse as feridas e que virasse o rosto dos cortados e o pescoço para o lado em que a separação havia sido feita a fim de que o homem, pela contemplação do corte, se tornasse mais humilde, e que se curasse de seu orgulho. Utilizando-se de um instrumento semelhante ao que os sapateiros usam para alisar as rugas do couro, Apolo alisou a maior parte das rugas criadas pelas cicatrizes. Como arremate final costura, Apolo deixou o umbigo, para o qual as infelizes criaturas passaram o resto de suas vidas tendo de olhar. Desesperadas, as criaturas partidas passaram a buscar sua metade perdida. Quando ambas ex-metades se encontravam, se abraçavam até morrer. Num ato de piedade, Zeus novamente enviou Apolo a Terra. Que virasse o genital dessas pobres criaturas para o outro lado, assim, quando se encontrassem, as ex-metades poderiam fazer algo que por breve momento as restaurasse em uma só. Dos três tipos sexuais partidos nasceram todas as combinatórias do amor: masculino/masculino, feminino/feminino e, do bissexual andrógino, masculino/feminimo . Lacan comenta como a esfera fazia parte do imaginário grego. Desde a conceituação do Ser de Parmênides à harmonia das esferas do universo geocêntrico aristotélico-ptolomaico, o redondo é o símbolo de perfeição, fundamento da filosofia e da teologia de um universo criado por Deus para seres à sua semelhança. Muitos séculos depois, por destruir tal perfeição redonda, Galileu teve de retrata-se e Giordano Bruno foi queimado. As feridas narcísicas cobram alto preço; homens redondos não toleram serem castrados. Aparentemente um grande paradoxo, Aristófanes, o comediante, é quem fala do trágico da falta. Assinala Lacan que a primeira reação das criaturas que foram partidas, é instaurar-se uma fatalidade pânica que, em um primeiro momento preferiam perecer ao lado do outro pela impotência em juntar-se a ele. Pode-se pensar na superestimação narcísica do sujeito suposto no objeto amado. Tão superestimado por que a breve reunião que restaura o narcisismo, tanto mais forte é, quanto mais forte a Verwerfung (forclusão) da castração. Nestes casos ainda não se escapou do domínio do imaginário. A tentativa de forcluir a ferida narcísica é uma busca incontrolável por um reflexo no espelho, o pânico apenas é a percepção da impossibilidade de captura da forma, tal como ordenada pelo imaginário. Mesmo assim, trata-se de um primeiro passo, necessário, mas não suficiente, para que se entre na ordem do desejo. Mas o comediante também é o primeiro que desce das dualidades dos discursos anteriores, pelo mito explica a experiência real e muito concreta dor da perda. Além disto, Aristófanes é o único a falar dos genitais. Apesar do trágico de seu conteúdo – em realidade o mais trágico de todos os discursos do Banquete - não há leitor ou ouvinte que num primeiro momento deixe de rir do mito aristofânico. Para Lacan torna-se óbvio que este fato confirma o que eu lhes disse ser o essencial do mecanismo cômico, que é sempre no fundo referência ao falo.Podemos arrematar o comentário ao muito cômico discurso de Aristófanes, quando Lacan alguns parágrafos antes, afirmara que Platão, indiscutível mestre, é uma espécie de Sade, só que mais engraçado. Ágatão Diz ele ser necessário tratar primeiro da natureza do deus e para depois tratar de seus benefícios; Eros é o deus mais bem-aventurado, o mais belo e melhor. O discurso de Agatão é o menos psicológico, o menos relacionado com a alma. Ele limita-se a descrever Eros e suas características. Jaeger muito bem resume o discurso de Agatão sobre Eros: "Conforme Ágaton o descreve, Eros é o mais feliz, o mais formoso e o melhor de todos os deuses. É jovem, fino e delicado, e só mora em locais floridos e perfumados. Sobre ele nunca põe as mãos a coação, pois o seu reino é o da vontade pura e livre. Possui todas as virtudes: a justiça, a prudência, a bravura e a sabedoria. É um grande poeta e ensina os outros a sê-lo. Desde que Eros pisou o Olimpo, o trono dos deuses passou de terrífico a belo. Foi ele quem ensinou à maioria dos imortais as suas artes. E o entusiasta adorador do deus de Eros, hino capaz de competir com qualquer hino em verso, tanto pelo equilíbrio harmônico da composição como pela sonoridade musical." AGATHON: CRIAÇÃO, ATOPIA E CONTROVÉRSIAS O discurso seguinte é o do próprio anfitrião do Symposium, Agathon, amante de Pausânias. O último discurso antes do de Sócrates inverte a teologia do primeiro dos discursos, o de Fedro. Eros não é o mais antigo dos deuses e sim o mais jovem. Só o que é jovem é flexível e maleável. A fluidez faz com que Eros molde-se e penetre em todos os corações e almas, sejam dos deuses, sejam dos homens, onde faz sua morada. Exceto naqueles cujos corações e almas estejam por demais endurecidos. Sendo a origem do maior de todos os prazeres, Eros conduz à temperança e à concórdia (do latim: com-cordis, com o mesmo coração), vencendo mesmo a concupiscência, que não seria verdadeiro amor. Até Ares, deus da guerra, foi subjugado pelo amor. Mas, acima de tudo, Eros seria a fonte de toda criação, só ele conduz ás Musas. Poiesis, o termo grego para criação, e Eros é seu deus. A posteridade foi implacável com o discurso de Agathon. Muitos comentaristas da história da filosofia o consideram retórico, grandiloqüente, mas vazio, o mais fraco dentre os discursos que antecedem o de Sócrates. É curiosa tal antipatia com relação ao único dos discursos, antes do de Sócrates, que relata ser Eros fonte da criação, tema que será integralmente aproveitado pelo mestre da maiêutica. Lacan subscreve esta tradição crítica, o fracasso de Agathon é a prova disto: não basta, para se falar do amor, ser poeta trágico, mas é preciso também ser um poeta cômico Argumento válido tanto para Platão, que termina o Banquete com Sócrates discutindo com Agathon e Aristófanes se o autor de tragédias também não deve escrever comédias e vice-versa, quanto para Lacan, caso refira-se a Agathon o personagem. Mas não para o Agathon histórico, por que as competições teatrais gregas compunham-se de três tragédias seguidas de um drama satírico, que é uma forma cômica, todos do mesmo autor. Ou teria Lacan em mente, como criador completo, Shakespeare? Compreende-se também a oposição de Lacan pelo fato de haver Agathon afirmado, em relação a Eros e as Musas como fontes da criação, que: é absolutamente impossível a qualquer pessoa doar aquilo que não tem, nem ensinar aquilo que não se sabe. O drama da criação, e não a criação do drama, torna-se o verdadeiro tema em Platão e Lacan. Criar não é tão somente ato cheio de felicidade e prazer, ao contrário, é apenas uma máscara que esconde a caveira hamletiana. Segundo Lacan, o homem resiste entre duas mortes: primeira, a morte física, a segunda define a situação do homem como aquele que (...) aspira a aniquilar-se para se inscrever nos termos do ser. A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza. O drama da criação amplia-se por seu sem lugar, sua atopia. Lacan discorre longamente como Sócrates mereceu sua cicuta, por que tanto se recusava fixar no lugar que lhe era inscrito pela cidade, quanto ampliava esta atopia por seu modo transgressor de ser, eternamente questionado todos saberes instituídos, insistindo que a verdade só pode ser encontrada a partir de dentro de cada um e não de qualquer saber exterior. Sócrates que recusou até mesmo a palavra escrita para eternizar-se em sua segunda morte, via-se como um criador ao limite extremo, conduzido apenas pela exigência de obrigar a uma coerência (enlouquecida?) do significante levada à potência absoluta. Ele nos afirma que é nessa segunda morte – encarnada em sua dialétia pelo fato de ele elevar a coerência do significante à potência absoluta, à potência de único fundamento de certeza – que ele, Sócrates, encontrará sem dúvida alguma na vida eterna. Logo, poderia o poeta cômico sozinho, como queria Lacan, dar conta do discurso da criação? Talvez o mais trágico do discurso do poeta trágico - paradoxo para alguém que vive do e pelo discurso - é que ele se direcionou ao simbólico, mas não conseguiu sua sanção. Ao descrever a criação, a poiesis, deu a ilusão otimista de que ela seria suficiente para preencher o furo da castração. Motivo pelo qual, talvez, a posteridade reconheceu sua análise como superficial. Socrates O grande momento do Banquete, e talvez o mais esperado, é quando Sócrates passa a discursar sobre o amor. Para ele, ao contrário de Agatão, Eros não é o próprio belo, mas aspira-o, tem o desejo de possuir algo. Lembra que quem ama deseja possuir aquilo que ama. Sócrates faz uso do mito de Diotima: segundo ele, em determinado tempo, havia perguntado à profetisa Diotima, de Mantinéia, coisas sobre Eros. Isso revela que o discurso de Sócrates aparece não como uma sabedoria dele, mas como uma verdade que ele desvendou. De acordo com esse mito, Eros é filho de Poros (riqueza) e de Penia (Pobreza). Isso coloca Eros em uma posição intermediária: ele não é nem feio e nem belo, nem participa da bem-aventurança, característica essencial da divindade. Eros é um ser duplo, herdado da diferença de seus pais, o que o coloca numa posição intermediária. O Eros de Platão revelado por Sócrates no Banquete é o próprio filósofo: está na posição intermediária, entre o saber e a ignorância, é aquele que aspira algo. O Eros em Platão é a aspiração do ser humano ao bem. O Eros socrático é o anseio de quem se sabe imperfeito por se formar espiritualmente a si próprio, com os olhos sempre fitos na Idéia. É, em rigor, o que Platão entende por "filosofia": a aspiração de conseguir modelar dentro do homem o verdadeiro Homem. O discurso de Diotima, na fala de Sócrates, está na tradição grega e coloca na idéia de Eros toda a atividade de criação espiritual. Eros é um poder educador e que matem unido todo o cosmo espiritual, isso porque ele é a aspiração comum a todo homem de buscar e se apossar por completo do belo. Recordemos que Diotima definia acima a essência do Eros como a aspiração a apropriar-se 'para sempre' do Bem. [...] o Bem constitui o amor humano de si próprio, no seu mais alto sentido, então é evidente que o objeto sobre o qual ele recai, o eternamente belo e bom, não pode ser senão a substância deste mesmo eu. INTERMEZZO E PRELÚDIO Depois de Agathon, antes de iniciar seu próprio discurso, e que enunciará como não sendo seu, Sócrates submete o autor de tragédias a uma de suas típicas inquirições. Para o mestre da maiêutica todos elogiaram Eros com os mais belos e grandiosos predicados, ninguém se preocupou em saber se seriam verdadeiros ou não. Sócrates exige a coerência do significante para algo que a natureza humana é visceralmente incoerente e atópico, o amor. Este trecho do Banquete aparentemente reflete o Sócrates histórico. Talvez tenha sido colocado por Platão como lembrança aos leitores de que se, por um lado o autor criara tantos mitos e abusara de sua arte literária, por outro o espírito da atopia socrática estivera sempre presente. Mas Platão, o poeta, em seus diálogos clássicos da maturidade, nunca deixa de ser um artista, utilizando-se de todos os recursos literários. Defendeu o poeta T. S. Eliot que todas obras poéticas literárias necessitam também de uma estrutura análoga à da música. A seca inquirição de Agathon dá ao leitor fôlego, ao mesmo tempo que prenuncia o tom crescente de oratória e drama que virá a seguir. SÓCRATES/DIOTIMA: A UNIÃO DA QUE NÃO TEM COM O QUE NÃO SABE Fiel ao princípio do só sei que nada sei, Sócrates não enunciará em seu nome qualquer conhecimento. Dirá que tudo que aprendeu sobre o Eros lhe foi ensinado, quando jovem, por Diotima, mulher de Mantinéia sábia em muitíssimas coisas, detentora de funções sacerdotais e, possivelmente, de algum tipo de poder sobrenatural. Embora Diotima geralmente seja considerada personagem criada por Platão, há vagas suspeitas ao contrário. Platão, que na República advoga igualdade de poder político entre os sexos, sempre foi criticado por seu aparente feminismo. Para os filósofos, até recentemente quase sempre homens, abundando os misógenos, sempre foi um anátema que o mais importante discurso sobre Eros tenha sido colocado nas palavras ditas por uma mulher. Lacan menciona a spaltung ou diocisme – divisão, cisão – dos seres redondos de Aristófanes e que Sócrates, ao enunciar o discurso de Diotima, também se cindiu. Lacan indaga porque: (...) quando se trata do discurso do amor, escapa ao saber de Sócrates, (...) este se apaga, se “diociza”, e faz, em seu nome falar em seu lugar uma mulher? Por que não a mulher que está nele? O mestre da maiêutica revela que, quando jovem, também foi inquirido por Diotima, pelo mesmo método de argumentação que depois o tornou famoso. Ela o conduziu a refletir que Eros não poderia ser um deus. Aos deuses nada falta, já são, em sua própria essência e existência: perfeitos, sábios, belos. Não foi à toa que Lacan os colocou no real. Perfeição, sabedoria, beleza, tudo que falta a Eros, ou não as estaria sempre buscando. Eros é o desejo de alguma coisa, mas de algo que também não lhe falta de todo, ou não saberia sequer o que procurar (escutamos ecos do discurso de Aristófanes). Afirma Diotima que, entre os dois extremos – os homens e os deuses – há seres intermediários, categoria a que Eros pertence: trata-se de um daimon, um mensageiro (em grego, angelos). Sutilmente o diálogo entre o jovem Sócrates e Diotima também provocou um deslizamento de significantes, do Eros-amor passou-se ao Eros-desejo. Para quem deseja, o objeto do desejo é algo que não se possuí, e também não se é em si mesmo, é aquilo que essencialmente lhe falta. Comenta Lacan que se introduziu a cunha da função da falta como constitutiva da função de amor. Diotima, então, enuncia seu mito sobre o nascimento de Eros. Mito que parece ser criação exclusiva de Platão. Por ocasião do nascimento de Afrodite os deuses deram um grande banquete, a que compareceu Poros (várias traduções: Riqueza, Recurso, Esperto, Astucioso). Excluída pelos deuses ficou a observar de fora Pênia (outras tantas traduções: Pobreza, Carência, Sem Recursos). Embriagado pelo néctar Poros foi para o jardim de Zeus, onde adormeceu. Pênia, ardilosa, seduziu-o e com ele concebeu um filho: Eros, que está ligado a Afrodite pelo dia de sua concepção. Novamente a tradição patriarcal grega é posta de cabeça para baixo. O masculino é desejável, mas passivo, o feminino é desejante e ativo. Acrescentado sua definição sobre Pênia, Lacan nomeia-a de Aporia termo filosófico que define uma dificuldade na ordem do discurso ou, como a utilizou Zenão, o raciocínio pelo absurdo. Se lhes trago, neste sentido, a fórmula de que o amor é dar o que não se tem, nada existe aí de forçado (...) já que a pobre Aporia por definição e estrutura, não tem nada a dar, senão sua falta, aporia constitutiva. O Eros-desejo de Diotima possuí as características tanto de Pênia, quanto de Poros: é pobre, rude, sujo, como sua mãe; mas do pai herdou a atração pela beleza, pelo conhecimento; vive entre miséria e a opulência, entre a tolice e a sabedoria, sendo o por excelência o daimon da filosofia; não é mortal ou imortal, morre e renasce todos os dias. Conclui Platão, é grande feiticeiro, mago e sofista. Mas podemos refletir que Poros, pelo menos ao momento da concepção de Eros, não estava tão pleno de si quanto as criaturas esféricas de Aristófanes. Podemos pensar que no mito aristofânico a cisão causou um estado de pânico, uma tentativa de forcluir a ferida narcísica, uma busca incontrolável por um reflexo no espelho e que a instalação da incompletude foi apenas da ordem do imaginário. O desejo verdadeiro passa pela relação do sujeito com o simbólico, na medida em que ele se distingue do imaginário e de sua captura. Ou que o amor deve restituir a tensão entre o imaginário e o simbólico, articulando e separando a eleição do objeto pelo primeiro e de sua sanção pelo segundo. Nesta interpretação Poros pouco se assemelharia aos seres esféricos. O mito se desdobra numa narrativa, o que pertence à estrutura: aquele que não tem, se aninha na inciência do que tem (de quem tem) para dar o que não tinha. O sono de Poros e a pobreza de da Aporia (Pênia) são elementos indispensáveis aí: pobreza e desconhecimento. AINDA SÓCRATES/DIOTIMA: ABAIXO O PLATONISMO! Por meio do talento literário de Platão o discurso de Diotima reverbera através do tempo, tanto no passado, quando o Sócrates jovem teria escutado as sementes dos discursos que ouviria futuramente no Symposium, quanto o Sócrates já velho, que complementa estes mesmos discursos. Após os ecos do discurso do poeta cômico, Diotima ecoa o discurso do poeta trágico. Assim como o discurso original de Aristófanes foi direcionado do imaginário ao simbólico, o mesmo acontecerá ao discurso de Agathon. O desejo impulsiona em direção a; beleza, sabedoria, justiça e tudo mais quanto nos ofereça o reflexo da Idéia do Bem, ácume do ultra-mundo platônico. Mas quando este topo é alcançado, revela-se uma miragem. Segundo Diotima, existe nos seres humanos um desejo mais profundo: o da imortalidade. Platão apresenta um de seus muitos paradoxos, de repente tudo que é tradicionalmente valorizado pelo platonismo ou seus descendentes - o neoplatonismo e o cristianismo - cai por terra. Desaba a crença na existência de um mundo mais perfeito e real que este aqui - o mundo das Idéias, com sua idéia do Bem Supremo (leia-se também Deus) -, desaba a crença na reencarnação, herança platônica do pitagorismo. É como se os homens subitamente descobrissem que após a morte só há o sono sem sonho. Mas neles permanece uma grande nostalgia por algum tipo de ultra-mundo. Aos seres humanos só resta uma saída, levados por Eros-desejo, procuram as únicas formas de imortalidade reservadas aos mortais, mas que os aproxima do dom máximo dos deuses, a criação. Em geral se denomina criação ou poesia tudo aquilo que passa da não existência á existência. (...) Todos os homens, caro Sócrates, desejam procriar segundo o corpo e segundo o espírito. Quando atingimos certa idade, nossa natureza impele a que procriemos. A procriação e o nascimento são as únicas coisas imortais num ser mortal! Muitos procriam através do corpo – a imortalidade através dos filhos -, muitos através do espírito – a imortalidade pela criação: da filosofia, da arte e, a mais importante para Platão, da constituição das leis da polis. Ao contrário do otimismo do poeta trágico, Diotima assinala que a dor toma aquele que deseja procriar e, quando o consegue, sofre as dores do parto. Para Diotima o belo continua tendo sua função pedagógica: conduzir da beleza de um corpo, à beleza de todos os corpos, ao conceito de beleza como idéia, à descoberta do mundo das idéias e a idéia do Bem como idéia suprema. Mas em seu discurso o belo passa mais uma função: atenuar as dores da gravidez e do parto. Com o personagem Aristófanes vimos o pânico instaurado por uma falta que não tem como ser nomeada; os homens só podem suportá-la quando a ela associa-se a nomeação pelo simbólico. Aqui vemos que é verdadeiramente o Eros-desejo deve restituir a tensão entre o imaginário e o simbólico, articulando e separando a eleição do objeto pelo primeiro e de sua