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Texto Taniko, o Rito do Mar

  



TANIKO
O RITO DO MAR
KASATO MARU
 
de Zencouro


LEMBRANÇA

Na manhã de 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru chegou ao porto de Santos, após uma viagem de 51 dias e vinte mil quilômetros, do Japão trazendo os primeiros 786 agricultores, divididos em 165 famílias. 

Como tantos que se aventuram a tentar a sorte em um país estrangeiro, os integrantes do Kasato Maru não objetivavam permanecer em definitivo no Brasil. 

As músicas compostas durante o trajeto tinham como o cultivo desse desejo estava atrelado à atuação das agências responsáveis pela imigração. Tais instituições mostravam o Brasil como uma nação próspera, cheia de oportunidades; donde os japoneses passaram a alimentar o sonho segundo o qual em cinco anos – ou pouco mais - poupariam dinheiro e voltariam ricos à terra de origem. Contudo, os ganhos irrisórios obtidos nas fazendas afastavam paulatinamente a possibilidade de regresso à pátria. 

Chegaram a Santos por baixo pelo Sul, vindos do nascente. Cruzaram o Cabo da Boa Esperança.   


O PÚBLICO ENTRA, está diante do Cartaz de convocação à Imigração 

Os Atores da CIA DE TEAT(R)O NÔ APRESENTANDO-SE EM KOBE - são  descendentes de Zeame. São Cultivadore da Terra do Teatro. Agricultores Monges Budistas. Atendem ao chamado dos Cartazes e da Propaganda do Governo e decidem vir para o Brasil. A Ilha do Japão tem uma população q é o dobro da de Londres ou de Paris. É preciso esvaziar. Irem para o Brasil para replantar o NÔ, voltarem Ricos e Iniciados nos Ritos da Terra Nova. 

Durante a ação fazem suas despedidas e embarcam no ”KASATO MARU”. Os yamabushis vão à Viagem, tornando-se a alma-corpo dos primeiros emigrantes japoneses para o Brasil envolvendo-se na  nossa mistura  de bossa yogui rebolada.

O Clima em q o Publico entra é de Partida e Excitação da Viagem para o Brasil. Música Japonesa e Brasileira, projeção da Convocação e outras Imagens Míticas Históricas desta Epopéia e do Teatro Nô. Os sinais do GONGO trazem o silêncio. 

1º Parte
WAKI: um Yamabushi no grau de Sotsu no Ajari = Ator rei
KOGATA: O menino Matsuwaka
SHITÉ: a mãe do menino – Máscara de Cacilda Lulú

2º Parte
KOGATA: menino Matsuwaka
WAKI: o Sotsu no Ajari
TSURE: o sub-chefe dos Yamabushis. Segundo mestre.
O BUDA BUNDO
SHITÉ: o anjo da música celestial
DEMONIO GINGAKU

LUGAR:

1º parte
 casa de Matsuwaka, PORTO DE KOBE

2º parte   
rota da travesia

Tempo:
abril; frio de inverno na primavera

1º PARTE

(O coro está yogando a bossa tranZênica rebolada. O público entra.)

CORO
Nô Bossa Nova TranZêniku…

(Três gongos. Entram ao escutar a música tema o Kogata, a Shité, vão até os seus lugares e sentam-se. Na pista da extremidade sul há o ponto do Shite Lulú A MÃE - uma cama com cem facas onde Shite Lulú se deita. O Waki e atrás dele os Iamabushys entra na Ponte no Muro do Jardim. O Waki fica parado na altura do primeiro pinheiro – CEREJEIRA – UMA PLANTA JAPONESA = A CEZALPINA FAZ ESTE PAPEL)

WAKI
Eu sou um Yamabushi, do grau de sotsu no Ajari. 
Eu moro no convento na árvore nagi, no Templo Imaguma-no. 
Eu tenho um noviço, um cabaço; 
o pai morreu e ele vive sozinho com a mãe. 
Eu vim para a capital para me despedir 
porque eu estou de partida pro Brasil 
numa emigração Yamabushi peregrino pelos mares, até os Santos. 

(entra na pista dirige-se ao Shité)

WAKI
Posso entrar?

KOGATA
Quem é?
(levanta-se e vai ao centro da pista)
Ah, o mestre veio me visitar!

WAKI
Matsuwaka, por que faz tempo que você não vai mais ao teatro?

KOGATA
Eu não fui porque minha mãe ficou doente.

WAKI
Eu não sabia. Vá logo dizer a sua mãe que eu estou aqui.

KOGATA (vai até o Shité)
Mãe, o mestre está aqui.

SHITÉ
Mande ele entrar.

KOGATA
Entre, por favor.

(O Waki vai até o centro da pista e senta-se. O Kogata volta ao seu lugar. O Waki se dirige ao Shité)

WAKI
Faz muito tempo que eu não visito vocês. 
Matsuwaka disse que você está doente. 
Como tem passado?

SHITÉ
Eu já estou me sentindo melhor. Não há de ser nada.

WAKI
Fico contente por ouvir isso. 
Eu vim me despedir porque eu estou de partida para o Brasil…

CORO
…numa emigração de yamabushi peregriNô.
Até os Santos…

SHITÉ
… numa emigração de yamabushi peregriNô.
Até os Santos…?
Ah, é mesmo. 
Eu ouvi dizer. É um ritual muito necessário, muito importante, 
mas também ouvi dizer que é uma viagem muito perigosa. 
Você quer levar Matsuwaka?

WAKI
Não é uma viagem que uma criança pudesse fazer.

SHITÉ
Então, volte logo. Eu lhe desejo boa sorte,
Ouro

CORO
Ouro

WAKI
Adeus.
Logo eu vou estar aqui de volta. 

(Vai até o ponto de Shité.
O Kogata levanta-se, vai ao centro do palco e dirige-se ao Waki)

KOGATA
Eu tenho que dizer uma coisa.

(Waki fica parado ao lado do ponto do Shité e se dirige ao Kogata)

WAKI
O que é?

KOGATA
Matsuwaka quer ir com você ao Brasil.
Como yamabushi emigrante peregriNô.
Até os Santos…

WAKI
Nunca! Eu acabei de dizer à sua mãe: 
esta emigração de yamabushi peregriNô tem muitas regras 
e exige um treinamento rigoroso, 
não há possibilidade de você vir conosco. 
Além disso você não poderia deixar sua mãe aqui, 
ela está sozinha e doente. 
É impossível! Desista!

KOGATA
Não! Eu quero ir com você por que a minha mãe está doente. 
Eu vou pra trabalhar por ela.

WAKI
Sendo assim, eu tenho que falar com sua mãe novamente.

(O Waki volta, senta no centro da pista e se dirige ao Shité, 
o Kogata volta ao seu lugar)

WAKI
Estou aqui de novo. 
(O coro olha para o Mestre)
Matsuwaka disse que quer nos acompanhar até o Brasil,
na nossa emigração de yamabushi peregriNô. 
Eu disse a ele que esse desejo seria impossível de se realizar 
por causa da sua doença 
e também pelas dificuldades que esse caminho duro exige de nós. 
O que é que vamos fazer?
(O coro olha o público, perguntando o que fazer.)

SHITÉ
Eu ouvi o que ele disse. 
Eu não duvido do que Matsuwaka disse.
Ele gostaria de ir com você pro Brasil, 

SHITÉ e CORO
numa emigração de yamabushi peregriNô…
(Todos gargalham zen de Matsuwaka, que se enfurece.)

SHITÉ
Mas…
(ao Kogata)
Desde o dia que seu pai nos deixou,
eu só tenho você ao meu lado,
até quando você não está longe 
eu não consigo me esquecer de você,
nem por um minuto.
Não se esqueça,
nem por um minuto,
do meu amor por você.
Por amor, desista…
Por amor, desista…

KOGATA
É tudo aquilo que você disse,
mas mesmo assim eu quero fazer essa emigração,
ser… 

KOGATA e CORO
um yamabushi emigrante peregriNô.

KOGATA
Passar por todas aquelas provas difíceis,
pra trabalhar pela sua saúde nesta vida.
Foi só por esse motivo que eu tomei esta decisão.

CORO
Ele continuou pedindo 
e pressionando,
o mestre e a mãe, comovidos por este amor filial,
derramam lágrimas…

WAKI 
Profunda emoção…


CORO
E a mãe disse:

SHITÉ
Eu não tenho mais forças.
(Ela perde as forces. A presença do Buda é sentida na flauta.)
Se é assim que tem que ser,
vá com o Mestre,
volte logo.

CORO
Está na hora da despedida.
Din din don, din din din don
Din din don, din din din don
Din din don, din din din don
Din din don, din din din don
Din din don, din din din don 
Diante dos olhos,
os diversos objetivos do caminho.