sanção pelo segundo. Para Lacan o progresso da Filosofia necessita da eliminação dos deuses, que pertencem ao real, em direção ao Verbo e ao Logos, ao simbólico. Só quando Eros desloca-se para ser Eros-desejo - um daimon não um deus -, só então a nomeação da dor da falta permite todas as outras nomeações, só então ocorre a criação verdadeira, não a sua negação ou uma defesa maníaca. Estas duas últimas seriam a origem: da perversão, a droga, do consumismo, do fundamentalismo religioso, etc. Por meio do Eros-desejo e da falta, é deste modo entramos no reconhecimento do objeto a. O objeto do desejo deixa de ser esse objeto redondo e total que viria a preenchê-lo como um Bem, e até mesmo como um Bem supremo. O objeto a não se situa como um objeto cujas qualidades específicas satisfariam o desejo por sua presença ou o frustrariam por sua ausência; sua função é ser causa do desejo, suscitá-lo. Uma vez que a existência humana dissolve-se no entre-duas-mortes, a física e a da inscrição no Ser, a questão do belo revela-se outra em que pensar pscanaliticamente é fazê-lo de um modo trágico. Por que o desejo não é originário apenas de Eros, mas para Freud e Lacan também Tânatos, pulsão de morte. Segundo Lacan esta´ bem claro desde o início do discurso de Diotima que: Se há dois desejos no homem, que o capturam, por um lado, na relação com a eternidade,e por outro lado, na relação de geração, com a corrupção e a destruição por ela comportada, é o desejo de morte, enquanto inabordável, que o belo é destinado a dissimular. Alcibíades O Banquete encerra com a chegada de Alcibíades e seu bando: todos bêbados. Alcibíades põe fim aos louvores a Eros e inicia elogios a Sócrates. A passagem final de Banquete pode ser despercebida em uma leitura corrente, mas é de grande significado. Com o encerramento das honrarias a Eros e o início dos elogios a Sócrates, esse encarna o próprio Eros, ou seja, encarna a filosofia. Se não bastasse, Alcibíades anuncia ter grande amor por Sócrates: como pode um jovem de beleza exuberante fazer elogios e anunciar o seu amor (philia) a um velho tão desfeito como Sócrates? Insere-se aí a valoração da filosofia e um novo valor: a beleza interior superior à beleza exterior, perecível. O Banquete trata da amizade, do amor e é um dos diálogos de Platão da categoria política. Mas como a discussão sobre a amizade pode inserir essa obra na problemática política? ALCEBÍADES: PAIXÃO E TRANSGRESSÃO Após o ápice do discurso de Sócrates/Diotima, parece ao leitor que o texto do Banquete irá se encerrar. Subitamente o estilo muda, Platão adota toda a dramaticidade do teatro grego. A conduta tão civilizada dos comensais dá lugar ao escândalo. É verdade que, desde de Philon de Alexandria (f. em 39 d.C.), que realizou a primeira tentativa de conciliar o judaísmo e o platonismo, no que foi seguido por vários autores cristãos, tendo sido o mais famoso Sto. Agostinho, a até há bem pouco tempo, a defesa da homossexualidade e da pederastia, especialmente no discurso de Pausânias chocava os leitores mais aferrados à tradição judaico-cristã. Mesmo muito depois da Idade Média, mereceria um trabalho à parte a análise das notas de rodapé das traduções (inclusive na edição brasileira que utilizamos), eternamente tentando justificar que não era bem assim, que no fundo Platão condenava tal conduta ou que o amor nos exemplos citados era apenas uma forte amizade Em sua introdução à leitura que fará do Banquete, Lacan, num tom muito sarcástico, assinala seu espanto de como tal texto, especialmente em sua parte final, referente a Alcebíades, foi copiado por gerações de monges e escribas, e pode sobreviver até a Renascença (é autêntica a tradição de que a obra de Safo teria sido queimada em Roma, em 1073, por ordem de Gregório VII?). Assinala também como o primeiro tradutor do texto para o francês, recusou-se a traduzir o trecho de Alcebíades, ou como vários comentadores contemporâneos de peso terminam suas interpretações no discurso de Diotima. Lacan também relembra aos participantes de seu Seminário quem foi o Alcebíades histórico: orador perfeito, homem belíssimo, demagogo de multidões, várias vezes espião e informante, traidor de todos os partidos e cidades a que se associou - inclusive um dos reis de Esparta, cuja rainha engravidou - e, finalmente, assassinado pelos persas, a quem também traiu. Alcebíades, quando jovem, foi o erômenos mais amado de Sócrates. Atribuí-se a carreira de Alcebíades ter sido uma das causas do julgamento e morte de Sócrates. Também se diz que Platão no Banquete, entre outras intenções, procurou inocentar Sócrates da responsabilidade pelas perversões de seu ex-discípulo. Mas para Lacan o discurso de Alcebíades e a resposta de Sócrates constituem o ápice do Banquete Lembremos que ao início do Symposium houve um acordo de que os participantes beberiam pouco e sem música. Pode-se falar de Eros sempre em sobriedade, em plena lucidez? Há alguma paixão moderada, frugal? Não é a paixão, por si mesma, sempre transgressiva? Se não há sobriedade nem naquelas paixões que são deslavadamente conscientes, imagine-se nas que são inconscientes. Este será o papel designado para o último discurso, que não foi planejado, realizado por alguém que não foi convidado e bêbado o suficiente para colocar todas as cartas, roubadas ou não, na mesa. Alcebíades, coroado de flores e fitas, irrompe com seus seguidores, também embriagados, e por uma flautista. Verdadeiro cortejo dionisíaco em uma reunião apolínea. Alcebíades dirige-se a Agathon, cumprimenta-o por sua vitória e o coroa com flores. Agathon lhe convida a deitar-se a seu lado e, então, Alcebíades leva um grande susto: Por Heracles, que é isto? Sócrates? Continuas a perseguir-me e te emboscas aqui, conforme o teu costume de aparecer justamente nos lugares em que menos espero encontrar-te! Alcebíades inicia sua denuncia de Sócrates, elogiando-o ao extremo, como um alguém que não se parece com nenhum outro homem dos tempos passados ou dos tempos atuais, ao mesmo tempo que o acusa de embriagar todos com sua fala, com a vertigem e a loucura da filosofia e adverte que o mestre da maiêutica já deve ter iludido os participantes do Banquete. Mas ele, Alcebíades, diz que vai revelar quem Sócrates realmente é, que através de sua sedutora conduta de o maior de todos os erastes ele é uma fraude, isto é, tratar-se-ia de um grande histérico. Por ser Sócrates absolutamente impar, nenhum outro é mais desejável para Alcebíades; a seus olhos Sócrates é o maior de todos os investimentos, sem rival em Atenas ou toda a Grécia Então Alcebíades relata com todos os detalhes como, quando jovem, tentou de todas as formas concreta e ativamente seduzir Sócrates. Mas, utilizando uma expressão usada várias vezes por Lacan no Seminário 8, poupo-lhes os detalhes. Chama a atenção, em coerência com o Alcebíades histórico, é que ele jamais se coloca como passivo e erômenos, mas sempre como ativo e erastes, levando o ser desejante a um extremo impossível e, segundo Lacan: Por que ele é Alcebíades, aquele cujos desejos não conhecem limites; quando se engaja no campo referencial, que é para ele o campo do amor, demonstra aí um caso notável de ausência de temor da castração. Qual o tênue limite entre perversão e transgressão? A primeira é apenas a segunda em seu estado permanente, estrutural? É o perverso o apaixonado permanente, mas sem amor “de verdade” ? E há algum objeto digno de Eros que, por um tempo ao menos, não se recubra das características ilusórias do objeto total, o objeto redondo, o objeto esférico sem pés nem mãos, o todo do outro. Quando deixa este objeto de ser o objeto esférico, um investimento máximo, acima de qualquer lei e de qualquer temor à castração para obtê-lo? A paixão pode ora dissolver-se em nada, ora ser substituída pelo amor “verdadeiro” ? Serão os objetos do amor “verdadeiro” apenas objetos parciais, por que existem apenas pulsões parciais? Se algumas das respostas forem afirmativas, todo o discurso de Freud sobre o objeto total e sobre a genitalidade cai por terra. SÓCRATES, ALCEBÍADES E AGATHON: AGALMA E TRANSFERÊNCIA O discurso de Alcebíades revela toda a ambivalência da paixão. Sobre Sócrates braveja que: freqüentes vezes cheguei a desejar que não mais estivesse vivo; mas se tal acontecesse, bem sei que minha angústia seria maior. Não nos surpreende, quando sabemos que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença, que as acusações a Sócrates sejam mescladas dos mais altos elogios. Alcebíades compara Sócrates ao sátiro Mársias e ao silenos, nome que genericamente designam os sátiros velhos ou sátiros que ao invés de serem parte bode, seriam parte eqüinos, mas de um modo mais específico designa um personagem do cortejo de Dioniso. Este último é sempre representado como um velho gordo e bêbado, que segue seu deus montado sobre um asno e de seu mito existem muitas variantes: talvez seja filho de Pã ou talvez nascido das gotas de sangue da castração de Urano, talvez tenha gerado o centauro Folo, talvez seja o pai de um Apolo campestre. Estamos no reino dos personagens meio humanos, meio animais, de todas as interpretações possíveis para objetos parciais, teorias sexuais infantis, temores à castração e fobias. Que diria Hans de tais personagens? Deste Sileno os gregos antigos faziam estatuetas que, à semelhança das estatuetas de falos, serviam de amuletos de bom augúrio. Braveja Alcebíades que: (...) Sócrates é semelhante a esses Silenos que se encontram nas oficinas dos estatuários, e que os escultores representam com avenas e flautas nas mãos: e quando se abrem essas estátuas, vê-se que no interior se aloja um deus. Este objeto mágico e brilhante no interior de uma estátua surge como uma espécie de cilada para os deuses. Assemelhava-se às bonecas russas, que se abrem uma dentro da outra, ou de estátuas da Virgem, que uma portinha revela a figura do filho em seu ventre, segundo Lacan possuía o valor do que chamamos ex-votos. Só que no caso das antigas estatuetas gregas era um objeto exteriormente grotesco, à semelhança real do velho barrigudo e narigudo que era Sócrates. O objeto dentro da estátua é um Agalma: Este termo grego – que pode ser traduzido por ornamento, tesouro, objeto de oferenda aos deuses, ou, de modo mais abstrato, valor – representa o ponto pivô da conceituação lacaniana do objeto causa do desejo “o objeto a”. Este é o objeto tão caro à Lacan.: (...) Agalma, a, objeto do desejo, quando o procuramos segundo o método kleiniano, ele está ali de saída, antes de todo desenvolvimento da dialética, ele já está ali como objeto do desejo. Mas Agalma não é o objeto redondo, esférico ou chato que seria o Supremo Bem de Platão ou o objeto total de Freud, o cúmulo do amor. Ao contrário, um tal objeto esférico, cuja perfeição o assemelha a algo apenas do imaginário, seria o túmulo do amor. O fato de Platão, possivelmente muito mais que o Sócrates histórico, orientar-se em uma dialética denominada de ascendente, em direção à idéia do Bem Supremo, revela, para Lacan, um desconhecimento das leis do desejo em sua relação com o objeto que só pode ser posta a nu pela luz leiga da psicanálise. O fato de Agalma ser originariamente uma noção religiosa absolutamente não implica que o que ele indica deva recobra o interesse religioso. Sob esse aspecto o psicanalista não deve se tomar por um grande sacerdote do inconsciente, ainda que seu paciente, por amor ao agalma que percebe nele, lhe atribua todo poder e toda ciência. Muito pelo contrário, a idéia de Agalma denuncia as religiões como criações imaginárias fomentadas pela ilusão da existência concreta de um Bem Supremo. Não seria por menos que toda religião necessita um tipo qualquer de palavra revelada, isto é, ditada por diretamente por alguma divinidade, de uma palavra não escrita ou ditada através do simbólico, mas vinda diretamente do real, a forclusão que cria uma alucinação psicótica. Apesar disto, a busca pelo objeto total, o mais maduro, o mais elevado, tendo por satisfação a sexualidade genital e representando a saúde mental, teria sido uma das ilusões iniciais da psicanálise. Sem dúvida uma ilusão bastante coerente em um Freud e toda uma geração de analistas criada pelo modelo etnocêntrico europeu, apesar de que este modelo já estava entrando em pane: a cultura ocidental - leia-se européia – o ápice da civilização e o homem adulto, genital, heterossexual e sublimador de todo o resto, o espécime mais evoluído desta civilização. Á semelhança do brilho no nariz relatado por certo paciente perverso de Freud, Agalma é um objeto parcial. Vimos como o objeto do desejo não é aquele cujas qualidades específicas satisfariam o desejo por sua presença ou o frustrariam por sua ausência, sua função é ser causa do desejo, suscitá-lo. Mas não, qual nada, nosso primeiro esforço foi interpretá-lo apontando para uma dialética da totalização, transformá-lo no objeto chato, o objeto redondo, o objeto total, o único digno de nós, o objeto esférico sem pés nem patas, o todo do outro, onde, como todos sabem, irresistivelmente nosso amor acaba, encontra seu fim. Respondendo a Alcebíades, Sócrates mostra a todos que seu ex-discípulo favorito tragicamente saiu-lhe um fracasso completo, jamais lhe entendera o objetivo filosófico. Desde seus primórdios a pedagogia socrática, sedução que nunca conduzia concretamente ao gozo físico, não poderia ser simplesmente rotulada de histeria. O objetivo de Sócrates era que os discípulos – erômenos, desejados, passivos – se apaixonassem por ele, mas não o tivessem apenas como objeto. Principalmente que não o tivessem como a ilusão de um objeto total, caso em que Sócrates teria mais um dos fanáticos de qualquer, rodeado por seus seguidores, dos quais a história está repleta. Mas a insatisfação sexual, o realce da falta inclusa em todo desejo e todo amor, tinha como finalidade que ocorresse a identificação com ele próprio, Sócrates. Ao invés de serem possuídos ou possuírem fisicamente Sócrates, que elaborassem o luto desta impossibilidade, passando a ser como ele, amando o que ele amava, a filosofia. O verdadeiro objetivo socrático era a instauração da metáfora do amor, passar do ter ao ser, que os discípulos o substituíssem como erastes, ativos e desejantes, caçando que nem ele a coerência do significante como única forma de se atingir a verdade. A falta implícita em todo Eros-desejo é que cria o espaço capaz do encontro desta verdade, não um “eu sei o que é melhor para você”, que é o discurso do político ou do mestre, por que ao mesmo tempo esta seria a verdade de cada um, que só pode ser descoberta a partir de si mesmo. Pode-se parodiar Lacan e se dizer: parece-me que não se pode dar melhor definição da Psicanálise. Ao final do ambivalente elogio de Alcebíades, do discurso da paixão, novamente parece-nos que o texto do Banquete irá se encerrar, Novamente somos supreendidos. Sócrates denuncia que o discurso de Alcebíades é mais uma tentativa de tentar seduzi-lo, ou, ao menos, assim parece. Como nova ferida inflingida ao grande narcísico, Sócrates é quem toma o tom da denúncia. Acusa Alcebíades de ter disfarçado muito bem o verdadeiro alvo visado por seu discurso: (...) todas as tuas palavras tendiam unicamente a suscitar inimizade entre mim e Agáton. Crês que devo amar-te a ti, e a ninguém mais; e que Agáton só deve ser amado por ti, e por mais ninguém. Nenhum de nós, porém, deixou de notar tua intenção; o drama satírico e silênico foi revelador. Dito de outro modo, o mestre da maiêutica mostra que o Agalma que supostamente Alcebíades veria dentro dele, Sócrates, mas que em verdade Alcebíades jamais percebera que pertencia a si mesmo, não lhe era direcionado – ou não tão somente a ele – mas a Agathon. É que Sócrates só pode recusar a isso porque, para ele, nada há que seja amável nele. Sua essência é (...) esse vazio, esse oco (...). Sócrates não cobrou em dinheiro, mas o que interpretou foi que Alcebíades queria obrigá-lo a ser ele, Alcebíades, objeto exclusivo do mestre da maiêutica, ao mesmo tempo em que Agathon tornar-se-ia objeto exclusivo do próprio Alcebíades. Ou, dito mais cruamente, Alcebíades queria de Sócrates tão somente fazer dele um bibelô – o mais valioso de Atenas – para guardar em sua coleção - e possuir Agathon – mais jovem e vitorioso no teatro - como amante que lhe fosse absolutamente fiel. No reino dos objetos parciais ao extremo, o sujeito é abolido, reificado, alienado em “coisa” da realidade objetiva. O que Sócrates tenta sugerir para Alcebíades é a natureza transferencial do seu suposto amor, que o Agalma que lhe emprestou pertence a ele mesmo, Alcebíades, ao mesmo tempo que deve direcioná-lo a quem realmente lhe é importante, quem deve ser o verdadeiro receptáculo de todo Agalma, e, talvez, aí possa ter um objeto um pouco menos parcial. A fantasia interpretativa construída sobre o texto de Platão também assinala que, à diferença entre a relação de Sócrates e Diotima, que seria uma relação dual e isto apenas existe como mito para o sujeito, por que não existindo outro também não existe sujeito, a relação transferencial necessita de um terceiro – Sócrates no caso - cuja finalidade última seria a de redirecionar todo desejo a seu verdadeiro objeto. Esta é a demanda consciente ou inconsciente de todo paciente, que o analista lhe ensine a amar melhor e ter algum prazer que lhe satisfaça mais. Se o analista acreditar que ele mesmo é aquilo que em verdade é o Agalma de seu paciente, estará configurada a armadilha da sedução; se o analista brandir o Agalma falicamente e como se fosse seu, temos um belo fetiche e a terapia do ego; e se o analista, consciente ou inconscientemente, se utilizar do Agalma para seu próprio benefício, temos a manipulação e a falta de ética. Ou seja, em todas estas condutas o analista desautoriza-se a si mesmo. CONCLUSÃO: DO BANQUETE E DA INTERPRETAÇÃO Agathon compreende a interpretação de Sócrates e a tentativa de Alcebíades de separá-los e convida Sócrates a permanecer a seu lado o resto do Symposium. A recusa de Agathon deixa Alcebíades furioso. Subitamente irrompe pelo recinto um novo grupo festivo e embriagado e a desordem toma conta. Todos passam a beber sem moderação. Tudo que o narrador, que contou para quem contou a Apolodoro, relatou é que no dia seguinte, exceto por Agathon, Aristófanes e Sócrates, todos dormiam. Mas Sócrates continuava argumentando com ambos poetas se o que produz tragédias também deve produzir comédias e vice-versa. Até que ambos poetas também caíram no sono e apenas Sócrates permaneceu acordado e sóbrio. Dirigiu-se ao Liceu, banhou-se, e passou o resto do dia em suas ocupações de rotina, isto é, dialetizando, e só a noite foi para casa dormir. E assim encerra-se o texto do Banquete de Platão. Lacan assinala que Afrodite renasce todos os dias (mais correto teria sido dizer que é Eros quem renasce todos os dias) e também brinca com o termo grego kallimeros,“belo desejo”, talvez “amor verdadeiro”, talvez “amor eterno”. Que não lhes seja pesado demais pensar, se recordarem que este termo, eterno amor, é colocado por Dante, expressamente nas portas do Inferno. E assim encerra-se a primeira parte de O Seminário, livro 8 – a transferência.
Carcaterísticas orbitales
Tipo de órbita próxima à Terra
Semieixo maior: 1.45821 UA
Excentricidade: 0.22290
período orbital: 1,76 años
Inclinação: 10.82948° Características físicas
Diâmetro: 13×13×33 km
Massa: 7,2×1015 kg
Densidade: 2,4 g/cm3
Periodo rotação: 5h 16m
Tipo espectral: S
Albedo: 0,16 Eros é o asteróide número 433 da serie 1898 DQ, descoberto em 13 de agosto de 1898 por G. Witt, desde Berlín. Foi o primeiro asteroide conhecido que franquea a órbita da Terra. Tem uma forma extremadamente alargada, com saliências arredondadas. A maior aproximação que a alcançado à Terra foi de 23 millones de km. Eros é o primeiro asteroide a recever nome masculino, e descoberto a mesma noite do13 de agosto de 1898 por Gustav Witt (1866-1946) (que lhe colocou nome) e F. Linke en Berlín e por Augusto Honorato Pedro Charlois (1864-1910) desde Niza. Eros é o segundo maior asteróide que passa próximo à Terra depois de 1036 Ganamed, pertencentes ao grupo Amor. É um asteróide do tipo "Mars-crosser" pois foi o primeiro a ser identificado em órbita próxima à Marte (planeta). É um dos poucos asteróides com órbita também próxima à Terra com diâmetro maior que 10 km. Acredita-se ser maior do que o que caiu na península de Yucatán formando a cratera de Chicxulub ao qual é atribuído o causa da extinção dos dinossauros. A espaçonave NEAR (Encontro com Asteróides Próximos da Terra), lançada em 17 de janeiro de 1996, passou pelo asteróide Matilde e entrou em órbita de Eros em 14 de fevereiro de 2000. Foram feitas 230 órbitas completas em torno de Eros. Ele foi escolhido porque é do tipo S e não é um dos maiores NEAR. NEAR foi rebatizada como NEAR-Shoemaker em 14 de março de 2000, em homenagem ao geólogo Gene Shoemaker. A densidade encontrada para Eros foi de 2,4 g/cm^3, quase a mesma da crosta da Terra. Isto quer dizer que se trata de um objeto relativamente sólido, muito diferente de Matilde. No dia 12 de fevereiro de 2001, NEAR-Shoemaker desceu em Eros, após transmitir 69 fotos durante a descida. Esta foi a primeira vez que um artefato desenvolvido pela humanidade desceu num asteróide. O sucesso da descida foi tão grande que os instrumentos continuaram a transmitir dados até 28 de fevereiro de 2001, quando foram desligados. Quando a missão Near Earth Asteroid Rendezvous- NEAR (NASA National Aeronautics and Space Administration) entrou em órbita de Eros revelou que a sua superfície era coberta por rególito – detritos rochosos, como gravilha e poeira – e cravada por numerosas rochas gigantescas. A missão também encontrou áreas por onde o rególito tinha aparentemente resvalado, deixando expostos os estratos inferiores. Mas, contrariando as expectativas dos cientistas, a NEAR não descobriu o número previsto de pequenas crateras, resultante da grande quantidade de pequenos impactos que a superfície do asteróide foi sofrendo ao longo dos tempos. Esperavam-se cerca de 400 crateras por quilómetro quadrado, rondando os 20 metros de diâmetro, mas a média aponta para apenas 40 crateras deste tipo. Este fato parece dever-se à existência de abalos sísmicos em Eros, que suprimem cerca de 90 % das crateras com menos de 100 metros de diâmetro. Estas vibrações sísmicas acontecem quando Eros colide com fragmentos de rocha existentes no espaço. O asteróide Eros tem apenas 33 quilómetros de comprimento por 13 de largura. O seu volume é muito pequeno e a sua gravidade diminuta. Basta que um objecto com dimensões de 1 por 2 metros, ou ligeiramente maior, atinja a sua superfície, para que se desencadeie uma vibração sísmica global, que facilmente destabilizará o rególito. Como consequência, as camadas de detritos e poeira deslizam pelos taludes e sofrem pequenos arremessos. Tudo isto acontece muito lentamente, uma vez que a fraca gravidade não permite embates fortes. Desta forma, as crateras vão sendo preenchidas com detritos e acabam por desaparecer. As crateras existentes na superfície de objetos de grandes dimensões provenientes da Cinturão de Asteróides. O Cinturão de Asteróides é a região do Sistema Solar situada entre Marte (1,5 UA) e Júpiter (5,2 UA), no plano da eclíptica, onde se encontra a maior parte dos asteróides, onde Eros passou grande parte da sua vida, estão diretamente relacionadas com o tamanho e a população dos asteróides mais pequenos desta Cintura. No entanto, devido à sua estrutura interna, facilmente propensa a desencadear vibrações sísmicas, Eros vai acabando por apagar muitos dos vestígios dos pequenos impactos que sofreu. O mesmo deverá acontecer com outros asteróides de características semelhantes. Eros é provavelmente um monólito fraturado por grandes impactos, mantido coeso pela gravidade. A sua superfície mostra, em toda a sua extensão, uma série de sulcos e estrias. Algumas dessas fraturas vão até ao núcleo, mas outras são apenas superficiais. Pode mesmo estabelecer-se uma analogia entre a superfície deste asteróide e a crosta da nossa Lua. Foi isso o que os cientistas fizeram para perceberem melhor a propagação da energia sísmica em Eros. No futuro próximo, como resultado dos abalos sísmicos, Eros será mais compacto, apresentando-se menos poroso e com um rególito cada vez mais coeso. O estudo da estrutura interna de asteróides como Eros é fundamental na eventualidade de se enviar um satélite para estudar a população de asteróides próximos da Terra, ou de ser necessário defletir a trajetória de um asteróide em potencial rota de colisão com a Terra. Estas conclusões resultam da análise de modelos efectuada no Laboratório Lunar e Planetário da Universidade do Arizona pelos Professores James E. Richardson Jr. e Richard Greenberg. Os resultados foram publicados a 26 de Novembro na Science. Asteróide: pequeno corpo rochoso que órbita em torno do Sol, com uma dimensão que pode ir desde os 100 m até aos 1000 km. A maioria dos asteróides encontra-se entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Também são designados por planetas menores.
Eros na Astrologia
Para saber em que signo Eros estava na sua data de nascimento clique aqui. http://www.falconastrology.com/natal_asteroids.htm http://www.cafeastrology.com/sexualastrologyeros.html http://www.internationalastrologers.com/eros.htmEros no mapa natal
Estou pesquisando se realmente tem sentido associar o Deus Eros grego com o asteróide 433 batizado pelos astrônomos como Eros. Para isso, vejo o posicionamento do asteróide Eros no mapa natal e estudo se tem expressão na personalidade. Tem o complicador de que existe outro asteróide com o nome Cupido que é o deus romano associado a Eros, deus grego. Parto do significado associado ao Deus Eros da mitologia grega, tanto como Deus primordial, como o Eros filhos de Afrodita ou Penia (Miséria segundo o Mito de Eros criado por Platão no "Banquete"). Para estudar o tipo de sexualidade e amorosidade de uma pessoa tem que se estudar o mapa como um todo. Cada planeta vai falar de características de personalidade que revelam dados importantes do jeito em que a pessoa vive amor, sexo e troca. A situação astrológica de Marte informa o que motiva a pessoa, o que acorda seu tesão. Sugere a forma em que ele age e toma decisões. Marte natal indica o estilo em que se expressa a sexualidade. No mapa da mulher indica características fundamentais do tipo de homem que ele gosta. A situação astrológica do Sol, do Ascendente e da Lua informam o estilo geral da personalidade. Revela informações importantes de como a pessoa gostaria de ser tratada, considerada e complementada. A situação astrológica de Vênus mostra o que a pessoa valoriza, o que gosta, o jeito que ela seduz. Vênus natal informa como a pessoa se expressa afetivamente, como gosta de namorar e junto a Marte como gosta de fazer sexo. É bom também estudar a situação astrológica da casa V, da casa VII e VIII. A situação astrológica de Netuno vai falar da sensibilidade e amorosidade incondicional. A situação astrológica do asteróide Eros poderá informar:- como a pessoa se conecta e conectada afetiva e sexualmente. Como a pessoa vive a completude, pode incluir também a forma em que a pessoa é flechada pelo amor e o tesão, onde a pessoa faz também o papel do Deus Enlaçador de Almas.
- o setor da vida onde rolam mais oportunidades de encontro e de excitação
- nível e situação da energia sexual
- posicionamento nos signos
- posicionamento nas casas
- aspectos maiores que faz com outros planetas natais e pontos especiais (Ascendente, Meio do Céu, nodo lunar, roda da fortuna, etc)
- estude os aspectos com planetas em trânsito, progredidos ou direções
deus eterno,
amado terno,
por divindades e mortais méros:
só Eros,
além das separações, do adeuses
o mais velho dos deuses.
Não nascido nem de mãe, nem de pai,.. Eros, o mais antigo, deus dos deuses,
desejos, berceuses,
dos mais gostosos bens,
que recebemos no gens.
Ah! não sei de maior bem,
que proporcionar a um jovem
o bem de nosso amor,
nem para um amante
do que amar um mortal, desejante.
Quem deseja viver vida de artista,
não está buscando uma vida capitalista,
nem linhagem, muito menos celebridade,
honrarías, riqueza, dignidade.
Não, nada disso: só busca, a ethernidade,
no amor mortal,
fudendo com o imortal.
É, eu quero phalar, spermear,
deixar passar…
Ações mesquinhas: do amor estão desligadas.
Sem o amor, Estado, Cidadão,
Corporação, Associação,
impossibilitados estão,
de ser, sendo, serestando,
no gozozo estar,
além do bem do mal. Ouso afirmar:
se um humano que ama, praticar
uma ação feia com quem amar,
ou sofrer uma injúria, sem revidar,
sofre muito mais,
com a reprovação d’aquele que ama demais,
do que com a dos Pais,
parentes, amigos,
ou inimigos. O mesmo, com o que é amado.
Nunca fica tão perturbado,
quando, por uma falta sua, cai no drama,
e é surpreendido pela pessoa que ama. Ah! É possível ver aqui formado,
Exército, Estado,
exclusivamente de amados amantes
agora, neste instante.
Conquistaremos o fim da Guerra, inicio da Paz
a Crise, vai explodír num Zas Traz...
Uma constituição política, fervendo, insuperável,
ninguém fazendo o que for desagradável,
e todos, dançando versos, não prosas,
estimulando cenas, nas práticas mais gostosas.
Um exército, mesmo enxuto, na luta,
vence o inimigo, em qualquer disputa.
Um soldado não vai se importar,
se seus companheiros vierem espiar,
seu largar armas e desertar.
Mas nunca vai permitir
a seu amado, uma fuga sua assistir,
se não for desejo do amado, também partir.
O suicídio, a morte, então vai assumir.
Pelo medo covarde, nunca será dominado.
Nos perigos, o amigo amado,
nunca abandonar,
nem deixar matar.
Antes, aceitar ver-se sacrificado,
pela vida do adorado. Eros, inspira coragem constante,
a seus amantes,
e os torna gêmeos, não admitindo escravos.
Pelo amor, os torna livres. Bravos Aos heróis, o deus insufla coragem
é o que faz Eros, com os que por amor agem,
morrer um pelo outro, só fazem
os que verdadeiramente se amam
e não só homens, também mulheres, clamam
a morte por Paixão, como fizeste
diva Alceste... De todos os deuses, o amor,
é o mais antigo, com mais cor,
mais augusto, mais capaz .
E lhe apraz,
ao mortal virtuoso no amar,
felicidade, fazer chegar,
pela a vida a fora,
até a hora,
da morte,
eterna ethernidade, esporte. PAUSÂNIAS
Fédro, persona amada,
nós combinamos como Entrada,
no Menu deste Banquete,
nos servir d’um Sorvete,
com calda de uma Cantada
por cada um de nós, entoada,
á Éros, mais nada. Se só um Éros nos fosse dado,
estaríamos saciados.
Mas Éros existem, multiplicados
e não apenas um
e, havendo mais de um,
é bom saber a que Éros
em oração masturbamos, nossos qu’Éros. Afro-dita e Eros,
vivem, um ao outro, grudados.
Se tivesse uma só Afro-dita,
um só amor, nos sería dado.
Mas há duas Afro-ditas;
medita:
-há dois Éros então? PAUSÂNIAS
(encarando descaradamente, paquera Agatão)
vem, amor cheio de léros
vem, pros q gostam como eu, desse Éros.
Prefiro como esses, o sexo masculino
e nele amo: o divino.
A alma, virada corpo elétrico
do olho do cú, desta ótica
chamo alma, d’alma erótica.
Amo, não crianças inocentes,
mas adolescentes ,
onde barba e inteligência, começam despontar
desejos tenho de eternamente,
meus amados amar
meus garotos seduzidos, conquistados
nunca são por mim enganados
ou abandonandos,
nunca zombo, menosprézo
(ajoelha-se diante de Agatão)
ao garoto, endéuzo!
Sei que ainda há muita gente
que covardemente ,
hoje e muito antes
acham feio troca-troca de amores entre amantes
gente, que acha esse amor indecente
mas esse tesão divino em febre, quente,
quando real,
nunca pode ser chamado de mal,
muito menos repreendido,
traz vida a todos, quando vivido. CORO CANTA
Cá, onde o povo esta a fim de phalar,
feios, bonitos, vamos todos, dytirambar
belos, horrendos
aos amantes,
amores tremendos,
mortal, velho, moço,
não larga esse osso,
não é crime, sujeira,
gozar do esfíncter à moleira
Ah!!!!! PAUSÂNIAS
Mas aqui, no condomínio moralista,
o amor pelos moços, está sempre na lista,
de coisa vergonhosa.
Os moralistas temem quem goza,
tremem em suas torres, neuróticos
o fim de seus poderes despóticos. (contracena com a phala de Agatão música do Éros de Chet, João Gilberto, Billie, pode ser um sopro, de sax, baixo acustico, vassourinha, pianíssimo) Quem é esse ainda não cantado autor,
dos enredos do nosso amor?
Quero masturbar primeiro Éros,
antes dos tons,
dos dons,
que doa a nossos qÉros. Dos deuses todos, sem dúvida vem alegria,
não é sacrilégio, mas justiça, clamar hoje em dia:
Éros é o mais belo, o Riso da Orgya.
Por ser deus criança, criador, em sua criancice,
vive escapando da captura da velhice,
que vem rápida, mais depressa que devia,
descriando o corpo criador da fantasia.
Éros, não suporta velhice em sua vizinhança,
nem mesmo à distância,
adolescente eterno, criança mal criada,
cria, mantém comunicação,
com os jovens potentes em criação,
o gêmeo, sempre busca o semelhante,
o mais brilhante.
Fedro, Éros não é entidade tão anciã,
tipo Cronos ou qualquer Titã.
Éros entre as divindades,
é o que nunca deixa morrer a jovialidade,
vive na eterna mocidade.
A Éros historiadores, maus contadores,
atribuem do mundo, as dores.
Mas Ananke, deusa da necessidade,
não por maldade,
inaugurou a origem dos tempos, na violência.
Amizade e Paz, se Éros já tivesse existência,
abririam a cena de nossa primeira ascendência.
Éros é mais jovem; e além disso, delicado.
só você Homero, com os versos teus,
saberia descrever, as delicadezas deste deus. HOMERO (cantor ator, delicado, o som quase Debussy “Prélude à l'après-midi d'un Faune”- bossa nova)
Seus pés são delicados,
não se apóia ao solo dos amados,
deixa o amor voar nos suspiros,
dos mortais nos seus ethernos giros. Dança suave no que fica duro,
adora o buraco mole maduro,
pousa, repousa,
em tênue eletricidade,
mora vibrátil em corações da humanidade,
pílha as almas em alta voltagem,
de deuses, mortais, em choque de aragens.
Se encontra almas endurecidas, mal ligadas,
retira-se, e amplia ondas apaixonadas.
É o mais ágil. Se fosse rígido,
não plugava num pulso, um coração partido,
insinua-se elétrico, entra, sai,
só, sutilmente, sendo percebido, vai …
Cheio de graça, magnetismo,
brinca com o feio, de antagonismo,
faz dele flor que não repele,
é rosa a coloração de sua pele,
não se demora no que não vive a alma da flor,
ou em almas murchas, onde falta o ardor.
Produz o perfume do corpo amado,
fica um tempão lá sossegado.
No amor não suporta rotulação,
nem dos deuses, nem do rebanho da multidão.
Nem deuses, nem mortais,
são por Éros ofendidos jamais.
Sofre ou faz sofrer,
quando estuprado em seu querer .
A violência e o amor, não tem nada a ver.
É voluntário no amor, submeter-se a seu rei.
O acordo dos que querem, é justo, é lei.
Ama os prazeres da temperança.
Com Ansiedade, Carência, não dança.
O amor, dos prazeres é o maior,
não escuta Éros, a phala taboada, décor.
O speak low, a fala que sussura,
é a forma da sua bravura.
Até a Ares, deus da guerra, transfigura.
O amante, o tomado,
é mais forte que o que toma: o amado.
Éros nessa bossa, é o mais valente e corajoso,
encarando nessa sabedoria o perigoso.
É deus poeta, tão bacana,
que faz poeta, aquele que mais ama.
O mortal mais prosaico e babaca,
pode até se tornar poeta, se Éros ataca.