KOGATA
Eu vou fazer essa viagem perigosa,
levando no meu coração a volta pra minha casa.
Ah, que caminho mais longo,
pra praia dos Santos!!

SHITÉ
Que o seu desejo se realize!

KOGATA
Só de ver ao longe
as ondas  rebolando (olhando para Kogata)
(vira para o público, com os braços – ondas)
pelas Ilhas dos Mares do Sul 
e pelo Cabo da Tormenta
eu já fico cansado.

CORO
Ah, quanta dor na despedida
da mãe e do filho amado!
Ah, quanta dor na despedida
da mãe e do filho amado!
Ah, quanta dor na despedida
da mãe e do filho amado!


SHITÉ
OURO!

CORO
OURO!
OMAKU!

(O Waki e o Kogata vão até o ponto das facas do Shité, o Shité levanta-se e os acompanha alguns passos. No final do coro o Waki e o Kogata deixam a pista, o Shité vai atrás.)
2º PARTE

(Entram o Kogata, o Waki, o Tsure e os Waki no Tsure – TAMBORES JAPONESES, FLAUTAS E TECNOS) 

WAKI
A fé nos deuses
nos fortalece
no caminho que hoje iniciamos.

TSURE E WAKI NO TSURE
A fé nos deuses
nos fortalece
no caminho que hoje iniciamos.

KOGATA
O amor por minha mãe
me fortalece
no caminho que hoje inicio.

CORO (da a volta em torno do Waki, Cogata e Tsure)
O amor por tua mãe
te fortalece
no caminho que hoje te inicia.
 (Tsure o veste. Waki maquilha. Fala japonês e JO)
(Inicialmente falando para Matsuwaka)

E o menino toma a inesperada aparência
de Yamabushi emigrante peregriNô…
Nô… Nô… Nô…

(O Kogata veste os parangolés dos yamabushi.
Ele é iniciado no Tai Chi - samba, 
se volta pros 4 cantos e pro inferno e pra terra e pro céu.  
Rebola, samba.
APITOS DE NAVIO CHAMANDO PRA PARTIDA.
Os Yamabushis pegam seus barquinhos pra embarcarem no Kasato Maru)

(Saudação a Kogata. Giro. 4 passos – 4 tempos. Pega o barquinho.)

CORO
KASATO MARU KASATO MARU
KASATO MARU…
   
KOGATA
O Barquinho existe
mas eu vou a nado… 
(dá o barquinho com os papelzinhos a Kogata. Ele coloca na cabeça. Todos pegam neve. Viram. Sobem o braço direito. Deixam cair a neve.

(O navio parte, ainda no tempo frio que sobrou do inverno. 
A viagem segue no tempo, que vai mudando. O Kogata sente um aperto de saudade. Todos sentem com ele e daí percebem a mudança de estação.)

CORO
Teu coração está cheio de saudades…
É Primavera!
Como o tempo passa!

Primeiro Mês
Distante da terra natal…
Que dor!

A travessia do Écúardor…

(A travessia é realizada no próprio corpo) Tres gargalhadas.

TSURE
Tierra de Singa Pura!

CORO
Terra de Singapura!
Terra de Singapura!
Terra de Singapura!
Terra de Singapura!

Tsunami! 

(Todos sentem o tsunami e chegam a um porto. Observam dos dois lados e reconhecem:)

Cais de Java
Mar de Verão!
Nas águas do Índico, maior calorão!

(Lançam-se ao mar)

O vento do mar corre quente, Vulcões choram.

(dois muçulmanos rezam)

KOGATA
Vozes marcam o crepúsculo dos dias…
(todos ouvem as vozes médio orientais do crepúsculo)
Vozes marcam o crepúsculo dos dias…

(explodem as bombas. Hiroshima)

CORO
Vulcão Sumaru 
Q calor! Fico nú!

Longe,
varrendo a terra,
caminha meu olhar em direção 
ao Tahiti!

Passamos,
de coração partido por não poder parar
ali.

CORIFEU
Ilha, ilha do amor Madagascar!

CORO
Ilha, ilha do amor Madagascar!
Ilha, ilha do amor Madagascar!
Ilha, ilha do amor Madagascar!
Ilha, ilha do amor Madagascar!

CORIFEU 
O pé dos Picos do 


CORO
Kilimanjaro
(reverencia no chão)

CORIFEUS
deram Boa Esperança!
A Cidade do Cabo, (se levantar rápido)
terra das tormentas…

CORO
Vimos ao longe.

O Atlântico brinca com o Índico
aqui nesse encontro magnífico…
Pingüins, golfinhos,
focas e tubarões 
se aquecem animados
dançam pro Maru 
depois do cabo ter dobrado.
A tormenta deixou nosso corpo requebrado…
Atlântico!
Te adentramos mareados.

Los ojos, viajando para el occidente
Descubrem el viento que viene caliente

Entramos, surfando, en la corriente
De la agitación de los penachos empalmados

Plátanos empinados en los hombros erizados
De lomas de color de musgo
De la pequeña Isla 
del Diablo

És la maré de Anhatol Mirim… 

fuimos capturados.

(Waki se dirige para frente, até a beira da pista e depois volta, representando desta forma o percurso da viagem do grupo. Quando o coro termina de cantar, o Waki se dirige para a frente)

Quiem es que manda en los vientos del mar?
Quiem escojió este lugar?
Fuimos lanzados tan rápido en este recanto,
Q ya oimos de las mandrágoras el canto….
Sambaqui…

(ao Mestre)
Vamos aproveitar pra descansar um pouco.
(ao Tsure)
Vamos aproveitar pra descansar um pouco.

TSURE
Assim seja

(Os Waki no Tsure vão com o Tsure, do lugar do Waki até o lugar da orquestra e sentam-se, um ao lado do outro, num círculo)

WAKI (ao Kogata)
Vá deitar um pouco.

KOGATA (ao Waki)
Eu tenho que dizer uma coisa.

WAKI
O que é?

KOGATA
Eu não estou me sentido bem.

WAKI
Não diga mais nada! 
Quem partiu nesta emigração de yamabushi peregriNô, 
não pode dizer isto! 
Você deve estar enjoado
por não estar acostumado 
às ondas do mar, 
deite e descance.

(O Kogata e o Waki trocam de lugar, o Kogata deita e encosta a cabeça nos joelhos do Waki. O Tsure levanta-se defronte aos Waki no Tsure)

TSURE (aos Waki no Tsure)
Eu ouvi Matsuwaka dizer que ficou doente durante o encalhe. 
Eu vou perguntar isso ao mestre.

WAKI NO TSURE
Sim. Faça isso!

TSURE (ao Waki) 
Eu ouvi Matsuwaka dizer que não está se sentido bem. 
O que há com ele? 
Eu estou preocupado com ele.

WAKI
Ele não está se sentido bem, mas não há nada com ele, 
ele está somente enjoado por causa do balanço do mar.

TSURE
Então eu fico aliviado.

WAKI NO TSURE (ao Tsure)
Escute! Mesmo que o mestre tenha dito 
que Matsuwaka esteja somente enjoado por causa do balanço do mar,
nós achamos a condição do menino muito suspeita. 
Então nós temos que seguir a Grande Lei do Rito do Mar?

TSURE
É o que nós temos que fazer. Eu vou avisar o mestre. 
(Ao Waki) 
Mestre, quando há pouco perguntei por Matsuwaka 
o senhor disse que ele estava somente enjoado 
por causa do Balanço do Mar.  
Mas agora ele está com a aparência muito estranha. 
É terrível ter que dizer isto, 
mas existe a Grande Lei, 
tradição transmitida de geração em geração 
e todos têm a mesma opinião: 
nós vamos praticar com ele o Rito do Mar.

WAKI
Como? 
Estão dizendo que nós temos que submeter Matsuwaka 
ao Rito do Mar?

TSURE
Isso. Mesmo.

WAKI
Sim.
É a Grande Lei. 
Eu não posso me opor a ela. 
Mas eu acho justo que se pergunte aquele que fica doente 
se se deve voltar por causa dele. 
Eu tenho muita pena do bom coração dessa criança. 
Eu vou explicar a ele, com o maior cuidado, a Grande Lei.

TSURE 
Por favor faça isso.

OS WAKI NO TSURE 
Nós vamos lhe perguntar 
se ele quer que se volte por causa dele.
Porém, mesmo se ele quiser,
nós não vamos voltar,
e sim deixar ele aqui e continuar.