Éros, eterna criança, é deus criador ,
sutíl no trabalho da musa, com seu amor,
desperta na seca, a inspiração de ator,
tudo que é vivo, se forma, se reproduz,
na vida ,nas artes, Éros conduz.
Artistas são ,
os que se dão
a esse deus,
seus eus.
Ficam na obscuridade,
os sem coragem da dourada amizade. Apolo, cria a arte de jogar luz no inferno,
de dar forma e fazer o teatro etherno
por desejo e amor a Dionísíos.
Éros, de música faz seus fios,
tece matérias, dos mais secretos desejos
É ferreiro na bigorna, moldando com beijos,
com sua forja, seu fole, seu malho, as anatomias,
de corpos de atores motores de companias.
O próprio Zeus,
com Eros aprendeu,
a arte de governar deuses e mortais,
por amor mortal, amar demais.
Entre os deuses, quando Éros apareceu
briga nunca mais aconteceu.
Amor erótico à beleza,
fundadora do amor, aprendido na natureza. Muso Fedro, Éros é o mais bonito,
é quem traz o infinito no finito,
aos mortais paz,
a calma ao mar,
o silêncio aos ventos,
o leito e o sono para os tormentos.
Arranca ao isolamento, aproxima mortais.
É o iniciador, cria os liames sociais.
É quem nos guia em ofícios,
festas, danças, sacrifícios.
Faz desabrochar a doçura,
e desaparecer a linha dura.
Onde ele está, desaparece a rudeza.
Pródigo de bondade, avaro de malvadeza.
Objeto do desejo dos que não o possuem,
tesouro precioso dos que dele usufruem.
Pai das riquezas, das delícias, das paixões,
dos doces encantos, das ternas emoções.
Anjo da guarda dos amantes e amados,
esquece os pelo ódio agrupados,
adora esse nosso trabalho,
espiritual do caralho,
nossos tremores vaginais,
nossas tristezas animais,
nosso conselheiro mais gracioso,
melhor guia no gostoso do perigoso,
todo o mortal recebe dele, a imortalidade.
por esse deus entoei esse canto,
por esse deus
vamos nos cantar
no seu encanto.
Versões de Eros
Eros, deus primordial de Hesíodo por Torreno Jaa
"o mais belo dos imortais, capaz de subjugar corações e triunfar sobre o bom senso" HesiodoOs deuses primordiais *"Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também "Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, "e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, "e Eros: o mais belo entre deuses imortais "solta-membros, dos Deuses todos e dos homens todos "ele doma no peito o espírito e a prudente vontade".* Como assinala Paula Philippson2, há na Teogonia três eficientes recursos com que se determinam a natureza e sentido de cada Deus.
- Primeiro, o nome é por si mesmo significativo—salvo exceções de nomes cuja antigüidade ou etimologia não-grega tornaram opacos (e neste caso Hesíodo, seguindo uma tendência da Época Arcaica, procura resgatar-lhes a significação por meio de trocadilhos e jogo de palavras).
- Segundo recurso são os epítetos com que cada personagem pode ser, no estilo épico, amplamente qualificado.
- E, por fim, cada Deus se define por seu ponto de inserção na sua linhagem genealógica: toda descendência é uma explicitação do ser e natureza da Divindade genitora; quanto mais alta e próxima da origem uma Divindade, tanto mais rica e extensa em suas possibilidades de determinação, pois ela
Terra Terra, além da clareza do nome, tem um epíteto que lhe define o ser: "de todos sede irresvalável sempre". É a segurança e firmeza inabaláveis, o fundamento inconcusso de tudo (pánton hédos, v. 117), nela e por ela têm a sua sede os Deuses Olímpios (pánton hédos... athanáton, vv. 117-8). Esta referência aos Imortais que tem o Olimpo exprime integramente o que há de sagrada proximidade nesta mais remota origem: o Olimpo representa para Hesíodo a mais atual e a mais forte experiência numinosa (nele Zeus tem sua sede). É esta atualidade numinosa (expressa nos Deuses Olímpios) que Hesíodo lembra ao nomear Terra como Potestade original, porque a aparição e presença da Terra como sagrada origem de tudo implica já uma experiência atual que é a destes habitantes do Olimpo, os seus mais perfeitos e belos descendentes — estes "Deuses doadores de bens", como também os designa Hesíodo (v. 111). Tártaro O Tártaro é nevoento (invisível) e fica no fundo da Terra de largos caminhos. O verso 720 o situa "tão longe sob a Terra quanto é da Terra o Céu". A simetria estabelecida por este verso é altamente significativa. Já que Céu é uma espécie de duplo da Terra (cf. vv. 116-7), o Tártaro "no fundo da Terra" é uma espécie de duplo especular e negativo da Terra e do Céu (que são ambos "sede irresvalável para sempre"). Os vv. 740-5 o descrevem como um "vasto abismo" (khásma méga) onde se anula todo sentido de direção e onde a única possibilidade que se dá é a queda cega, sem fim e sem rumo. O Tártaro, "temível até para os Deuses imortais", é o lugar onde "se estabelece a casa temível da Noite trevosa, aí oculta por escuras nuvens" (vv. 744-5). O Tártaro, portanto, é o duplo especular e negativo (conforme a imetria descrita no verso 720 e vigorosamente enfatizada nos subseqüentes vv. 721-5) da Terra e do Céu—tanto quanto é o Céu um duplo perfeito e positivo da Terra que o "pariu igual a si mesma" (v. 126) "para cercá-la toda ao redor e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre" (vv. 127-8). A localização do Tártaro ("no fundo da Terra") e sua natureza simétrica e negativa quanto à da Terra (lugar da queda sem fim nem rumo e do império da Noite) ao mesmo tempo que o ligam íntima e essencialmente à Terra (de que ele é o contra ponto) aproximam-no e aparentam-no a Kháos, em cuja descendência se incluem Érebos (região infernal) e Noite. Eros A Eros sob a forma de uma pedra-ídolo era dirigido em Téspias pela época de Hesíodo um culto agrícola da fecundidade. Eros é a Potestade que preside à união amorosa, o seu domínio estende-se irresistível sobre Deuses e sobre homens ("de todos os Deuses e de todos os homens doma no peito o espírito e a prudente vontade"). Ele é um desejo de acasalamento que avassala todos os seres, sem que se possa opor-lhe resistência: ele é solta- membros (lysimelés). O melhor comentário que conheço (escreve Jaa Torrano) a este epíteto de Eros é uma ode de Safo em que ela descreve seu estado de paixão amorosa que, num crescente, beira a lassidão, abandono e palidez da morte, enquanto sua bem-amada entretém-se com um homem³ . E o melhor comentário que conheço a Eros como força cósmica de fecundação é este fragmento de As Danaides de Ésquilo: 3) Cf. Page. Lyrica Graeca Selecta. Oxford, Oxford University Press, 1968, frag. 199, p. 104. Essa ode, eu a traduzi assim: Parece-me par dos Deuses
ser o homem que ante a ti
senta-se e de perto te ouve
a doce voz
e o riso desejoso. Sim isso
me atordoa o coração no peito:
tão logo te olho, nenhuma voz
me vem
mas calada a língua se quebra,
leve sob a pele um fogo me corre,
com os olhos nada vejo, sobrezum-
bem os ouvidos,
frio suor me envolve, tremo
toda tremor, mais verde que relva
estou, pouco me parece faltar-me
para a morte.
Mas tudo é ousável e sofrível...
"O Amor (Éros) de acasalar-se domina a Terra.
"Ama (erâi) o sagrado Céu penetrar a Terra.
"A chuva ao cair de seu leito celeste
"Fecunda a Terra, e esta para os mortais gera
"As pastagens dos rebanhos e os víveres de Deméter".
Eros, enquanto um dos quatro elementos que são a Origem, ao ser nomeado e ao presentificar-se o seu domínio, envolve já a referência a todos os homens e todos os Deuses, que surgirão depois dele. Tal como a Terra, ao ser nomeada como Origem, traz com sua nomeação a presença dos imortais que têm o Olimpo nevado. — E como potência cosmogônica, como força de fecundação da Terra pelo Céu através da chuva-sêmen, como força de acasalamento e da multiplicação da vida, Eros está tanto mais perto e aparentado ao Céu e à Terra (estas sedes sempre seguras dos Deuses e âmbitos da luz e da vida) quanto o Tártaro, por sua natureza hipoctônica, noturna e letal, está mais perto e aparentado ao Kháos com sua descendência tenebrosa e mortífera. Kháos O nome Kháos está para o verbo khaíno ou sua variante khásko (= "abrir- se, entreabrir-se" e ainda: "abrir a boca, as fauces ou o bico") assim como o nome Éros está para o verbo eráo ou sua variante éramai (= "amar, desejar apaixonadamente"). Tal como Éros é a força que preside a união amorosa, Kháos é a força que preside à separação, ao fender-se dividindo-se em dois. A imagem evocada pelo nome Éros é a da união do par de elementos masculino e feminino e a resultante procriação da descendência deste par. A imagem evocada pelo nome Kháos é a de um bico (de ave) que se abre, fendendo-se em dois o que era um só. *Éros é a potência que preside à procriação por união amorosa, Kháos é a potência que preside à procriação por cissiparidade.* Se a palavra Amor é uma boa tradução possível para o nome Éros, para o nome Kháos uma boa tradução possível é a palavra Cissura — ou (e seria o mais adequado, se não fosse pedante): Cissor. ("Sim bem primeiro surgiu Cissor, depois também 'Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, "e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, "e Amor que é o mais belo dos deuses imortais"...) Há na Teogonia duas formas de procriação: por união amorosa e por cissiparidade. Os primeiros seres nascem todos por cissiparidade: uma Divindade originária biparte-se, permanecendo ela própria ao mesmo tempo que dela surge por esquizogênese uma outra Divindade. Assim Érebos e Noite nasceram do Kháos (v. 123). Assim Terra primeiro pariu igual a si mesma o Céu constelado, pariu as altas Montanhas e depois o Mar infértil (vv. 126-32). Toda a descendência de Kháos nasce por cissiparidade, exceto Éter e Dia, que constituem exceção também por serem dentro desta linhagem os únicos positivos e luminosos. Tudo o que provém de Kháos pertence à esfera do não-ser; todos os seus filhos, netos e bisnetos (exceto Éter e Dia) são potências tenebrosas, são forças de negação da vida e da ordem. Seus filhos são Érebos e Noite. Érebos é uma espécie de antecâmara do Tártaro e do reino do que é morto. Noite, após parir Éter e Dia unida a Érebos em amor, procria por cissiparidade as forças da debilitação, da penúria, da dor, do esquecimento, do enfraquecimento, da aniquilação, da desordem, do tormento, do engano, da desaparição e da morte — em suma, tudo o que tem a marca do Não-Ser. Estas potências negativas, toda a linhagem de Kháos, são geradas por cissiparidade; Éter e Dia, potências positivas, são exceções desta linhagem e geradas por união amorosa. Neste caso, há uma simetria especular entre os genitores e os gerados: Érebos é a região subterrânea, tétrica e noturna ligada ao reino dos mortos; Éter (Aithér vem de aítho = "queimar, abrasar") é a região superior e de esplêndida luminosidade do céu diurno. Nem Noite nem Dia são aqui períodos cronométricos, não têm vínculos com o Sol e os astros (estes nascem de uma outra linhagem, independente e sem conexão com a de Kháos); Dia e Noite aqui são princípios ontológicos, a exprimirem imageticamente a esfera do Ser e a do Não-Ser. Esta oposição especular (Érebos: Éter: Noite: Dia) é subsumida no jogo enantiológico que é a mundivisão exposta na Teogonia. Dia e Noite, Ser e Não-Ser, guardam em si uma relação íntima e profunda entre si: o Ser vige e configura-se segundo uma estrutura configurada pelo Não-Ser, de tal forma que o pensamento que pensa o que é o Ser não pode não pensar o Não-Ser. Érebos, as trevas infernais, tem só que invertidas a mesma posição e natureza que Éter, a luminosidade celeste,—e mais: o masculino Éter e seu par o Dia (que é feminino em grego: Hemére) nascem do par acasalado Érebos e Noite. Do mesmo modo, "no fundo do chão" (i.e., da Terra) está o Tártaro. Vimos já a mesma simetria especular entre Tártaro e Terra-Céu; e agora fica mais claro para nós o que significa, enquanto situação do Tártaro, esta expressão "no fundo do chão" (mykhôi khthonós, v. 119). Terra, como assento inabalável e inconcusso de todas as coisas (Ser), tem "no fundo do chão" este seu duplo invertido, o Tártaro, que é pura Queda cega sem direção e sem fim, a total ausência e negação do Fundamento, uma imaginosa expressão do Não-Ser. "No fundo do chão" significa "no âmago da Terra", mas um âmago onde a Terra não é mais Terra e sim seu contrário: no âmago do Ser encontramos sua gemelaridade com o Não-Ser. Tendo em vista a afinidade e confinidade de Tártaro com Érebos e, portanto, com Kháos (de cuja natureza Érebos como descendente é uma explicitação), prossigamos o exame do sentido e função desta Potestade que, do Quaternário Original, Hesíodo nomeia primeiro. Tártaro, Kháos e seus filhos Érebos e Noite são expressões diversas de diversas situações e modalidades em que manifesta a violência da Negação (do Não-Ser). Tártaro e Érebos, que nos ínferos se confinam, exprimem o Não-Ser topograficamente como o ínfimo além da extrema circunscrição aonde se estendem a luz do Céu e a firmeza da Terra. Noite e seus filhos (vv. 211-32) exprimem-no metafisicamente como o princípio de destruição e de perda que sob várias formas atua dramaticamente na vida humana. Kháos, como outra expressão metafísica do Não-Ser, é um princípio cosmogônico e — para dizê-lo com exatidão e integralmente — também ontogenético. Como princípio cosmogônico, Kháos é a potência que instaura a procriação por cissiparidade, é um princípio de cissura e de separação, e como tal opõe-se a Éros, que, como princípio cosmogônico, instaura a procriação por união de dois elementos diversos e separados, masculino e feminino. Ambos, Kháos e Éros, estão lado a lado de Terra de amplo seio, de todos sede inabalável sempre. A rigor, Kháos e Éros, enquanto potências cosmogônicas, são paredros de Terra, que, sim, é o assento sempre firme, — o Fundamento Originário. Kháos e Éros, portanto, ladeiam a Terra - Ser como puros princípios ativos e energéticos, de naturezas opostas e contrapostas, como paredros (par-édroí) deste Assento Primordial (pánton hédos). Éros, princípio da união, é estéril, dele mesmo não surge nenhum rebento, ele de si mesmo nada produz. Kháos, princípio de divisão e separação, é prolífico e tem através de sua filha Noite numerosos descendentes :— todos eles, incorpóreos como ele, são como ele puros princípios ativos e energéticos, sem substância física. Que o princípio da união seja estéril e o da divisão e separação prolífico — eis algo muito congruente com a sensibilidade e visão gregas. No Banquete de Platão, Eros é filho da Indigência (Penía) e do Expediente (Poros) herdando da mãe a incurável penúria e do pai a inesgotável habilidade. Na sabedoria de Heráclito, Pólemos (a Guerra) é o pai de todas as coisas e o rei de todas as coisas (cf. frag. 53 D.K.); a Guerra (que, nomeada no verso 228 da Teogonia como Hysmínas te Mákhas te, é descendente e portanto uma das expressões explicitadoras da natureza de Kháos) é um princípio cosmogônico fecundo e construtivo. Kháos e Éros, nesta leitura que estou propondo, prefiguram na Teogonia hesiódica as duas forças motrizes que em Empédocles encadeiam e desencadeiam o ciclo do processo cósmico: Neikos e Aphrodíte, Ódio e Amor.
Eros, filho de Afrodite com Zeus, Hermes ou Ares
Em tradições posteriores Erros era filho de Afrodite e de Zeus, Hermes ou Ares, segundo as diferentes versões. Este Eros foi que os romanos transformaram em Cupido. O Cupido era representado alado pq o amor sempre estava em movimento, agindo tanto na terra como no céu. Aos poucos, os artistas foram reduzindo sua idade até que, no Período Helenístico, a imagem de Eros é a representação de um menino, modelo que foi mantido no Renascimento. A representação romana que a Renascença lhe faz, como um bebê de cabelos loiros, peralta e rotundo, não condiz com a grega, onde este era um rapaz adolescente de cabelos negros. O Eros grego era intenso e poderoso, enquanto o romano parece uma criança frágil e caprichosa. Os romanos, quando assumiram os deuses gregos, os "deturparam e adotaram a seus costumes e vontades".Eros filho de Poro (Riqueza) e Pínia (Pobreza)
Já Platão, no Banquete, descreve assim o nascimento de Eros, elucidando alguns detalhes até mesmo do aspecto erótico. Platão descreveu-o como filho de Poro (Riqueza) e Pínia (Pobreza), daí que a essência do amor fosse "sentir falta de", busca constante, em perpétua insatisfação. Seu irmão Ânteros, também filho de Afrodite, era o deus do amor mútuo e, às vezes, oponente e moderador de Eros."Quando nasceu Afrodite, os deuses banquetearam, e entre eles estava Poros (o Rico), filho de Métis. Depois de terem comido, chegou Pínia (a Pobreza) para mendigar, porque tinha sido um grande banquete, e ela estava perto da porta. Aconteceu que Poros, embriagado de néctar, dado que ainda não havia vinho, entrou nos jardins de Zeus e, pesado como estava, adormeceu. Pínia, então, pela carência em que se encontrava de tudo o que tem Poros, e cogitando ter um filho de Poros, dormiu com ele e concebeu Eros. Por isso, Eros tornou-se seguidor e ministro de Afrodite, porque foi gerado durante as suas festas natalícias; e também era por natureza amante da beleza, porque Afrodite também era bela. Pois que Eros é filho de Pínia e Poros, eis qual é a sua condição. É sempre despojado, anda sem carregar nada, descansa dormindo ao ar livre sob as estrelas, nos caminhos e junto às portas. Enfim, mostra claramente a natureza da sua mãe, andando sempre acompanhado da nada. Ao invés, da parte do pai, Eros está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma, com sagazes ardis. É corajoso, audaz e constante. Eros é um caçador temível, astucioso, sempre conectando, ligando os humanos. Gosta de invenções e é cheio de ardis para consegui-las. É filósofo o tempo todo, encantador poderoso, fazedor de filtros, sofista. Sua natureza não é nem mortal nem imortal; no mesmo dia, em um momento, quando tudo lhe sucede bem, floresce bem vivo e, no momento seguinte, morre; mas depois retorna à vida, graças à natureza imortal paterna.
Eros nos signos
Eros em Áries
Eros em Áries sugere:- ardor. A pessoa com facilidade ascende o tesão e inflama.
- iniciar relacionamentos com muita facilidade. Quando vai ver já está em relação. E se entreter, estará beijando, fazendo amor.
- gozar de olhar. É a pessoa que goza de estar perto de quem ama ou gosta muito
- independência, auto-gestão. A pessoa pode ter de repentes de precisar ficar só e livre curtindo a si mesma e o que a vida trazer de presente na sintonia do prazer e da alegria. A pessoa gosta de se sentir apaixonada, e facilmente se apaixona com tudo o que de bom tem neste mundo.
- gosto por conquistar, vencer, ser reconhecido como o campeão. Assim só perduram em relacionamentos que tenham que estar sempre conquistando ou em casamento onde junto ao parceiro lute por algum objetivo comum.
Eros em Touro
Eros em Touro sugere:- sentidos a flor da pele: A pessoa com Eros em Touro tem todos os sentidos muito pontencializados e erotizados.
- voz linda. A pessoa valoriza o timbre da voz, sente tesão por voz.
- prioriza o prazer e a qualidade do relacionamento com a realidade
- adorar possuir, consumir, ter. A pessoa gosta de dinheiro e de tudo o que de bom, gostoso e confortável puder ter
- pode desenvolver avareza ou ciumes doentios.
- gostar de relacionamentos sérios e compromissados.
Eros em Gêmeos
Eros em Gêmeos sugere:- tesão por falar, se comunicar, trocar, se expressara
- gosta receber menssages de amor e tesão
- inicia a intimidade atraves da relação mental, intelectual. Gosto das pessoas pelo seu jeito de expressar e comunicar.
- tesão por entender as coisas. Precisa entender o que acontece com ela, especialmente no amor e no sexo
- podem chegar a ser especialistas teóricos do sexo e o amor. Adoram ler e estudar sobre sexo e amor
Eros em Caranguejo
Eros em Caranguejo sugere:- a pessoa valoriza o carinho, a familiaridade como condição para o amor, sexo e intimidade
- a pessoa pode casar o escolher por parceiros intimo familiares ou pessoas próximas
- pessoa nacionalista, comprometida com sua origem e família
Eros em Leão
Eros em Leão sugere:- levar a intimidade, sexo, e amor com dignidade, orgulho e excelência. A pessoa valoriza o parceiro e o amor. É romântica e encantada.
- a pessoa gosta de ser paparicada e adorada pelo seu parceiro. Gosta de se sentir especial e única.
- tesão por criar, por em movimento, dar dignidade, valor as coisas. Colabora com o afloramento das potencialidades das coisas e pessoas
- adora se sentir apaixonada, encantada, amando, sentindo tesão
- sedução e galinhagem
Eros em Virgem
Eros em Virgem sugere:- gosto por detalhes, atração por detalhes, Gostar de ser minucioso, preciso, exato, perfeccionista
- sensibilidade no corpo, Gosto de viver o sexo e a intimidade com proteção e segurança
- gosto por pessoas corretas, limpas, bonitas
- gosto por rituais e cerimônias
- gostar satisfazer o parceiro com massagens, toques especiáis, técnicas eróticas
Eros em Libra
Eros em Libra sugere:- necessitar muito dos relacionamentos.
- valorizar a opinião do outro. Pessoa preocupada com o que os outros pensam dela.
- gosto por pessoas bonitas, equilibradas, com classe
- necessidade de harmonia, equilíbrio e beleza
- gostar de ser elogiada, reconhecida.
Eros em Escorpião
Eros em Escorpião sugere:- necessidade de estar junto e encarar os desafios da vida junto e com profundidade.
- vive com tanta intensidade a intimidade que pode ser resistente ao sexo fácil e ejaculatório. O ideal é que a pessoa consiga viver o afeto com desenvoltura e que saiba compartilhar o que sente. É importante que o parceiro seja de sua turma e que valorize a arte de estar juntos é íntimos.
- fidelidade, lealdade, confiança. A pessoa necessita se sentir segura na relação de outro jeito o relacionamento pode virar um inferno para ela.
- a pessoa pode se machucar com profundidade e ficar resistente a intimidade.
- poder de transformação. A pessoa acredita na sua auto-transformação, na transformação do outro e da relação.
- magnetismo animal. A pessoa quando quer exala um magnetismo animal encantador que seduz ao outro como olhar de cobra. Mas a pessoa é muito seletiva com quem vai namorar ou ter intimidade. Ela repudia superficialidade à toa. Quando ela consegue construir um relacionamento estável e profundo pode viver com alegria toda sua potencialidade diferenciada de intimidade e sexo.
Eros em Sagitário
Eros em Sagitário sugere:- pessoa entusiasmada, otimista, que defende o amor e o sexo como ideologia de vida e saúde
- paixão, emoções fortes, tesão transbordante
Eros em Capricórnio
Eros em Capricórnio sugere:- relação profunda com o ambiente e tudo o que rodeia. A pessoa sente a necessidade de conhecer a estrutura e composição das coisas. Pode se tornar num especialista do plano físico. Gosta de determinar nos ambientes em que se encontra.Talento para agricultura, jardinagem, construção, engenharia, tecnologias, urbanismo, ciências naturais. Pode tornar-se naquela pessoa que sabe arrumar os aparelhos da casa, que cuida da manutenção do espaço físico, que é previdente e faz as compras com planificação.
- valoriza o dinheiro, a qualidade de vida e o poder material.
- gosto por trabalhar, ser produtivo, eficiente, competente, persisstente. Tesão e atração por pessoa que tenha estas qualidades.
- gosta curtir o sexo com tempo e responsabilidade. Constrói sua visão do sexo dentro do contexto geral da energia, saúde e sua relação com o resto da vida. O seu dilema é encontrar o tempo que gostaria dedicar a pesquisa sexual e como adquirir todos os conhecimentos que sente seriam necessários para poder agir com responsabilidade e competência, buscando o melhor uso da energia sexual.
- receio, objeção ao sexo e a intimidade. A pessoa pode em um primeiro momento ser comedida e resistente à intimidade e o sexo. Enquanto ela não sentir que tenha domínio e controle da sua sexualidade, difícilmente se entrega. Ela gosta de se sentir segura. Também tem tantas coisas para fazer e realizar que não encontra tempo para viver toda a ritualistica que envolve sexo e intimidade. Outra saída é viver o sexo e a intimidade de forma bem pragmática e objetiva.
- vontade de realizar algo que seja reconhecido pelas pessoas com quem convive.
Eros em Aquário
Eros em Aquário sugere:- tesão por amigos. Amizades sensuais e picantes.
- gosto por grupos e atividades em grupo.
- gosto de fazer planos para o futuro
Eros em Peixes
Eros em Peixes sugere:- pessoa romântica e emocional.
- sensibilidade aos desafios sociais e a situação dos outros.
- fantasia e sonhos eróticos
Eros nas casas
Eros na casa I
Quando Eros está na casa I, encontrava-se perto do Leste no momento do nascimento, adicionando seu sabor a todo o mapa natal. Ele ganha ainda mais força se está numa orbe de 10º entorno do Ascendente. Eros na casa I sugere:- pessoa erótica: a pessoa se movimenta por tesão e ligação visceral com tudo o que faz. É bom a pessoa conhecer sua sexualidade e conseguir encontrar o seu caminho de realização sexual e sensual.
- sensibilidade a vida e força das coisas
- tesão consigo mesmo. A pessoa pode se dar muito prazer e amor a si mesmo
Eros na casa XI
A décima primeira casa é tradicionalmente associada a grupos, esperanças e desejos, filiação nas organizações, nos relacionamentos com amigos e assessores e metas para o futuro. Eros na casa XI sugere:- tesão e disposição de participar de grupos onde role energia, troca, vínculos, tesão.
- cupido entre amigos - talento para colocar as pessoas em relação.
- o Deus do Amor se manifesta na presença de amigos. Tesão, intimidade com amigos. Faz dos amigos pessoas íntimas.
- disposição e tesão por planos e projetos
O Banquete, de Platão
Artigo publicado na revista Estudos de Psicanálise n° 26
E-Mail: cbprj@cbp-rj.org.br "O Banquete (em grego Symposium), diálogo da maturidade filosófica e literária de Platão, pode ser dividido em cinco partes: 1ª - a introdução; 2ª - o torneio de discursos sobre Eros (com os cinco discursos de: Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes e Agaton); 3ª - o discurso de Sócrates, através das palavras de Diotima; 4ª - a entrada, o discurso de Alcebíades e a réplica de Sócrates; e 5ª - uma breve conclusão. A INTRODUÇÃO DO BANQUETE: SOBRIEDADE E DIGNIDADE Apolodoro, discípulo de Sócrates citado no Fédon, é questionado sobre um famoso Symposium que teria ocorrido há alguns anos. Responde ao interlocutor que este se enganou, não esteve presente, que o fato ocorreu há muito mais tempo, quando ainda era criança. Apolodoro diz que tudo que sabe sobre tal Symposium chegou-lhe por meio de alguém que esteve presente, um tal Aristodemo, que contou a quem lhe contou. Platão utiliza-se deste preâmbulo como artifício literário; instaura-se o tempo mítico do era uma vez... Onde termina a verdade histórica, onde começa o mito, o que poderia ter sido realmente dito, o que é da invenção de Platão? Impossível saber. Todos os personagens historicamente existiram. Agathon, nome que em grego designa a Idéia do Bem, ápice da teoria do conhecimento do platonismo clássico, também designa o poeta trágico em cuja casa se passa o Banquete, comemoração por sua vitória na competição teatral das Lênaias, em 416 a.C. O Symposium refere-se ao segundo dia das comemorações. Estando todos ainda na ressaca da véspera, concordam em beber pouco, em despachar a flautista que acabara de entrar e, por sugestão de Fedro, escolhem Eros como tema para o torneio de discursos. Os palestrantes concordaram em seguir a ordem ao redor da mesa, a partir direita, reclinados que estavam sobre uma espécie de leito, sobre o qual se recostavam três comensais. Este tipo de móvel, que da antiguidade greco-romana herdaram o uso os antigos persas e outros povos orientais, retornou para a civilização européia, sob uma forma um pouco menor, com o nome de cama turca, do qual um exemplar, no final do século XIX, foi utilizado por certo médico vienense em seu vitoriano consultório. Fedro Os discursos sobre o amor iniciam com Fedro: "iniciou o seu discurso Fedro] declarando que Eros era uma divindade poderosa e admirável, tanto entre os homens como entre os deuses, por várias razões, mas, antes de tudo, pelo nascimento." Fedro é o primeiro, e por isso pai do discurso, a falar sobre o deus Eros: ele condena o ofício dos poetas que têm por missão cantar hinos aos deuses mas se esquecem de Eros. Fedro, no seu discurso, faz a justificação moral de Eros, mas não investiga a fundo sua essência e suas formas. De qualquer forma, é devido à fala desse discípulo de Sócrates que toda a discussão se inicia. Com o intuito de elevar Eros, Fedro encerra seu discurso dizendo que esse é o deus mais antigo, mais respeitável e o mais "autorizado" (cf. 180b) a levar o homem à posse das virtudes e da felicidade, nesta vida e depois da morte! FEDRO: DO REAL AO SIMBÓLICO, A CONSTRUÇÃO DA METÁFORA DO AMOR Discípulo um tanto acrítico de Sócrates, como fica claro em outro diálogo que possui seu nome – Fedro – começa o torneio de modo absolutamente grandiloqüente: primeiro foi o Caos, depois a Terra (...), e depois Eros. Fedro cita tanto a Teogonia de Hesíodo, quanto o Poema de Parmênides, ao justificar Eros como um dos deuses mais antigos, senão o deus primordial: fonte da união de tudo que há e que só pode existir a partir da diferenciação e da reunião, formando todos os seres. O discurso de Fedro inicia-se como discurso teológico. Talvez, por que uma melhor compreensão de Eros só possa fazer-se através do simbólico, tenha sido este o motivo pelo qual Fedro deslocou seu discurso do teológico para uma narrativa de várias estórias. Afirma que, sendo Eros o mais antigo dos deuses, aqueles que lhe são possuídos, tornam-se reverenciados por todos os demais deuses. Para ilustrar Fedro conta três mitos. Primeiro o mito de Alceste, cujo marido – Admeto - estava condenado à morte, exceto se alguém aceitasse tomar seu lugar, o que nem os próprios pais de Admeto aceitam. Mas Alceste aceita e, por isto, os deuses, comovidos, permitem que ela retorne do Hades e viva ao lado de Admeto. O segundo mito, o de Orfeu, que perde sua Eurídice e vai até o outro mundo buscá-la. Por seu despreendimento e pela magia de sua lira, também comove os deuses, que aceitam que Erídice retorne à luz, mas colocando uma condição, de que Orfeu, levando-a pela mão, não olhe para trás até a saída do Hades. Já na saída do Hades, Orfeu duvida, dos deuses e de Eurídice – poderia estar segurando um monstro – e, no último instante, olha para trás e perde sua amada para sempre. O terceiro mito, o de Pátroclo e Aquiles. Na guerra de Tróia, Pátroclo, erastes (o mais velho, o amante) de Aquiles é morto. Aquiles, o erômenos (o mais jovem, o amado) decide vingar Pátroclo, mesmo sabendo que lhe custaria a vida, enquanto que fora profetizado que se não o fizesse teria vida longa e próspera. Morrendo por Pátroclo, Aquiles torna-se mais venerado pelos deuses até mesmo que Alceste. Após a morte, Aquiles e Pátroclo são recompensados com uma vida eterna na Ilha dos Bem Aventurados. Lacan comenta, sobre Alceste e Aquiles – e que Orfeu teve coragem de menos ou dúvida de mais -, do amor como metáfora, que nestes mitos foi realizada no sentido literal: seguir, substituir, colocar-se no lugar do outro a partir de sua falta. A metáfora do amor possuí vários sentidos, todos significando uma forma de metamorfose: transformar-se de passivo em ativo, de amado (erômenos) em amante (erastes), de desjado em desejante, do ter ao ser, do objeto à identificação. A metáfora ocorreu de modo ainda mais radical no caso de Aquiles. Ao contrário de Alceste, cuja morte implicava que ao menos seu marido vivesse. A vingança de Aquiles não podia restituir Pátroclo à vida. Lacan também comenta que Alceste é quem possui um papel ativo – de erastes, de desejante - desde o início do mito, ao contrário de Aquiles que, pela iniciativa de sua ação, passa de amado à amante.. Esta transformação, de desejado em desejante, dá ao mito de Aquiles e Pátroclo uma dimensão maior que a das duas histórias anteriores, pois é a que mais completamente ilustra a metáfora do amor. Pausânias PAUSÂNIAS: OS BONS INVESTIMENTOS DO AMOR DE ACORDO COM O IMAGINÁRIO Pausânias, amante de Agaton, o anfitrião do Banquete, e sem outras qualidades conhecidas além desta, toma o discurso. Segundo Pausânias, tudo que foi dito por Fedro estaria muito bom se Eros fosse apenas um, mas em verdade são dois e, como na versão mais usual da mitologia Eros é filho de Afrodite, são dois por que há duas Afrodites. A primeira Afrodite, Celeste ou Urânia, não possui mãe, sendo filha do Céu – Urano – que, castrado por seu filho o Tempo – Cronos -, teve os testículos jogados no mar. Dos testículos e do sêmen de Urano, simbolizados pela espuma do mar, nasceu a deusa da beleza, dentro de sua boticcellineana concha (adiante veremos Lacan comentar o quanto a beleza é um disfarce para encobrir a castração e a morte). A segunda Afrodite, Popular ou Paudemiana, inferior tanto cronologicamente quanto em divinidade, nasceu de uma mãe, a mortal Dione, e de Zeus. Assim como há duas Afrodites, também há um Eros Celeste e um Eros Vulgar. O fato de que a Afrodite Urânia originou-se só do pai e a Paudemiana de um casal, significa para Pausânias que o amor homossexual é superior ao heterossexual. Cada Afrodite e cada Eros simbolizam um dos mundos da teoria do conhecimento de Platão. Estamos bem dentro do domínio do platonismo e de todas suas influências posteriores, desde as várias escolas filosóficas até o cristianismo, as dicotomias: mundo inteligível/mundo sensível, espiritual/carnal, amor/sexo. Um cosmos de continuidade, mera variação quantitativa, parte-se em dois mundos, ambos em oposição e conflito; a variação torna-se qualitativa: o bem versus o mal. Mas para Platão e Pausânias o conflito ainda não se esboçara com tanta crueza, do mundo sensível, por meio da pedagogia do belo, pode-se atingir o mundo inteligível. Amar a beleza de um corpo é o caminho para se amar a beleza da alma nele contida, para dirigir-se à idéia de beleza contida em todos corpos e de virtude em todas as almas, para amar desde as idéias que modelam os seres físicos até as idéias abstratas e morais em si mesmas, até se atingir a mais alta de todas as idéias: a idéia do Bem Supremo, que unifica o mundo inteligível e reúne as idéias da Beleza, Verdade, e Justiça. O discurso de Pausânias constitui a apologia o Eros Celeste como pedagogia filosófica, fundamentada na tradição aristocrática grega da pederastia. Sucede Fedro no discurso em defesa de Eros outro discípulo, agora Pausânias: censura a falta de precisão do discurso anterior e tenta uma definição concreta. Para ele, existem dois tipos de Eros para os homens, um vulgar e repudiável, outro sendo uma força educadora. O Eros usual e corrente, o instinto e irrefletido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e o impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado. Este segundo Eros pretende ser uma força educadora, não só no sentido negativo de desviar os amantes das ações vis, o que o discurso de Fedro realça, mas também em toda a sua essência, como força que serve ao amigo e o ajuda a expandir a sua personalidade. (JAEGER, 2001, p. 727) O amor para Pausânias é sinônimo de liberdade para o homem. O amante faz coisas para o amado que escravo algum aceitaria fazer, tal como se jogar no chão ou se deitar na porta da moradia do amado. O amor é louvável, que denota a liberdade do indivíduo em fazer ou não determinadas coisas e, segundo Pausânias, é ratificado pelas leis, como ele mesmo nos diz: O amante faz tudo isso [serviços para o amado] com certa graça, o que lhe é permitido pela liberdade de nossos costumes, sem incidir na menor censura de ninguém, como se se tratasse de um ato louvabilíssimo. E o mais de admirar é que, no dizer do povo, somente o amante obtém perdão dos deuses, em caso de perjuro. Não há juras de amor, dizem. Desse modo, tanto os deuses como os homens concedem plena liberdade a quem ama, o que nossas leis confirmam. As atitudes de quem ama não o faz parecer ridículo e, se em agressão aos deuses, é logo perdoado pela sua condição de amante. O amor aproxima o sujeito das virtudes. Assim finda Pausânias e, de acordo com a disposição dos homens no banquete e da forma organizada que ia seguindo a discussão, seria a vez de Aristófanes. Mas esse se encontrava em soluços e passou a palavra para o próximo, Erixímaco. Em seguida, a vez de discursar voltaria para Aristófanes. Erixímaco