WAKI
Escute, Matsuwaka, presta muita atenção no que eu vou dizer. 
Há muito e muito tempo existe a Grande lei: 
se algum yamabushi emigrante peregriNô 
for atacado por alguma doença no meio do caminho, 
ele tem que ser atirado no mar 
morrendo afogado. 
Esse é o Rito do Mar. 
Ah, se eu pudesse morrer no seu lugar, 
com que prazer eu morreria!
Mas agora eu não posso fazer nada por você. 
Nestas condições o que se ama se deve matar. 
Mas é justo que se pergunte àquele que ficou doente 
se se deve voltar por causa dele, 
e o costume exige que aquele que ficou doente responda: 
vocês não devem voltar por minha causa.

KOGATA
Eu entendo.

WAKI
Você exige que se volte por sua causa?

KOGATA
Não.
Eu sabia que se fizesse esta viagem eu poderia perder a minha vida. Mas só em pensar no sofrimento da minha mãe, 
eu já começo a sentir uma dor profunda. 
É com muita dor no coração que eu me separaria de vocês.

WAKI
Então você não está de acordo em ser jogado no mar.

KOGATA
Eu quero pensar.
(Pausa para reflexão)
Não, eu não estou de acordo.

WAKI (gritando)
Ele não está de acordo.

WAKI NO TSURE
Ele não respondeu conforme a necessidade.

CORO
Ele disse não..
Ninguém consegue achar uma palavra de consolo
Todos levantam as vozes
e lamentam…
Afogados em suas lágrimas,
sua tristeza nos comove
Nós estamos cheios de pena.

WAKI NO TSURE
Nós estamos profundamente comovidos e cheios de tristeza.
É assim o caminho deste mundo de sofrimento. 
Mas, antes de tudo se trata da Grande Lei
– na presença dos deuses não existe liberdade.
Nós temos que submeter o menino ao Rito do Mar

(Eles se levantam, juntos, e dirigem seus olhares fixamente para Matsuwaka)

WAKI
Eu sou o guia vocês, mas eu também sou mestre do menino, 
eu sou muito ligado a ele por isso nada me consola. 
A minha vista está escurecendo e as lágrimas estão me cegando.

CORO
Nada consegue represar suas lágrimas,
Ele só tem um desejo:

WAKI
Ah, se eu pudesse compartilhar seu destino.

CORO
Mas este desejo é tão doloroso,
Que nunca se realiza.

TSURE
Está na hora.

(Os Waki no Tsure se levantam ao mesmo tempo)

KOGATA
Eu quero dizer uma coisa.
Eu peço que não me joguem no mar 
e sim me matem todos com seus punhais 
porque eu tenho medo de morrer sozinho.
Depois joguem meu corpo ao mar.

WAKI NO TSURE
Nós não podemos fazer isto.

(Seguem pra ir embora)

KOGATA
Parem! Eu exijo.

WAKI
Vocês decidiram continuar e jogá-lo no mar.
Fácil decidir o seu destino,
mas difícil é executá-lo.
Estão prontos para apunhalar todo corpo do Menino?

WAKI NO TSURE
Sim.
Senta em nossos braços,
não faça força.
Nós levamos você com cuidado.

KOGATA
Tomem meu cantil,
ponham o café que colherem no Brasil
e levem para minha Mãe,
quando vocês voltarem.

CORO
Juntos nós tomamos a difícil decisão,
e como se uma espada do destino
nos atravesse o corpo
apunhalamos o menino 
nas tábuas 
e jogamos depois no mar
pétalas de flores 
umas pedrinhas
depois a Tábua com o corpo d”Ele.

(Os Waki no Tsure pegam o Kogata, levam o menino até em ponto norte da pista e cravam cem punhais em torno dele. 
Cobrem o Kogata com Manto do Mar e depois voltam aos seus lugares.)

CORO
Das muitas 
experiências que se tem na terra,
a mais triste é quando uma pessoa 
se separa da outra 
e as duas estão vivas,

Por isso
a separação 
pela morte é melhor…

Dói menos…

A eterna transformação 
de todas as coisas
É a lei do mundo.

A vida
É como um sonho
É como orvalho
É como um relâmpago
É como uma bolha
Será que o Yamabushi não enxerga essa lei
E o profundo sentido dessa lição?

TSURE (ao Waki)
As águas estão subindo. Vamos embora!

WAKI
Não. Eu não estou de acordo. Eu não vou continuar.

TSURE
Se o nosso mestre não vai continuar, o que vai ser de nós?
Vamos embora!