ERIXÍMACO: A AMBIVALÊNCIA, O DESEJO E O REAL De acordo com a ordem estabelecida, o próximo discurso deveria ser o de Aristófanes, o autor de comédias e que, junto aos quatro trágicos – Ésquilo, Sófocles e Eurípedes – constitui um dos quatro monumentos do teatro grego clássico. Mas o monumento foi acometido de uma crise de soluços. Ocorrem os soluços quando se ri ou quando se chora demais? Assim sendo, Aristófanes cede a vez a Erixímaco, o médico, filho de Acúmeno, médico ainda mais famoso. Erixímaco continua a idéia dos dois Eros, mas sutilmente a distorce. Há um Eros Bom, que não é exatamente o Eros Celeste de Pausânias, e que traz a harmonia, a concórdia e o equilíbrio; há outro, o Eros Mau, que é não necessariamente o Eros Vulgar, mas que em tudo se opõe ao Eros Bom. O primeiro Eros é o responsável pela saúde e pela música: a conciliação entre os diferentes humores do corpo e entre os diferentes sons. O segundo Eros é o do excesso e do desequilíbrio, o responsável pela doença e pela cacofonia. Estamos diante do princípio tão caro aos gregos, o de que a virtude está sempre na justa medida e de que, quanto ao excesso – a tão temida hybris – ,seria melhor apagar a desmedida que um incêndio (Heráclito, fragmento 43 ). Conhecedor dos dois Eros e seus efeitos, a tarefa do médico, aliando-se ao Eros Bom, é re-estabelecer a harmonia. Como escreveu o poeta romântico Novalis: toda doença é um problema musical, e toda cura uma solução musical. Erixímaco define que a medicina é a ciência das eróticas do corpo, ao que comenta Lacan, parece-me que não se pode dar melhor definição da Psicanálise. O discurso de Erixímaco possui grande afinidade com o do pré-socrático Empédocles, que divide a arché (princípio, origem) do Cosmos em duas: Amor e Ódio. Este dualismo foi diretamente retomado por Freud, que veementemente se referiu a Empédocles como seu predecessor . Amor e Ódio, Eros Bom e Eros Mau, Eros e Tânatos: para muitos, apenas a ilustre linhagem de uma romântica especulação metafísica. Lacan chama a atenção para algo que até o Banquete - e para muitos muito após o Banquete também – foi algo inovador ao discurso filosófico e até hoje um tanto subversivo para vários discursos psicológicos e religiosos: a ambivalência estrutural do ser humano. Alem disto, o discurso socrático-platônico, o discurso aristotélico, o do platonismo para as massas, isto é, do cristianismo, todos enfatizam a quimera da busca por um Bem Supremo. Ora o discurso de Erixímaco ultrapassa a busca do Bem Supremo, trata-se da emergência da realidade do desejo como tal Em sua ambivalência o desejo passa a englobar ambos Eros, o Bom e o Mau. À ruptura provocada pelo além do princípio do prazer também pertence ao desejo, com ela nos deparamos com a brutalidade da parede opaca do real. O médico Erixímaco propõe ao amigo em soluço três "remédios" para o problema: 1. Que prenda a respiração por um momento; 2. Se não resolver, que gargareje um pouco de água; 3. Se mesmo assim não resolver, que cheire algo que irrite o nariz e provoque espirros. Assim, repetindo essa etapa por duas vezes, Erixímaco garante que o soluço, por mais forte que seja, passará. É interessante observar a aplicação da medicina na época de Sócrates e de se perceber o interesse de um médico pela filosofia e pelas idéias de Sócrates. Obedecida à risca a receita, e com sucesso, Aristófanes comenta: admira-me que a harmonia do corpo exija para seu re-estabelcimento cócegas e estrondos, como são os espirros. O discurso de Erixímaco é aquele que transpassa o homem e atinge a natureza. Com a visão de um médico, visão naturalista, Eros aparece aqui como um deus poderoso, princípio e devir de todo o físico, "como potência criadora daquele amor primogênito que tudo anima e penetra, com o seu ritmo periódico de pleno e de vazio." (JAEGER, 2001, p. 730) Erixímaco vê a existência de um Eros bom e um ruim. É o Eros bom que promove o bem-estar e a harmonia, estando em todas as esferas do cosmo e das artes humanas. Ele compara a medicina e a música: a primeira deve fazer existir a harmonia entre as forças físicas antagônicas e segunda deve combinar tons altos e baixos para formar uma sinfonia. A idéia de harmonia, tão presente em "A República", aparece aqui novamente, até mesmo quando o médico grego diz que o homem deve sim consentir o prazer, mas não deve se deixar corromper por esse. Findada a fala do médico Erixímaco, Aristófanes já tem por cessado o seu soluço e começa a expor o que tem a falar sobre o amor. Aristófanes O discurso do poeta Aristófanes é menos extenso que o do Erixímaco, mas maior que o de Fedro. Percebe-se que a discussão vai avançando e se aproximando de definições mais claras para o que seria o amor, ou a amizade, ou Eros. Para Aristófanes, Eros é um anseio, uma busca metafísica do homem por uma totalidade do Ser, inacessível sempre à natureza do indivíduo. Uma das coisas que revela isso é a saudade dos amantes que desejam não se separar em tempo algum: não se trata somente de algo corporal, mas de algo que une as suas almas ou, dizendo de outra forma, complemento que uma alma busca na outra. Diz-nos Aristófanes: "Quando acontece encontrar alguém a sua metade verdadeira, de um ou de outro sexo, ficam ambos tomados de um sentimento maravilhoso de confiança, intimidade e amor, sem que se decidam a separar-se, por assim dizer, um só momento. Essas pessoas, que passam juntas a vida, são, precisamente, as que não sabem dizer o que uma espera da outra. [...] E a razão disso é que primitivamente era homogêneo. A saudade desse todo e o empenho de restabelecê-lo é o que denominamos amor." Não se deve esquecer que Aristófanes é poeta e apresenta uma visão mais romantizada da definição de Eros, de amor e amizade. Ele quer deixar evidente que não se trata de apenas uma conexão corporal, muito mais de essência e de complementaridade. Não é, evidentemente, a união física que faz com que um sinta um prazer tão grande com a presença do outro e a ela aspire com tanta força, mas é indubitavelmente uma coisa diferente o que a alma de ambos quer, uma coisa que ela não pode exprimir e que só palpita nela como obscura intuição do que é a solução do enigma da sua vida. Aristófanes termina seu discurso sobre o amor de forma belíssima, profetizando que o homem só terá uma vida feliz se tomado por Eros: "Falo em tese, tanto do homem como da mulher, para afirmar que nossa espécie só poderá ser feliz quando realizarmos plenamente a finalidade do amor e cada um de nós encontrar o seu verdadeiro amado, retornando, assim, à sua primeira natureza." Terminado Aristófanes, o leitor tem pela frente dois discursos: o de Agatão e Sócrates. Esses dois começam a discutir para saber quem vai falar primeiro. Sócrates não perde a oportunidade para lançar sua ironia: diz ter uma posição temerosa, falar sobre o amor depois do belo discurso que provavelmente Agatão proferirá. Fedro reorganiza o banquete (a ordem dos discursos) e coloca Agatão para discursar. ARISTÓFANES: OU COMO MORRER DE RIR DA CASTRAÇÃO O discurso de Aristófanes é considerado como o mais importante e original dos discursos antes do de Sócrates. Comentadores discutem por que Platão inseriu este personagem, cuja ferina comédia As Nuvens teria sido uma das causas da condenação do mestre da maiêutica. Muitos concordam ter sido esta justamente a razão pela qual Platão incluiu Aristófanes, a de inocentá-lo de qualquer culpa direta da morte de Sócrates. As Nuvens teria sido uma simples gozação, não um ataque pessoal, e que o comediante não teria previsto as trágicas conseqüências em que sua peça seria utilizada. O que era para ser apenas comédia teria acabado em tragédia. Aristófanes relata um novo mito, criação original de Platão, que adorava criar mitos, o mito da criação dos seres humanos como hoje são. Originalmente a humanidade compunha-se de seres esféricos, dotados de: quatro braços, quatro pernas, um rosto de cada lado da cabeça e um genital de cada lado do corpo. Eram filhos: do sol, da terra e da lua, o que explicava sua forma esférica. Os filhos do sol possuíam dois genitais masculinos. Os filhos da lua dois genitais femininos. Os filhos da terra, que possui a luz de um astro e a sombra de outro, um genital de cada sexo. A estas últimas, um tipo de terceiro sexo, era dado o nome de andrógino. Tais criaturas não andavam de pé mas rolando, moviam-se como os saltimbancos, girando sobre seus muitos membros. Eram tão completas em sua redondice que resolveram escalar até o céu e desafiar os deuses. O que deixou Zeus furioso. Mas eliminá-las deixaria os deuses sem adoradores. Admirando-se pela praticidade de sua solução, que dobraria o número de seus adoradores, Zeus, como punição, parte ao meio todos seres esféricos. Depois de cortá-los, como se faz com frutas ou ovos - reduzindo-os a: dois braços, duas pernas, um rosto e um genital – Zeus ainda os adverte de que se o continuarem desafiando cortará de novo, nem que todos tenham de ficar pulando em um pé só. Após o corte Zeus envia Apolo, para que curasse as feridas e que virasse o rosto dos cortados e o pescoço para o lado em que a separação havia sido feita a fim de que o homem, pela contemplação do corte, se tornasse mais humilde, e que se curasse de seu orgulho. Utilizando-se de um instrumento semelhante ao que os sapateiros usam para alisar as rugas do couro, Apolo alisou a maior parte das rugas criadas pelas cicatrizes. Como arremate final costura, Apolo deixou o umbigo, para o qual as infelizes criaturas passaram o resto de suas vidas tendo de olhar. Desesperadas, as criaturas partidas passaram a buscar sua metade perdida. Quando ambas ex-metades se encontravam, se abraçavam até morrer. Num ato de piedade, Zeus novamente enviou Apolo a Terra. Que virasse o genital dessas pobres criaturas para o outro lado, assim, quando se encontrassem, as ex-metades poderiam fazer algo que por breve momento as restaurasse em uma só. Dos três tipos sexuais partidos nasceram todas as combinatórias do amor: masculino/masculino, feminino/feminino e, do bissexual andrógino, masculino/feminimo . Lacan comenta como a esfera fazia parte do imaginário grego. Desde a conceituação do Ser de Parmênides à harmonia das esferas do universo geocêntrico aristotélico-ptolomaico, o redondo é o símbolo de perfeição, fundamento da filosofia e da teologia de um universo criado por Deus para seres à sua semelhança. Muitos séculos depois, por destruir tal perfeição redonda, Galileu teve de retrata-se e Giordano Bruno foi queimado. As feridas narcísicas cobram alto preço; homens redondos não toleram serem castrados. Aparentemente um grande paradoxo, Aristófanes, o comediante, é quem fala do trágico da falta. Assinala Lacan que a primeira reação das criaturas que foram partidas, é instaurar-se uma fatalidade pânica que, em um primeiro momento preferiam perecer ao lado do outro pela impotência em juntar-se a ele. Pode-se pensar na superestimação narcísica do sujeito suposto no objeto amado. Tão superestimado por que a breve reunião que restaura o narcisismo, tanto mais forte é, quanto mais forte a Verwerfung (forclusão) da castração. Nestes casos ainda não se escapou do domínio do imaginário. A tentativa de forcluir a ferida narcísica é uma busca incontrolável por um reflexo no espelho, o pânico apenas é a percepção da impossibilidade de captura da forma, tal como ordenada pelo imaginário. Mesmo assim, trata-se de um primeiro passo, necessário, mas não suficiente, para que se entre na ordem do desejo. Mas o comediante também é o primeiro que desce das dualidades dos discursos anteriores, pelo mito explica a experiência real e muito concreta dor da perda. Além disto, Aristófanes é o único a falar dos genitais. Apesar do trágico de seu conteúdo – em realidade o mais trágico de todos os discursos do Banquete - não há leitor ou ouvinte que num primeiro momento deixe de rir do mito aristofânico. Para Lacan torna-se óbvio que este fato confirma o que eu lhes disse ser o essencial do mecanismo cômico, que é sempre no fundo referência ao falo.Podemos arrematar o comentário ao muito cômico discurso de Aristófanes, quando Lacan alguns parágrafos antes, afirmara que Platão, indiscutível mestre, é uma espécie de Sade, só que mais engraçado. Ágatão Diz ele ser necessário tratar primeiro da natureza do deus e para depois tratar de seus benefícios; Eros é o deus mais bem-aventurado, o mais belo e melhor. O discurso de Agatão é o menos psicológico, o menos relacionado com a alma. Ele limita-se a descrever Eros e suas características. Jaeger muito bem resume o discurso de Agatão sobre Eros: "Conforme Ágaton o descreve, Eros é o mais feliz, o mais formoso e o melhor de todos os deuses. É jovem, fino e delicado, e só mora em locais floridos e perfumados. Sobre ele nunca põe as mãos a coação, pois o seu reino é o da vontade pura e livre. Possui todas as virtudes: a justiça, a prudência, a bravura e a sabedoria. É um grande poeta e ensina os outros a sê-lo. Desde que Eros pisou o Olimpo, o trono dos deuses passou de terrífico a belo. Foi ele quem ensinou à maioria dos imortais as suas artes. E o entusiasta adorador do deus de Eros, hino capaz de competir com qualquer hino em verso, tanto pelo equilíbrio harmônico da composição como pela sonoridade musical." AGATHON: CRIAÇÃO, ATOPIA E CONTROVÉRSIAS O discurso seguinte é o do próprio anfitrião do Symposium, Agathon, amante de Pausânias. O último discurso antes do de Sócrates inverte a teologia do primeiro dos discursos, o de Fedro. Eros não é o mais antigo dos deuses e sim o mais jovem. Só o que é jovem é flexível e maleável. A fluidez faz com que Eros molde-se e penetre em todos os corações e almas, sejam dos deuses, sejam dos homens, onde faz sua morada. Exceto naqueles cujos corações e almas estejam por demais endurecidos. Sendo a origem do maior de todos os prazeres, Eros conduz à temperança e à concórdia (do latim: com-cordis, com o mesmo coração), vencendo mesmo a concupiscência, que não seria verdadeiro amor. Até Ares, deus da guerra, foi subjugado pelo amor. Mas, acima de tudo, Eros seria a fonte de toda criação, só ele conduz ás Musas. Poiesis, o termo grego para criação, e Eros é seu deus. A posteridade foi implacável com o discurso de Agathon. Muitos comentaristas da história da filosofia o consideram retórico, grandiloqüente, mas vazio, o mais fraco dentre os discursos que antecedem o de Sócrates. É curiosa tal antipatia com relação ao único dos discursos, antes do de Sócrates, que relata ser Eros fonte da criação, tema que será integralmente aproveitado pelo mestre da maiêutica. Lacan subscreve esta tradição crítica, o fracasso de Agathon é a prova disto: não basta, para se falar do amor, ser poeta trágico, mas é preciso também ser um poeta cômico Argumento válido tanto para Platão, que termina o Banquete com Sócrates discutindo com Agathon e Aristófanes se o autor de tragédias também não deve escrever comédias e vice-versa, quanto para Lacan, caso refira-se a Agathon o personagem. Mas não para o Agathon histórico, por que as competições teatrais gregas compunham-se de três tragédias seguidas de um drama satírico, que é uma forma cômica, todos do mesmo autor. Ou teria Lacan em mente, como criador completo, Shakespeare? Compreende-se também a oposição de Lacan pelo fato de haver Agathon afirmado, em relação a Eros e as Musas como fontes da criação, que: é absolutamente impossível a qualquer pessoa doar aquilo que não tem, nem ensinar aquilo que não se sabe. O drama da criação, e não a criação do drama, torna-se o verdadeiro tema em Platão e Lacan. Criar não é tão somente ato cheio de felicidade e prazer, ao contrário, é apenas uma máscara que esconde a caveira hamletiana. Segundo Lacan, o homem resiste entre duas mortes: primeira, a morte física, a segunda define a situação do homem como aquele que (...) aspira a aniquilar-se para se inscrever nos termos do ser. A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza. O drama da criação amplia-se por seu sem lugar, sua atopia. Lacan discorre longamente como Sócrates mereceu sua cicuta, por que tanto se recusava fixar no lugar que lhe era inscrito pela cidade, quanto ampliava esta atopia por seu modo transgressor de ser, eternamente questionado todos saberes instituídos, insistindo que a verdade só pode ser encontrada a partir de dentro de cada um e não de qualquer saber exterior. Sócrates que recusou até mesmo a palavra escrita para eternizar-se em sua segunda morte, via-se como um criador ao limite extremo, conduzido apenas pela exigência de obrigar a uma coerência (enlouquecida?) do significante levada à potência absoluta. Ele nos afirma que é nessa segunda morte – encarnada em sua dialétia pelo fato de ele elevar a coerência do significante à potência absoluta, à potência de único fundamento de certeza – que ele, Sócrates, encontrará sem dúvida alguma na vida eterna. Logo, poderia o poeta cômico sozinho, como queria Lacan, dar conta do discurso da criação? Talvez o mais trágico do discurso do poeta trágico - paradoxo para alguém que vive do e pelo discurso - é que ele se direcionou ao simbólico, mas não conseguiu sua sanção. Ao descrever a criação, a poiesis, deu a ilusão otimista de que ela seria suficiente para preencher o furo da castração. Motivo pelo qual, talvez, a posteridade reconheceu sua análise como superficial. Socrates O grande momento do Banquete, e talvez o mais esperado, é quando Sócrates passa a discursar sobre o amor. Para ele, ao contrário de Agatão, Eros não é o próprio belo, mas aspira-o, tem o desejo de possuir algo. Lembra que quem ama deseja possuir aquilo que ama. Sócrates faz uso do mito de Diotima: segundo ele, em determinado tempo, havia perguntado à profetisa Diotima, de Mantinéia, coisas sobre Eros. Isso revela que o discurso de Sócrates aparece não como uma sabedoria dele, mas como uma verdade que ele desvendou. De acordo com esse mito, Eros é filho de Poros (riqueza) e de Penia (Pobreza). Isso coloca Eros em uma posição intermediária: ele não é nem feio e nem belo, nem participa da bem-aventurança, característica essencial da divindade. Eros é um ser duplo, herdado da diferença de seus pais, o que o coloca numa posição intermediária. O Eros de Platão revelado por Sócrates no Banquete é o próprio filósofo: está na posição intermediária, entre o saber e a ignorância, é aquele que aspira algo. O Eros em Platão é a