WAKI
Pense bem: o que é que eu vou dizer a mãe deste menino 
quando nós voltarmos à terra natal? 

No fundo não existe diferença entre a doença e a dor 
e por isso eu quero ser submetido ao Rito do Mar. 

Ou criar outra lei
– Não se mata o que se ama.

WAKI NO TSURE
O meste tem motivo para sentir tanta dor, 
mas escutem a nossa opinão: 

vamos chamar o criador do nosso tyazo, Zeami 
e lhe suplicar que Matsuwaka volte mais uma vez na vida. 
Não se mata o que se ama…

WAKI
Era o meu desejo ouvir essas palavras. 
Vamos fazer uma atuação!

TODOS
Assim seja.

(Os Waki e os Waki no Tsure se levantam ao mesmo tempo 
e se dirigem para a gira de invocação.)

WAKI
Pelo phoder de Zeami…
WAKI NO TSURE
Pelo phoder de Zeami…

WAKI
…em quem há tantos anos confiamos…
WAKI NO TSURE
…em quem há tantos anos confiamos…

WAKI
…pela deidade dessa embarcação…
WAKI NO TSURE
…pela deidade dessa embarcação…

WAKI
…Pelos bons deuses que mantém a lei de Buda Dionyzos.
WAKI NO TSURE
…Pelos bons deuses que mantém a lei de Buda Dionyzos.

WAKI
Ao fundidor da nossa linha, aquí, no trópico das cabras…
WAKI NO TSURE
Ao fundidor da nossa linha, aquí, no trópico das cabras…

WAKI
…Exu de Pindorama.
WAKI NO TSURE
…Exu de Pindorama.

WAKI
Bundo.
WAKI NO TSURE
Bundo.

WAKI
Aqui.
WAKI NO TSURE
Aqui.

WAKI
…Suspirando, gemendo e amando
comendo e sendo comido nesse mar de lágrimas…
WAKI NO TSURE
…Suspirando, gemendo e amando
comendo e sendo comido nesse mar de lágrimas…

WAKI
Venha Tesão…
WAKI NO TSURE
Venha Tesão…

WAKI
Com paixão.
WAKI NO TSURE
Com paixão.

WAKI
Atenda nosso desejo!
WAKI NO TSURE
Atenda nosso desejo!

WAKI
Mande o mensageiro do Espelho da flor!
WAKI NO TSURE
Mande o mensageiro do Espelho da flor!

WAKI
O Anjo da música Celestial!
WAKI NO TSURE
O anjo da Música Celestial!

WAKI
Infernal.
WAKI NO TSURE
Infernal.

WAKI
Terrenal.
WAKI NO TSURE
Terrenal.

WAKI
Tenha carinho por nós! Carinhoso.
WAKI NO TSURE
Tenha carinho por nós! Carinhoso.

WAKI
Que venha o maravilhoso!
WAKI
Que venha o maravilhoso!

WAKI
O charme do profundo!
WAKI NO TSURE
O charme profundo!

WAKI
A flor rara!
WAKI NO TSURE
A flor rara!

WAKI
O conhecimento!
WAKI NO TSURE
O conhecimento!

WAKI
A primeira beleza!
WAKI NO TSURE
A primeira beleza!

WAKI
A força bruta!
WAKI NO TSURE
A força bruta!

WAKI
O chumbo grosso!
WAKI NO TSURE
O chumbo grosso!

WAKI
O ouro puro!
WAKI NO TSURE
O ouro puro!

WAKI
As tecnologias!
WAKI NO TSURE
As tecnologias!

WAKI
A existência e O nada!
WAKI NO TSURE
A existência e O nada!

(Todos chegam ao nada. Zeami não vem)


YAMABUSHI
Zeami, trabalha!

CORO
Zeami trabalha! 
Manda o seu enviado,
o deus que dança
a música
do Espírito da Terra.

(Todos fecham as mãos e batem bossa novando as batidas de Moliére. 
Surge Zeami.)

ZEAME (Surge no Barco)
Pela Deidade
Desta Viage 
Toquem de Cabo a Cabo
Com Fogo no Rabo
O KasatuMáru
á Céu Claro 
Pr’onde Dança CacildaAriadne Lulú,
a Puta Sagrada do Touro Zebú.
 
Yamabuche Peregrino
Afine!
No Caracol Rebolado Kundaline
Penetra o Labrynto 
de Terreiros do Fundo dos  Mundos
Onde Suinga o Orixá Buda Bundo!
Negro Marinheiro
Brazileiro
 
O Dragão do Mar
No Braseiro
Da Fornalha
Desta Embarcação
O Bundo não Falha 
No Porto dos Santos 
Vai abrir, Vosso Coração 

O Cogata está
Onde está
Amor, não Mata
Tira do Menino,
Cada Faca!
Vivo  
como a Rubra Flor do Café
Iamabuche Peregrino
Não perca o Pé!
É no Teatro do Condomblé
Q a entidade retorna ieré
Nos Santo da Santeria
O Milagre da noite deste dia.
Iamabuche Peregrino
Afine!
No Caracol Rebolado Kundaline 
Pela Deidade 
Desta Viage
Em Busca do Touro
Zeame deseja Ouro

CORO
Ouro.
(Chamando Buda Bundo)
Brazirero!
Marinheiro da fornalha!
(Dão novas batidas. O Bundo não responde)
Desencalha!
(estalam os dedos delicadamente pra viagem continuar.)

BANDA
Yemanjá!

CORO
Beirando O Mar…

BANDA
Yemanjá!
CORO
Yeman…yá…

BANDA 
Oxum…

CORO
Oxum… 
Um Porto Alegre, muito Gaio  
Santos! Ilha do Papagaio! 
Santos! Santos!

…Pela deidade desta terra orlada de mar …

(Dançam com Tambores e Iaôs do Lugar. Vem Cacilda Shité Lulú com seu fio água de Cacilda Ariadne, dançando com as águas do mar e da Terra, próxima às Tabuas do Navio)

CORO
Ió! 
Cacilda Ariadne Lulú!
Traz das Águas o Menino
Pra Praia de Jesus Menino

ANJO DA MUSICA CELESTIAL
Busquem Buda Bundo
o Deus do fundo,
deste Novo Mundo,
no meu fio de Ariadne Cacilda Lulú,
o Touro Preto Zebú.

(Ela entrega o fio do labirinto, o coro em caracol vai buscar o Bundo. 
En o Gyôa O Buda Bundo vai sendo descoberto. 
Ele está semi Nú. É o Marinheiro da fornalha Dragão do Mar…)

BUDA BUNDO
O Buda Bundo depois 
de longa e dolorosa disciplina,
escalando veredas de morrros, favelas, esquina… 
Foram purgados os três venenos,
Ao menos
A Insensatez, a Raiva e a Ganância, 
A escuridão da desilusão se dissipou…
Voltou 
a Infância
no assentamento do Menino 
em que os esforços
Acumularam mérito e virtude 
sem remorso…
A lua da iluminação é brilhante,
luiz, meu bem!
Ela não deixa nenhum canto sem
luiz, meu bem!
No silêncio onde nenhuma voz é ouvida
A Criatura num canto sagrado silente 
é percebida…
Da Presença do Bundo vocês estão diante   
Na forma Luz Pura. Radiante.
A vocês todos, rogo 
escutem as  palavras que Jógo
De meu Canto 
No Canto
A criança mostrou uma natureza
De inseparável devoção à Beleza
A Lulu, o Espírito da Terra, da Certeza!

E por esta razão ou sem demora
Vou trazer Luiz de novo, agora.!
Todos, não há nada a temer!


WAKI
Oh, maravilha q faz tremer,
Mas você, é que tipo de ator  
de quem nós ouvimos essas palavras de amor?

O BUDA BUNDO
Eu sou um dues, porra!
Está me achando com cara de Comediante?
Agora eu vou virar! 
(Os ogãs começam a gira e o marinheiro começa a incorporar)
Yemanjá… 

CORO
Yemanjá!

O BUDA BUNDO
e chamar o Infante do Mar…

WAKI
Costeletas e barbas transformadas algas, e ondas…

BUDA BUNDO
…Cabelo fios trançados de fibras d'água q tudo sonda.

CORO
É o famoso Dragão do Mar!
Salve!
O navegante negro,
que tem por monumento
as pedras pisadas no cais… 
O Dragão do Mar…

O Bundo 
comovido com suas crianças,
mostrou 
diante dos olhos 
suas bonanças…
Ah, Maravilha aterrorizante!
É verdade! 
Como todos os seres vivos,
um Waki fica doido de amor pelos iniciantes
especialmente pelo amado, amante.