aspiração do ser humano ao bem. O Eros socrático é o anseio de quem se sabe imperfeito por se formar espiritualmente a si próprio, com os olhos sempre fitos na Idéia. É, em rigor, o que Platão entende por "filosofia": a aspiração de conseguir modelar dentro do homem o verdadeiro Homem. O discurso de Diotima, na fala de Sócrates, está na tradição grega e coloca na idéia de Eros toda a atividade de criação espiritual. Eros é um poder educador e que matem unido todo o cosmo espiritual, isso porque ele é a aspiração comum a todo homem de buscar e se apossar por completo do belo. Recordemos que Diotima definia acima a essência do Eros como a aspiração a apropriar-se 'para sempre' do Bem. [...] o Bem constitui o amor humano de si próprio, no seu mais alto sentido, então é evidente que o objeto sobre o qual ele recai, o eternamente belo e bom, não pode ser senão a substância deste mesmo eu. INTERMEZZO E PRELÚDIO Depois de Agathon, antes de iniciar seu próprio discurso, e que enunciará como não sendo seu, Sócrates submete o autor de tragédias a uma de suas típicas inquirições. Para o mestre da maiêutica todos elogiaram Eros com os mais belos e grandiosos predicados, ninguém se preocupou em saber se seriam verdadeiros ou não. Sócrates exige a coerência do significante para algo que a natureza humana é visceralmente incoerente e atópico, o amor. Este trecho do Banquete aparentemente reflete o Sócrates histórico. Talvez tenha sido colocado por Platão como lembrança aos leitores de que se, por um lado o autor criara tantos mitos e abusara de sua arte literária, por outro o espírito da atopia socrática estivera sempre presente. Mas Platão, o poeta, em seus diálogos clássicos da maturidade, nunca deixa de ser um artista, utilizando-se de todos os recursos literários. Defendeu o poeta T. S. Eliot que todas obras poéticas literárias necessitam também de uma estrutura análoga à da música. A seca inquirição de Agathon dá ao leitor fôlego, ao mesmo tempo que prenuncia o tom crescente de oratória e drama que virá a seguir. SÓCRATES/DIOTIMA: A UNIÃO DA QUE NÃO TEM COM O QUE NÃO SABE Fiel ao princípio do só sei que nada sei, Sócrates não enunciará em seu nome qualquer conhecimento. Dirá que tudo que aprendeu sobre o Eros lhe foi ensinado, quando jovem, por Diotima, mulher de Mantinéia sábia em muitíssimas coisas, detentora de funções sacerdotais e, possivelmente, de algum tipo de poder sobrenatural. Embora Diotima geralmente seja considerada personagem criada por Platão, há vagas suspeitas ao contrário. Platão, que na República advoga igualdade de poder político entre os sexos, sempre foi criticado por seu aparente feminismo. Para os filósofos, até recentemente quase sempre homens, abundando os misógenos, sempre foi um anátema que o mais importante discurso sobre Eros tenha sido colocado nas palavras ditas por uma mulher. Lacan menciona a spaltung ou diocisme – divisão, cisão – dos seres redondos de Aristófanes e que Sócrates, ao enunciar o discurso de Diotima, também se cindiu. Lacan indaga porque: (...) quando se trata do discurso do amor, escapa ao saber de Sócrates, (...) este se apaga, se “diociza”, e faz, em seu nome falar em seu lugar uma mulher? Por que não a mulher que está nele? O mestre da maiêutica revela que, quando jovem, também foi inquirido por Diotima, pelo mesmo método de argumentação que depois o tornou famoso. Ela o conduziu a refletir que Eros não poderia ser um deus. Aos deuses nada falta, já são, em sua própria essência e existência: perfeitos, sábios, belos. Não foi à toa que Lacan os colocou no real. Perfeição, sabedoria, beleza, tudo que falta a Eros, ou não as estaria sempre buscando. Eros é o desejo de alguma coisa, mas de algo que também não lhe falta de todo, ou não saberia sequer o que procurar (escutamos ecos do discurso de Aristófanes). Afirma Diotima que, entre os dois extremos – os homens e os deuses – há seres intermediários, categoria a que Eros pertence: trata-se de um daimon, um mensageiro (em grego, angelos). Sutilmente o diálogo entre o jovem Sócrates e Diotima também provocou um deslizamento de significantes, do Eros-amor passou-se ao Eros-desejo. Para quem deseja, o objeto do desejo é algo que não se possuí, e também não se é em si mesmo, é aquilo que essencialmente lhe falta. Comenta Lacan que se introduziu a cunha da função da falta como constitutiva da função de amor. Diotima, então, enuncia seu mito sobre o nascimento de Eros. Mito que parece ser criação exclusiva de Platão. Por ocasião do nascimento de Afrodite os deuses deram um grande banquete, a que compareceu Poros (várias traduções: Riqueza, Recurso, Esperto, Astucioso). Excluída pelos deuses ficou a observar de fora Pênia (outras tantas traduções: Pobreza, Carência, Sem Recursos). Embriagado pelo néctar Poros foi para o jardim de Zeus, onde adormeceu. Pênia, ardilosa, seduziu-o e com ele concebeu um filho: Eros, que está ligado a Afrodite pelo dia de sua concepção. Novamente a tradição patriarcal grega é posta de cabeça para baixo. O masculino é desejável, mas passivo, o feminino é desejante e ativo. Acrescentado sua definição sobre Pênia, Lacan nomeia-a de Aporia termo filosófico que define uma dificuldade na ordem do discurso ou, como a utilizou Zenão, o raciocínio pelo absurdo. Se lhes trago, neste sentido, a fórmula de que o amor é dar o que não se tem, nada existe aí de forçado (...) já que a pobre Aporia por definição e estrutura, não tem nada a dar, senão sua falta, aporia constitutiva. O Eros-desejo de Diotima possuí as características tanto de Pênia, quanto de Poros: é pobre, rude, sujo, como sua mãe; mas do pai herdou a atração pela beleza, pelo conhecimento; vive entre miséria e a opulência, entre a tolice e a sabedoria, sendo o por excelência o daimon da filosofia; não é mortal ou imortal, morre e renasce todos os dias. Conclui Platão, é grande feiticeiro, mago e sofista. Mas podemos refletir que Poros, pelo menos ao momento da concepção de Eros, não estava tão pleno de si quanto as criaturas esféricas de Aristófanes. Podemos pensar que no mito aristofânico a cisão causou um estado de pânico, uma tentativa de forcluir a ferida narcísica, uma busca incontrolável por um reflexo no espelho e que a instalação da incompletude foi apenas da ordem do imaginário. O desejo verdadeiro passa pela relação do sujeito com o simbólico, na medida em que ele se distingue do imaginário e de sua captura. Ou que o amor deve restituir a tensão entre o imaginário e o simbólico, articulando e separando a eleição do objeto pelo primeiro e de sua sanção pelo segundo. Nesta interpretação Poros pouco se assemelharia aos seres esféricos. O mito se desdobra numa narrativa, o que pertence à estrutura: aquele que não tem, se aninha na inciência do que tem (de quem tem) para dar o que não tinha. O sono de Poros e a pobreza de da Aporia (Pênia) são elementos indispensáveis aí: pobreza e desconhecimento. AINDA SÓCRATES/DIOTIMA: ABAIXO O PLATONISMO! Por meio do talento literário de Platão o discurso de Diotima reverbera através do tempo, tanto no passado, quando o Sócrates jovem teria escutado as sementes dos discursos que ouviria futuramente no Symposium, quanto o Sócrates já velho, que complementa estes mesmos discursos. Após os ecos do discurso do poeta cômico, Diotima ecoa o discurso do poeta trágico. Assim como o discurso original de Aristófanes foi direcionado do imaginário ao simbólico, o mesmo acontecerá ao discurso de Agathon. O desejo impulsiona em direção a; beleza, sabedoria, justiça e tudo mais quanto nos ofereça o reflexo da Idéia do Bem, ácume do ultra-mundo platônico. Mas quando este topo é alcançado, revela-se uma miragem. Segundo Diotima, existe nos seres humanos um desejo mais profundo: o da imortalidade. Platão apresenta um de seus muitos paradoxos, de repente tudo que é tradicionalmente valorizado pelo platonismo ou seus descendentes - o neoplatonismo e o cristianismo - cai por terra. Desaba a crença na existência de um mundo mais perfeito e real que este aqui - o mundo das Idéias, com sua idéia do Bem Supremo (leia-se também Deus) -, desaba a crença na reencarnação, herança platônica do pitagorismo. É como se os homens subitamente descobrissem que após a morte só há o sono sem sonho. Mas neles permanece uma grande nostalgia por algum tipo de ultra-mundo. Aos seres humanos só resta uma saída, levados por Eros-desejo, procuram as únicas formas de imortalidade reservadas aos mortais, mas que os aproxima do dom máximo dos deuses, a criação. Em geral se denomina criação ou poesia tudo aquilo que passa da não existência á existência. (...) Todos os homens, caro Sócrates, desejam procriar segundo o corpo e segundo o espírito. Quando atingimos certa idade, nossa natureza impele a que procriemos. A procriação e o nascimento são as únicas coisas imortais num ser mortal! Muitos procriam através do corpo – a imortalidade através dos filhos -, muitos através do espírito – a imortalidade pela criação: da filosofia, da arte e, a mais importante para Platão, da constituição das leis da polis. Ao contrário do otimismo do poeta trágico, Diotima assinala que a dor toma aquele que deseja procriar e, quando o consegue, sofre as dores do parto. Para Diotima o belo continua tendo sua função pedagógica: conduzir da beleza de um corpo, à beleza de todos os corpos, ao conceito de beleza como idéia, à descoberta do mundo das idéias e a idéia do Bem como idéia suprema. Mas em seu discurso o belo passa mais uma função: atenuar as dores da gravidez e do parto. Com o personagem Aristófanes vimos o pânico instaurado por uma falta que não tem como ser nomeada; os homens só podem suportá-la quando a ela associa-se a nomeação pelo simbólico. Aqui vemos que é verdadeiramente o Eros-desejo deve restituir a tensão entre o imaginário e o simbólico, articulando e separando a eleição do objeto pelo primeiro e de sua sanção pelo segundo. Para Lacan o progresso da Filosofia necessita da eliminação dos deuses, que pertencem ao real, em direção ao Verbo e ao Logos, ao simbólico. Só quando Eros desloca-se para ser Eros-desejo - um daimon não um deus -, só então a nomeação da dor da falta permite todas as outras nomeações, só então ocorre a criação verdadeira, não a sua negação ou uma defesa maníaca. Estas duas últimas seriam a origem: da perversão, a droga, do consumismo, do fundamentalismo religioso, etc. Por meio do Eros-desejo e da falta, é deste modo entramos no reconhecimento do objeto a. O objeto do desejo deixa de ser esse objeto redondo e total que viria a preenchê-lo como um Bem, e até mesmo como um Bem supremo. O objeto a não se situa como um objeto cujas qualidades específicas satisfariam o desejo por sua presença ou o frustrariam por sua ausência; sua função é ser causa do desejo, suscitá-lo. Uma vez que a existência humana dissolve-se no entre-duas-mortes, a física e a da inscrição no Ser, a questão do belo revela-se outra em que pensar pscanaliticamente é fazê-lo de um modo trágico. Por que o desejo não é originário apenas de Eros, mas para Freud e Lacan também Tânatos, pulsão de morte. Segundo Lacan esta´ bem claro desde o início do discurso de Diotima que: Se há dois desejos no homem, que o capturam, por um lado, na relação com a eternidade,e por outro lado, na relação de geração, com a corrupção e a destruição por ela comportada, é o desejo de morte, enquanto inabordável, que o belo é destinado a dissimular. Alcibíades O Banquete encerra com a chegada de Alcibíades e seu bando: todos bêbados. Alcibíades põe fim aos louvores a Eros e inicia elogios a Sócrates. A passagem final de Banquete pode ser despercebida em uma leitura corrente, mas é de grande significado. Com o encerramento das honrarias a Eros e o início dos elogios a Sócrates, esse encarna o próprio Eros, ou seja, encarna a filosofia. Se não bastasse, Alcibíades anuncia ter grande amor por Sócrates: como pode um jovem de beleza exuberante fazer elogios e anunciar o seu amor (philia) a um velho tão desfeito como Sócrates? Insere-se aí a valoração da filosofia e um novo valor: a beleza interior superior à beleza exterior, perecível. O Banquete trata da amizade, do amor e é um dos diálogos de Platão da categoria política. Mas como a discussão sobre a amizade pode inserir essa obra na problemática política? ALCEBÍADES: PAIXÃO E TRANSGRESSÃO Após o ápice do discurso de Sócrates/Diotima, parece ao leitor que o texto do Banquete irá se encerrar. Subitamente o estilo muda, Platão adota toda a dramaticidade do teatro grego. A conduta tão civilizada dos comensais dá lugar ao escândalo. É verdade que, desde de Philon de Alexandria (f. em 39 d.C.), que realizou a primeira tentativa de conciliar o judaísmo e o platonismo, no que foi seguido por vários autores cristãos, tendo sido o mais famoso Sto. Agostinho, a até há bem pouco tempo, a defesa da homossexualidade e da pederastia, especialmente no discurso de Pausânias chocava os leitores mais aferrados à tradição judaico-cristã. Mesmo muito depois da Idade Média, mereceria um trabalho à parte a análise das notas de rodapé das traduções (inclusive na edição brasileira que utilizamos), eternamente tentando justificar que não era bem assim, que no fundo Platão condenava tal conduta ou que o amor nos exemplos citados era apenas uma forte amizade Em sua introdução à leitura que fará do Banquete, Lacan, num tom muito sarcástico, assinala seu espanto de como tal texto, especialmente em sua parte final, referente a Alcebíades, foi copiado por gerações de monges e escribas, e pode sobreviver até a Renascença (é autêntica a tradição de que a obra de Safo teria sido queimada em Roma, em 1073, por ordem de Gregório VII?). Assinala também como o primeiro tradutor do texto para o francês, recusou-se a traduzir o trecho de Alcebíades, ou como vários comentadores contemporâneos de peso terminam suas interpretações no discurso de Diotima. Lacan também relembra aos participantes de seu Seminário quem foi o Alcebíades histórico: orador perfeito, homem belíssimo, demagogo de multidões, várias vezes espião e informante, traidor de todos os partidos e cidades a que se associou - inclusive um dos reis de Esparta, cuja rainha engravidou - e, finalmente, assassinado pelos persas, a quem também traiu. Alcebíades, quando jovem, foi o erômenos mais amado de Sócrates. Atribuí-se a carreira de Alcebíades ter sido uma das causas do julgamento e morte de Sócrates. Também se diz que Platão no Banquete, entre outras intenções, procurou inocentar Sócrates da responsabilidade pelas perversões de seu ex-discípulo. Mas para Lacan o discurso de Alcebíades e a resposta de Sócrates constituem o ápice do Banquete Lembremos que ao início do Symposium houve um acordo de que os participantes beberiam pouco e sem música. Pode-se falar de Eros sempre em sobriedade, em plena lucidez? Há alguma paixão moderada, frugal? Não é a paixão, por si mesma, sempre transgressiva? Se não há sobriedade nem naquelas paixões que são deslavadamente conscientes, imagine-se nas que são inconscientes. Este será o papel designado para o último discurso, que não foi planejado, realizado por alguém que não foi convidado e bêbado o suficiente para colocar todas as cartas, roubadas ou não, na mesa. Alcebíades, coroado de flores e fitas, irrompe com seus seguidores, também embriagados, e por uma flautista. Verdadeiro cortejo dionisíaco em uma reunião apolínea. Alcebíades dirige-se a Agathon, cumprimenta-o por sua vitória e o coroa com flores. Agathon lhe convida a deitar-se a seu lado e, então, Alcebíades leva um grande susto: Por Heracles, que é isto? Sócrates? Continuas a perseguir-me e te emboscas aqui, conforme o teu costume de aparecer justamente nos lugares em que menos espero encontrar-te! Alcebíades inicia sua denuncia de Sócrates, elogiando-o ao extremo, como um alguém que não se parece com nenhum outro homem dos tempos passados ou dos tempos atuais, ao mesmo tempo que o acusa de embriagar todos com sua fala, com a vertigem e a loucura da filosofia e adverte que o mestre da maiêutica já deve ter iludido os participantes do Banquete. Mas ele, Alcebíades, diz que vai revelar quem Sócrates realmente é, que através de sua sedutora conduta de o maior de todos os erastes ele é uma fraude, isto é, tratar-se-ia de um grande histérico. Por ser Sócrates absolutamente impar, nenhum outro é mais desejável para Alcebíades; a seus olhos Sócrates é o maior de todos os investimentos, sem rival em Atenas ou toda a Grécia Então Alcebíades relata com todos os detalhes como, quando jovem, tentou de todas as formas concreta e ativamente seduzir Sócrates. Mas, utilizando uma expressão usada várias vezes por Lacan no Seminário 8, poupo-lhes os detalhes. Chama a atenção, em coerência com o Alcebíades histórico, é que ele jamais se coloca como passivo e erômenos, mas sempre como ativo e erastes, levando o ser desejante a um extremo impossível e, segundo Lacan: Por que ele é Alcebíades, aquele cujos desejos não conhecem limites; quando se engaja no campo referencial, que é para ele o campo do amor, demonstra aí um caso notável de ausência de temor da castração. Qual o tênue limite entre perversão e transgressão? A primeira é apenas a segunda em seu estado permanente, estrutural? É o perverso o apaixonado permanente, mas sem amor “de verdade” ? E há algum objeto digno de Eros que, por um tempo ao menos, não se recubra das características ilusórias do objeto total, o objeto redondo, o objeto esférico sem pés nem mãos, o todo do outro. Quando deixa este objeto de ser o objeto esférico, um investimento máximo, acima de qualquer lei e de qualquer temor à castração para obtê-lo? A paixão pode ora dissolver-se em nada, ora ser substituída pelo amor “verdadeiro” ? Serão os objetos do amor “verdadeiro” apenas objetos parciais, por que existem apenas pulsões parciais? Se algumas das respostas forem afirmativas, todo o discurso de Freud sobre o objeto total e sobre a genitalidade cai por terra. SÓCRATES, ALCEBÍADES E AGATHON: AGALMA E TRANSFERÊNCIA O discurso de Alcebíades revela toda a ambivalência da paixão. Sobre Sócrates braveja que: freqüentes vezes cheguei a desejar que não mais estivesse vivo; mas se tal acontecesse, bem sei que minha angústia seria maior. Não nos surpreende, quando sabemos que o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença, que as acusações a Sócrates sejam mescladas dos mais altos elogios. Alcebíades compara Sócrates ao sátiro Mársias e ao silenos, nome que genericamente designam os sátiros velhos ou sátiros que ao invés de serem parte bode, seriam parte eqüinos, mas de um modo mais específico designa um personagem do cortejo de Dioniso. Este último é sempre representado como um velho gordo e bêbado, que segue seu deus montado sobre um asno e de seu mito existem muitas variantes: talvez seja filho de Pã ou talvez nascido das gotas de sangue da castração de Urano, talvez tenha gerado o centauro Folo, talvez seja o pai de um Apolo campestre. Estamos no reino dos personagens meio humanos, meio animais, de todas as interpretações possíveis para objetos parciais, teorias sexuais infantis, temores à castração e fobias. Que diria Hans de tais personagens? Deste Sileno os gregos antigos faziam estatuetas que, à semelhança das estatuetas de falos, serviam de amuletos de bom augúrio. Braveja Alcebíades que: (...) Sócrates é semelhante a esses Silenos que se encontram nas oficinas dos estatuários, e que os escultores representam com avenas e flautas nas mãos: e quando se abrem essas estátuas, vê-se que no interior se aloja um deus. Este objeto mágico e brilhante no interior de uma estátua surge como uma espécie de cilada para os deuses. Assemelhava-se às bonecas russas, que se abrem uma dentro da outra, ou de estátuas da Virgem, que uma portinha revela a figura do filho em seu ventre, segundo Lacan possuía o valor do que chamamos ex-votos. Só que no caso das antigas estatuetas gregas era um objeto exteriormente grotesco, à semelhança real do velho barrigudo e narigudo que era Sócrates. O objeto dentro da estátua é um Agalma: Este termo grego – que pode ser traduzido por ornamento, tesouro, objeto de oferenda aos deuses, ou, de modo mais abstrato, valor – representa o ponto pivô da conceituação lacaniana do objeto causa do desejo “o objeto a”. Este é o objeto tão caro à Lacan.: (...) Agalma, a, objeto do desejo, quando o procuramos segundo o método kleiniano, ele está ali de saída, antes de todo desenvolvimento da dialética, ele já está ali como objeto do desejo. Mas Agalma não é o objeto redondo, esférico ou chato que seria o Supremo Bem de Platão ou o objeto total de Freud, o cúmulo do amor. Ao contrário, um tal objeto esférico, cuja perfeição o assemelha a algo apenas do imaginário, seria o túmulo do amor. O fato de Platão, possivelmente muito mais que o Sócrates histórico, orientar-se em uma dialética denominada de ascendente, em direção à idéia do Bem Supremo, revela, para Lacan, um desconhecimento das leis do desejo em sua relação com o objeto que só pode ser posta a nu pela luz leiga da psicanálise. O fato de Agalma ser originariamente uma noção religiosa absolutamente não implica que o que ele indica deva recobra o interesse religioso. Sob esse aspecto o psicanalista não deve se tomar por um grande sacerdote do inconsciente, ainda que seu paciente, por amor ao agalma que percebe nele, lhe atribua todo poder e toda ciência. Muito pelo contrário, a idéia de Agalma denuncia as religiões como criações imaginárias fomentadas pela ilusão da existência concreta de um Bem Supremo. Não seria por menos que toda religião necessita um tipo qualquer de palavra revelada, isto é, ditada por diretamente por alguma divinidade, de uma palavra não escrita ou ditada através do simbólico, mas vinda diretamente do real, a forclusão que cria uma alucinação psicótica. Apesar disto, a busca pelo objeto total, o mais maduro, o mais elevado, tendo por satisfação a sexualidade genital e representando a saúde mental, teria sido uma das ilusões iniciais da psicanálise. Sem dúvida uma ilusão bastante coerente em um Freud e toda uma geração de analistas criada pelo modelo etnocêntrico europeu, apesar de que este modelo já estava entrando em pane: a cultura ocidental - leia-se européia – o ápice da civilização e o homem adulto, genital, heterossexual e sublimador de todo o resto, o espécime mais evoluído desta civilização. Á semelhança do brilho no nariz relatado por certo paciente perverso de Freud, Agalma é um objeto parcial. Vimos como o objeto do desejo não é aquele cujas qualidades específicas satisfariam o desejo por sua presença ou o frustrariam por sua ausência, sua função é ser causa do desejo, suscitá-lo. Mas não, qual nada, nosso primeiro esforço foi interpretá-lo apontando para uma dialética da totalização, transformá-lo no objeto chato, o objeto redondo, o objeto total, o único digno de nós, o objeto esférico sem pés nem patas, o todo do outro, onde, como todos sabem, irresistivelmente nosso amor acaba, encontra seu fim. Respondendo a Alcebíades, Sócrates mostra a todos que seu ex-discípulo favorito tragicamente saiu-lhe um fracasso completo, jamais lhe entendera o objetivo filosófico. Desde seus primórdios a pedagogia socrática, sedução que nunca conduzia concretamente ao gozo físico, não poderia ser simplesmente rotulada de histeria. O objetivo de Sócrates era que os discípulos – erômenos, desejados, passivos – se apaixonassem por ele, mas não o tivessem apenas como objeto. Principalmente que não o tivessem como a ilusão de um objeto total, caso em que Sócrates teria mais um dos fanáticos de qualquer, rodeado por seus seguidores, dos quais a história está repleta. Mas a insatisfação sexual, o realce da falta inclusa em todo desejo e todo amor, tinha como finalidade que ocorresse a identificação com ele próprio, Sócrates. Ao invés de serem possuídos ou possuírem fisicamente Sócrates, que elaborassem o luto desta impossibilidade, passando a ser como ele, amando o que ele amava, a filosofia. O verdadeiro objetivo socrático era a instauração da metáfora do amor, passar do ter ao ser, que os discípulos o substituíssem como erastes, ativos e desejantes, caçando que nem ele a coerência do significante como única forma de se atingir a verdade. A falta implícita em todo Eros-desejo é que cria o espaço capaz do encontro desta verdade, não um “eu sei o que é melhor para você”, que é o discurso do político ou do mestre, por que ao mesmo tempo esta seria a verdade de cada um, que só pode ser descoberta a partir de si mesmo. Pode-se parodiar Lacan e se dizer: parece-me que não se pode dar melhor definição da Psicanálise. Ao final do ambivalente elogio de Alcebíades, do discurso da paixão, novamente parece-nos que o texto do Banquete irá se encerrar, Novamente somos supreendidos. Sócrates denuncia que o discurso de Alcebíades é mais uma tentativa de tentar seduzi-lo, ou, ao menos, assim parece. Como nova ferida inflingida ao grande narcísico, Sócrates é quem toma o tom da denúncia. Acusa Alcebíades de ter disfarçado muito bem o verdadeiro alvo visado por seu discurso: (...) todas as tuas palavras tendiam unicamente a suscitar inimizade entre mim e Agáton. Crês que devo amar-te a ti, e a ninguém mais; e que Agáton só deve ser amado por ti, e por mais ninguém. Nenhum de nós, porém, deixou de notar tua intenção; o drama satírico e silênico foi revelador. Dito de outro modo, o mestre da maiêutica mostra que o Agalma que supostamente Alcebíades veria dentro dele, Sócrates, mas que em verdade Alcebíades jamais percebera que pertencia a si mesmo, não lhe era direcionado – ou não tão somente a ele – mas a Agathon. É que Sócrates só pode recusar a isso porque, para ele, nada há que seja amável nele. Sua essência é (...) esse vazio, esse oco (...). Sócrates não cobrou em dinheiro, mas o que interpretou foi que Alcebíades queria obrigá-lo a ser ele, Alcebíades, objeto exclusivo do mestre da maiêutica, ao mesmo tempo em que Agathon tornar-se-ia objeto exclusivo do próprio Alcebíades. Ou, dito mais cruamente, Alcebíades queria de Sócrates tão somente fazer dele um bibelô – o mais valioso de Atenas – para guardar em sua coleção - e possuir Agathon – mais jovem e vitorioso no teatro - como amante que lhe fosse absolutamente fiel. No reino dos objetos parciais ao extremo, o sujeito é abolido, reificado, alienado em “coisa” da realidade objetiva. O que Sócrates tenta sugerir para Alcebíades é a natureza transferencial do seu suposto amor, que o Agalma que lhe emprestou pertence a ele mesmo, Alcebíades, ao mesmo tempo que deve direcioná-lo a quem realmente lhe é importante, quem deve ser o verdadeiro receptáculo de todo Agalma, e, talvez, aí possa ter um objeto um pouco menos parcial. A fantasia interpretativa construída sobre o texto de Platão também assinala que, à diferença entre a relação de Sócrates e Diotima, que seria uma relação dual e isto apenas existe como mito para o sujeito, por que não existindo outro também não existe sujeito, a relação transferencial necessita de um terceiro – Sócrates no caso - cuja finalidade última seria a de redirecionar todo desejo a seu verdadeiro objeto. Esta é a demanda consciente ou inconsciente de todo paciente, que o analista lhe ensine a amar melhor e ter algum prazer que lhe satisfaça mais. Se o analista acreditar que ele mesmo é aquilo que em verdade é o Agalma de seu paciente, estará configurada a armadilha da sedução; se o analista brandir o Agalma falicamente e como se fosse seu, temos um belo fetiche e a terapia do ego; e se o analista, consciente ou inconscientemente, se utilizar do Agalma para seu próprio benefício, temos a manipulação e a falta de ética. Ou seja, em todas estas condutas o analista desautoriza-se a si mesmo. CONCLUSÃO: DO BANQUETE E DA INTERPRETAÇÃO Agathon compreende a interpretação de Sócrates e a tentativa de Alcebíades de separá-los e convida Sócrates a permanecer a seu lado o resto do Symposium. A recusa de Agathon deixa Alcebíades furioso. Subitamente irrompe pelo recinto um novo grupo festivo e embriagado e a desordem toma conta. Todos passam a beber sem moderação. Tudo que o narrador, que contou para quem contou a Apolodoro, relatou é que no dia seguinte, exceto por Agathon, Aristófanes e Sócrates, todos dormiam. Mas Sócrates continuava argumentando com ambos poetas se o que produz tragédias também deve produzir comédias e vice-versa. Até que ambos poetas também caíram no sono e apenas Sócrates permaneceu acordado e sóbrio. Dirigiu-se ao Liceu, banhou-se, e passou o resto do dia em suas ocupações de rotina, isto é, dialetizando, e só a noite foi para casa dormir. E assim encerra-se o texto do Banquete de Platão. Lacan assinala que Afrodite renasce todos os dias (mais correto teria sido dizer que é Eros quem renasce todos os dias) e também brinca com o termo grego kallimeros,“belo desejo”, talvez “amor verdadeiro”, talvez “amor eterno”. Que não lhes seja pesado demais pensar, se recordarem que este termo, eterno amor, é colocado por Dante, expressamente nas portas do Inferno. E assim encerra-se a primeira parte de O Seminário, livro 8 – a transferência.
BIBLIOGRAFIA: DORGUILLE, C.e CHEMAMA, R. (org.). Dicionário de Psicanálise - Freud e Lacan. Salvador. Agalma, 1994. FREUD, S. Fetichism, in The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, vol. XXI. The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis, London, reprinted 1978. FREUD, S. An Outline of Psycho-Analysis, in op. cit., vol. XXIII FREUD, S. Analysis Terminable and Interminable, in op. cit. , vol. XXIII GRIMAL, P. Dicionaire de la Mythologie Grecque et Romaine. Paris, Presses Universitaires de France, 1963. KAUFMANN, P. (editor). Dicionário Enciclopédico de Psicanálise – O Legado Freud e Lacan. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1996. LACAN, J. Le Séminaire, livre I – Lês écrits techniques de Freud. Éditions du Seuil, 1975. LACAN, J. O Seminário, livro 8 – a transferência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992. PLATON. Le Banquet. Les Integrales de Philo/Nathan, 1983. PLATON. Le Banquet. Agora/Presses Pocket, 1992. PLATÃO. Diálogos: Mênon-Banquete-Fedro. Rio de Janeiro, Ediouro, 21ª edição, 1999. SBANO, V. Entre Diotima e Alcebíades, in Agora – Estudos em Teoria Psicanalítica. Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, UFRJ/Contra-Capa, vol. 1, nº 1, julho/dezembro 1998.
Asteróide 433, Eros, na Astronomia
Tão logo Eros foi descoberto verificou-se que se tratava de um objeto diferente, pois sua órbita não era igual à dos demais asteróides que já haviam sido descobertos. Ela se situava entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Tem uma excentricidade de 0,223 o que o leva de 1,783 UA a 1,133 UA cruzando a órbita de Marte e se aproximando até 0,15 UA da Terra. Um asteróide possui uma órbita próxima da Terra quando passa a menos de 195 milhões de quilômetros do Sol.
Carcaterísticas orbitales Tipo de órbita próxima à Terra
Semieixo maior: 1.45821 UA
Excentricidade: 0.22290
período orbital: 1,76 años
Inclinação: 10.82948° Características físicas
Diâmetro: 13×13×33 km
Massa: 7,2×1015 kg
Densidade: 2,4 g/cm3
Periodo rotação: 5h 16m
Tipo espectral: S
Albedo: 0,16 Eros é o asteróide número 433 da serie 1898 DQ, descoberto em 13 de agosto de 1898 por G. Witt, desde Berlín. Foi o primeiro asteroide conhecido que franquea a órbita da Terra. Tem uma forma extremadamente alargada, com saliências arredondadas. A maior aproximação que a alcançado à Terra foi de 23 millones de km. Eros é o primeiro asteroide a recever nome masculino, e descoberto a mesma noite do13 de agosto de 1898 por Gustav Witt (1866-1946) (que lhe colocou nome) e F. Linke en Berlín e por Augusto Honorato Pedro Charlois (1864-1910) desde Niza. Eros é o segundo maior asteróide que passa próximo à Terra depois de 1036 Ganamed, pertencentes ao grupo Amor. É um asteróide do tipo "Mars-crosser" pois foi o primeiro a ser identificado em órbita próxima à Marte (planeta). É um dos poucos asteróides com órbita também próxima à Terra com diâmetro maior que 10 km. Acredita-se ser maior do que o que caiu na península de Yucatán formando a cratera de Chicxulub ao qual é atribuído o causa da extinção dos dinossauros. A espaçonave NEAR (Encontro com Asteróides Próximos da Terra), lançada em 17 de janeiro de 1996, passou pelo asteróide Matilde e entrou em órbita de Eros em 14 de fevereiro de 2000. Foram feitas 230 órbitas completas em torno de Eros. Ele foi escolhido porque é do tipo S e não é um dos maiores NEAR. NEAR foi rebatizada como NEAR-Shoemaker em 14 de março de 2000, em homenagem ao geólogo Gene Shoemaker. A densidade encontrada para Eros foi de 2,4 g/cm^3, quase a mesma da crosta da Terra. Isto quer dizer que se trata de um objeto relativamente sólido, muito diferente de Matilde. No dia 12 de fevereiro de 2001, NEAR-Shoemaker desceu em Eros, após transmitir 69 fotos durante a descida. Esta foi a primeira vez que um artefato desenvolvido pela humanidade desceu num asteróide. O sucesso da descida foi tão grande que os instrumentos continuaram a transmitir dados até 28 de fevereiro de 2001, quando foram desligados. Quando a missão Near Earth Asteroid Rendezvous- NEAR (NASA National Aeronautics and Space Administration) entrou em órbita de Eros revelou que a sua superfície era coberta por rególito – detritos rochosos, como gravilha e poeira – e cravada por numerosas rochas gigantescas. A missão também encontrou áreas por onde o rególito tinha aparentemente resvalado, deixando expostos os estratos inferiores. Mas, contrariando as expectativas dos cientistas, a NEAR não descobriu o número previsto de pequenas crateras, resultante da grande quantidade de pequenos impactos que a superfície do asteróide foi sofrendo ao longo dos tempos. Esperavam-se cerca de 400 crateras por quilómetro quadrado, rondando os 20 metros de diâmetro, mas a média aponta para apenas 40 crateras deste tipo. Este fato parece dever-se à existência de abalos sísmicos em Eros, que suprimem cerca de 90 % das crateras com menos de 100 metros de diâmetro. Estas vibrações sísmicas acontecem quando Eros colide com fragmentos de rocha existentes no espaço. O asteróide Eros tem apenas 33 quilómetros de comprimento por 13 de largura. O seu volume é muito pequeno e a sua gravidade diminuta. Basta que um objecto com dimensões de 1 por 2 metros, ou ligeiramente maior, atinja a sua superfície, para que se desencadeie uma vibração sísmica global, que facilmente destabilizará o rególito. Como consequência, as camadas de detritos e poeira deslizam pelos taludes e sofrem pequenos arremessos. Tudo isto acontece muito lentamente, uma vez que a fraca gravidade não permite embates fortes. Desta forma, as crateras vão sendo preenchidas com detritos e acabam por desaparecer. As crateras existentes na superfície de objetos de grandes dimensões provenientes da Cinturão de Asteróides. O Cinturão de Asteróides é a região do Sistema Solar situada entre Marte (1,5 UA) e Júpiter (5,2 UA), no plano da eclíptica, onde se encontra a maior parte dos asteróides, onde Eros passou grande parte da sua vida, estão diretamente relacionadas com o tamanho e a população dos asteróides mais pequenos desta Cintura. No entanto, devido à sua estrutura interna, facilmente propensa a desencadear vibrações sísmicas, Eros vai acabando por apagar muitos dos vestígios dos pequenos impactos que sofreu. O mesmo deverá acontecer com outros asteróides de características semelhantes. Eros é provavelmente um monólito fraturado por grandes impactos, mantido coeso pela gravidade. A sua superfície mostra, em toda a sua extensão, uma série de sulcos e estrias. Algumas dessas fraturas vão até ao núcleo, mas outras são apenas superficiais. Pode mesmo estabelecer-se uma analogia entre a superfície deste asteróide e a crosta da nossa Lua. Foi isso o que os cientistas fizeram para perceberem melhor a propagação da energia sísmica em Eros. No futuro próximo, como resultado dos abalos sísmicos, Eros será mais compacto, apresentando-se menos poroso e com um rególito cada vez mais coeso. O estudo da estrutura interna de asteróides como Eros é fundamental na eventualidade de se enviar um satélite para estudar a população de asteróides próximos da Terra, ou de ser necessário defletir a trajetória de um asteróide em potencial rota de colisão com a Terra. Estas conclusões resultam da análise de modelos efectuada no Laboratório Lunar e Planetário da Universidade do Arizona pelos Professores James E. Richardson Jr. e Richard Greenberg. Os resultados foram publicados a 26 de Novembro na Science. Asteróide: pequeno corpo rochoso que órbita em torno do Sol, com uma dimensão que pode ir desde os 100 m até aos 1000 km. A maioria dos asteróides encontra-se entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Também são designados por planetas menores.