O BUDA BUNDO
Agora eu vou exibir a que grau
a piedade de Buda Bundo é dada a  qualquer homem, até ao vagau.
Espere! Mais um momento vocês vão ver!
Eu chamo o meu mensageiro. Omaku?

CORO
…Omaku… 

O BUDA BUNDO
Vem Demônio Gingaku  
Apareça 
ao meu comando, 
Apodreça e Apareça!

(A Shité da segunda parte, o Demônio Gingaku, aparece na ponta até o primeiro pinheiro. O deus entra ao tocar rápido da flauta e para na Primeira Palmeira Imperial, ou Cezalpina fazendo o papel dela…. 
Ela veste a Máscara de Touro de Flávio de Carvalho, e traz uma cauda de Sereia do Mar e da Terra)

CORO
O Demônio Gingaku está baixando,
O Demônio Gingaku está baixando!

(O Deus Iemanjá Nipo Brazileira entra na pista)

Ela diante do Buda Bundo. 
Vira Sereia Começa a Nadar 
Dança a dança do Mar e de Amar  
Sobre Ondas de Água
Q cobrem o Menino e a Tábua   
Voa velozmente agita o Mar 
Traz pra Praia a Tábua, a Boiar
Com o Menino jogado no Mar.

(corre)

de cima dele, areia, conchas, começa a tirar  
Algas, cachos de frutos do mar… 

SHITÉ
Arranquem cada punhal
com muito cuidado não pensem no bem, nem no mal 
Joguem Feridas Flores no Mar… 
( a Banda toca uma suavíssima Bossona Nova Zen)
Sem feridas no s braços,
pros abraços 
do Mestre,
levante, menino!
(O menino levanta, abre os braços e vai até o Waki)

CORIFEUS
No seu rosto expressão de alegria,
Com muito cuidado o Mestre acaricia 
os cabelos do Menino,

CORO
e todos yoguis Nipo Brazilinos 
rebolam anus ora fechado, ora aberto   
respirando São João Gilberto 

(o Waki toca o rosto do menino com seu rosário)

WAKI
Salve Entidade do Nô Requebrado
Iogui Bossa Nova Inspirado depois Expirado 
Baixe Coração do Espirito da Terra  
feito Amor q não erra 
Sempre q a falta d inspiracão mata! 
Baixe, se apresente Cogata.

CORO 
Ere Ere Ere Ere
Ere Ere Ere Ere

Ele se afasta
Demônio Gingaku
Quente e sensual
da Música Celestial, terrenal, infernal
vai com ele sempre com carinho
E abre caminho.

(O Shité levanta-se e volta-se para trás, as tábuas da pista vão sendo colocadas e o coro vai pisando cada tábua conquistada)

E continuamos
Há cem anos
Primeiro ao Ouro Negro Lá longe nos Cafezais 
Rumamos 100 sóis em torno da Terra, fatais 
Lá longe bem perto
Mais longe mais perto 
Lá em cima, em baixo 
Lá em cima, em baixo 
Lá em cima, em baixo 
Brazirero japon
Lá. Aqui, rebolando, tudo bom. 
Fé na tábua
Pé em Deus 
Adeus
Até á volta, meu caro
Kasato Maru
Atravessamos a ponte de pedra
Que nunca ninguém viu,
Mas que assim mesmo, existe,
No ar 
Desaparecemos
Aparecemos 
No Ouro Dourado
No ar Refinado 
No ar
 (Todos saem pela Ponte do Nô,  deixando suas Entidades no ar. Voltam para agradecer e cantam com - Imagens Projetadas de Luis, de Artistas de No no Japão e aqui no Brasil, de João  Gilberto e do Bairro da Liberdade)

Sim Sim Juremos
que nos juntaremos!
Oh! Negligência,
Independência!
Prazer prazer
e felicidade
sois vós, sois vós
querida LIBERDADE!

Nisei 
Sansei 
Zen, sei
Nem sei
Nem Zem
Tambem
Indígena do Ouro Negro 
Do Ouro Negro Dourado
Indígena do Ouro Negro 
Do Ouro negro Refinado
Requebrado
Vamo pra Osaka
Com o Cogata 
Nô Kasato Maru

Omaku 

Ouro 


Cultura

Taniko, o Rito do Mar

Texto Taniko, o Rito do Mar


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Se desejais chegar à casa da alma,
buscai no espelho o rosto mais singelo.
Rumi